top of page

O começo do ministério na Galileia | Marcos 1:14-15


I. Introdução e Contextualização


O início do ministério público de Jesus, conforme narrado em Marcos 1:14-15, constitui o punctum saliens da história da redenção. Estes dois versículos não são meramente um prólogo cronológico ou uma nota de rodapé geográfica; representam a dobradiça teológica sobre a qual gira a porta da salvação humana. Eles marcam a transição definitiva da era da promessa para a era do cumprimento, da sombra para a realidade, da expectativa profética para a realização messiânica. O evangelista Marcos, conhecido pela sua concisão urgente e estilo dinâmico, condensa aqui a totalidade da teologia do Novo Testamento numa declaração programática que define não apenas o conteúdo da pregação de Jesus, mas a própria natureza da realidade cósmica alterada pela Sua presença.


Para compreender a magnitude destes versículos, é imperativo situá-los no vasto panorama da revelação bíblica e no contexto imediato da narrativa marcana. O evangelho de Marcos, frequentemente descrito como uma "paixão com uma longa introdução", não se detém em genealogias ou narrativas de infância. Como observa Wiersbe, Marcos apresenta Jesus imediatamente como o Servo em ação, aquele que veio para fazer a vontade do Pai. A narrativa salta do batismo e tentação diretamente para a Galileia, impulsionada pelo Espírito e pela crise política gerada pela prisão de João Batista.  


A prisão de João não é um mero acidente histórico; é um sinal escatológico. João, o último dos profetas da Antiga Aliança, a "voz que clama no deserto", é silenciado pela tirania humana. Contudo, como nota Edwards, o silenciamento da voz do precursor não resulta no fim da mensagem, mas serve como o catalisador divino para a manifestação da Palavra Encarnada. O fim do ministério de João marca o início do ministério de Jesus. Há uma continuidade e uma descontinuidade: continuidade na chamada ao arrependimento, mas descontinuidade na proclamação da chegada do Reino. Onde João apontava para o futuro ("aquele que vem depois de mim"), Jesus aponta para o presente ("o tempo está cumprido").  


Hendriksen ressalta que o Evangelho de Marcos não contém narrativa do nascimento, mas enfatiza a verdade do "vindo do céu" (cf. Mc 1:38), indicando uma cristologia de preexistência e missão divina. Jesus "veio" para a Galileia. Este verbo, aparentemente simples, carrega o peso da encarnação e da invasão divina no território humano. A Galileia, frequentemente desprezada pela elite religiosa de Jerusalém como "Galileia dos Gentios", torna-se o palco da revelação. Isso, por si só, é uma declaração teológica: o Evangelho não está confinado aos centros de poder religioso ou político; ele irrompe nas margens, nas fronteiras, onde a necessidade humana é mais palpável e as estruturas de poder são mais vulneráveis.  


A teologia contida nestes versículos é densa e multifacetada. Ela aborda a teologia do tempo (kairos), a teologia política (basileia), a antropologia moral (metanoia) e a epistemologia da fé (pistis). Cada palavra foi escolhida sob a inspiração do Espírito Santo para transmitir não apenas informações, mas uma exigência de transformação. Como veremos, Marcos 1:14-15 não é um convite passivo; é um ultimato real. O Rei chegou, o tempo acabou, e a neutralidade já não é uma opção possível.


Neste estudo, empreenderemos uma jornada rigorosa através da filologia, da história, da arqueologia e da teologia sistemática. Analisaremos a estrutura literária que sustenta a mensagem, dissecaremos os termos gregos originais à luz do seu fundo hebraico e aramaico, e exploraremos as implicações desta proclamação para as controvérsias teológicas que moldaram a história da Igreja. O objetivo é fornecer uma compreensão exaustiva que satisfaça o intelecto rigoroso e alimente a alma devota, demonstrando que nestes dois versículos reside o DNA do cristianismo.


II. Estrutura Literária e Análise Retórica


A análise literária de Marcos 1:14-15 revela uma estrutura meticulosamente construída, desenhada para maximizar o impacto retórico e teológico da mensagem. Marcos, embora escreva num grego koiné muitas vezes considerado "rústico" ou "de mercado" em comparação com o estilo literário de Lucas ou a grandiosidade teológica de João, demonstra aqui uma sofisticação notável na organização do material. Ele utiliza técnicas de condensação e paralelismo para criar uma declaração que é fácil de memorizar, mas impossível de esgotar.


A Ponte Narrativa e o Sumário Querigmático


Literariamente, estes versículos funcionam simultaneamente como uma "ponte narrativa" e um "sumário querigmático".


  • Ponte Narrativa (v. 14): O versículo 14 liga a secção preliminar do Evangelho (o ministério de João, o batismo e a tentação de Jesus - 1:1-13) ao corpo principal do ministério galileu. A cláusula temporal "Depois de João ter sido entregue" serve como um marcador cronológico e temático, sinalizando o fim de uma época e o início de outra.


  • Sumário Querigmático (v. 15): O versículo 15 resume o conteúdo da pregação de Jesus. Os estudiosos debatem se este é um resumo criado por Marcos (uma Sammelbericht) ou uma preservação ipsissima vox (a própria voz) de Jesus. A evidência, incluindo o uso de semitismos e a estrutura rítmica, sugere que Marcos está a preservar a essência, se não as palavras exatas, da proclamação inaugural de Jesus.  


A Estrutura de Paralelismo Sintético e Quiasma Implícito


A mensagem central no versículo 15 é construída sobre uma estrutura de paralelismo sintético, comum na poesia hebraica, onde a segunda linha complementa, expande ou responde à primeira. Além disso, há uma relação lógica de causa e efeito entre as declarações de facto (indicativos) e as declarações de dever (imperativos).

Podemos visualizar a estrutura retórica da seguinte forma:


Segmento

Texto Grego

Tradução Literal

Função Gramatical

Categoria Teológica

A

Peplerotai ho kairos

Foi cumprido o tempo

Verbo (Perfeito Passivo) + Sujeito

Escatologia (O "Quando")

B

kai engiken he basileia tou theou

e aproximou-se o Reino de Deus

Verbo (Perfeito Ativo) + Sujeito

Soteriologia/Política (O "O Quê")

C

metanoeite

arrependei-vos

Verbo (Presente Imperativo)

Ética Negativa (Afastar-se do mal)

D

kai pisteuete en to euangelio

e crede no evangelho

Verbo (Presente Imperativo) + Objeto

Ética Positiva (Abraçar o bem)

Análise Detalhada da Estrutura:


  1. O Fundamento Indicativo (A e B): As duas primeiras orações são declarações de facto divino. Jesus não ordena que o tempo se cumpra ou que o Reino chegue; Ele anuncia que isso já aconteceu ou está a acontecer.


    • O uso do tempo perfeito (peplerotai, engiken) é crucial. O perfeito grego descreve uma ação completada no passado com resultados que perduram no presente. Significa que o cumprimento do tempo e a chegada do Reino são realidades estabelecidas, factos consumados que alteram o panorama da existência humana permanentemente. A teologia precede a ética; a graça precede a lei. Deus age primeiro (o tempo cumpriu-se, o Reino chegou), estabelecendo o contexto para a resposta humana.  


  2. A Resposta Imperativa (C e D): Os dois comandos que se seguem fluem logicamente, como uma consequência inevitável, dos factos anunciados.


    • Porque o tempo é agora e o Rei está aqui, a única resposta racional e adequada é uma reorientação radical da vida (metanoia) e uma adesão confiante (pistis).


    • Os imperativos estão no presente contínuo, indicando que o arrependimento e a fé não são atos pontuais, mas uma atitude contínua e habitual de vida. "Continuai a arrepender-vos e continuai a crer".


Relação Lógica: A estrutura pode ser lida como um silogismo divino:


  • Premissa Maior: O tempo profético atingiu a sua plenitude.

  • Premissa Menor: O governo soberano de Deus invadiu a história.

  • Conclusão: Portanto, mudem a vossa mente e confiem nesta boa notícia.


Esta forma reflete a estrutura clássica da aliança bíblica, tal como no Decálogo: "Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou da terra do Egito" (Indicativo Histórico da Graça) seguido de "Não terás outros deuses diante de mim" (Imperativo Ético da Lei). Marcos estabelece aqui, na própria estrutura da frase, que o Evangelho não é primeiramente um novo conjunto de regras morais, mas uma notícia sobre um evento que exige uma resposta. A primazia do indicativo sobre o imperativo é a salvaguarda contra o moralismo; a presença do imperativo após o indicativo é a salvaguarda contra o antinomianismo.  


O Uso do "E" (Kai)


Marcos é famoso pelo uso frequente da conjunção kai ("e") para ligar frases, criando um efeito de "paratase". Este estilo, muitas vezes visto como simples, cria na verdade um ritmo de urgência e acumulação. Em Marcos 1:14-15, os kai ligam os eventos numa cadeia inquebrável: João é preso e Jesus vem e diz que o tempo acabou e o Reino chegou e arrependei-vos e crede. Não há pausa para respiração; a história da salvação está a avançar como uma torrente imparável.


III. Exegese Detalhada e Análise Filológica


A densidade teológica de Marcos 1:14-15 reside na riqueza semântica do seu vocabulário. Cada termo chave carrega séculos de sedimentação teológica do Antigo Testamento (via Septuaginta) e adquire novas nuances no contexto da revelação cristológica.


1. Paradothenai (παραδοθῆναι): A Passiva Divina e o Destino Profético


O texto começa com uma nota temporal sinistra: "Depois de João ter sido entregue" (meta de to paradothenai ton Ioannen). A maioria das traduções modernas verte paradothenai como "preso" ou "encarcerado", mas esta tradução, embora factualmente correta, empobrece o texto teologicamente. O verbo paradidomi significa "entregar", "trair" ou "confiar a".


  • O Passivo Divino (Passivum Divinum): O uso da voz passiva sem agente explícito sugere frequentemente na Bíblia a ação invisível de Deus. Embora historicamente tenha sido Herodes Antipas quem ordenou a prisão (como Marcos detalhará no capítulo 6), teologicamente, João foi "entregue" segundo o conselho soberano de Deus. A sua prisão não foi um acidente ou apenas uma maquinação política, mas parte do drama divino da redenção.  


  • Tipologia do Sofrimento: Este verbo (paradidomi) torna-se um termo técnico em Marcos para o destino de Jesus. Jesus será "entregue" nas mãos dos homens (9:31), "entregue" aos principais sacerdotes (10:33), e Judas "entregará" Jesus (14:21, 42). O uso deste termo para João estabelece um paralelo tipológico intencional: o destino do precursor prefigura o destino do Messias. O ministério de Jesus começa sob a sombra da perseguição; a rejeição do profeta de Deus é o prelúdio necessário para a rejeição do Filho de Deus. Stein observa que mesmo a morte de João prenuncia a morte de Jesus, estabelecendo um padrão de sofrimento para os agentes de Deus.  


2. Kerysson (κηρύσσων) e Euangelion (εὐαγγέλιον): A Proclamação Real


Jesus entra na Galileia "pregando" (kerysson) o "evangelho de Deus".


  • Kerysson: A Voz do Arauto: O particípio kerysson deriva de keryx (arauto). No mundo antigo, o keryx era um oficial enviado pelo rei ou pelo estado para fazer anúncios públicos com autoridade. Ele não era um filósofo a oferecer ideias para debate, nem um retórico a tentar persuadir pela arte da palavra. Ele era um porta-voz que declarava factos que exigiam atenção e obediência. A pregação de Jesus tem este carácter: é uma proclamação autoritária de uma nova realidade.


  • Euangelion: A Boa Notícia Subversiva: Marcos é o único evangelista que usa euangelion na sua própria voz narrativa (1:1). O termo tem raízes duplas:


    • Fundo Greco-Romano: Euangelion era usado no culto imperial. A Inscrição de Priene (9 a.C.), celebrando o aniversário de Augusto César, declara que "o aniversário do deus [Augusto] foi para o mundo o começo das boas novas (euangelion) que vieram por causa dele". Ao usar este termo, Marcos está a fazer uma contra-narrativa subversiva. O verdadeiro "Evangelho" não é a Pax Romana de César, mas o Reino de Deus. Não é uma notícia política humana, mas "o Evangelho de Deus" (genitivo que pode ser subjetivo - vindo de Deus, ou objetivo - acerca de Deus).


    • Fundo Isaítico: O termo ecoa profundamente Isaías 40:9, 52:7 e 61:1, onde o mensageiro (mebasser em hebraico, traduzido como euangelizomenos na LXX) anuncia a Sião a vitória de Yahweh e o Seu retorno para reinar. "O teu Deus reina!" é o conteúdo desse evangelho veterotestamentário. Jesus apropria-se desta tradição: Ele é o Mensageiro de Isaías que anuncia que o reinado de Deus finalmente irrompeu na história.  


3. Kairos (καιρός) vs. Chronos (χρόνος): A Plenitude do Tempo


A declaração "O tempo está cumprido" (Peplerotai ho kairos) introduz uma distinção fundamental na filosofia da história. O grego possui duas palavras para tempo: chronos, que se refere ao tempo cronológico, sequencial, quantitativo (o tique-taque do relógio); e kairos, que se refere ao tempo oportuno, qualitativo, o momento decisivo carregado de significado.


  • O Significado de Peplerotai: O verbo pleroo (encher, completar) no perfeito passivo indica que o tempo estava, por assim dizer, vazio ou em espera, e agora foi "preenchido" até à borda. É a ideia de um recipiente que foi sendo enchido gota a gota pelas promessas e profecias ao longo dos séculos, e agora, com a vinda de Jesus, transbordou.


  • A Teologia do Momento: Jesus não está a dizer que o chronos acabou (o fim do mundo físico), mas que o kairos chegou. É o "tempo de Deus", o momento divinamente agendado para a intervenção decisiva. Reflete o conceito paulino da "plenitude dos tempos" (Gl 4:4) e a visão profética de Daniel sobre as "setenta semanas". O tempo linear da história judaica atingiu o seu telos (objetivo). Não é mais tempo de espera; é tempo de realização. Esta declaração destrói a visão cíclica da história (comum no pensamento grego) e afirma uma visão linear e teleológica: a história caminha para um ponto culminante em Cristo.  


4. Basileia tou Theou (Βασιλεία τοῦ Θεοῦ): O Reino Dinâmico


O conceito central da pregação de Jesus é a Basileia tou Theou. A tradução "Reino de Deus" pode ser enganadora se interpretada em termos espaciais ou geográficos modernos.


  • Fundo Semítico: Basileia traduz o hebraico Malkuth e o aramaico Malkuta. No Antigo Testamento (ex: Sl 103:19, 145:11-13), Malkuth refere-se primariamente ao reinado, domínio, soberania ou governo de Deus, e não ao território governado. É um conceito dinâmico, não estático. Dizer que a Basileia chegou é dizer que Deus está a exercer a Sua soberania real de uma forma nova, visível e ativa na história para salvar e julgar.


  • A Tensão de Engiken (ἤγγικεν): O verbo engizo (aproximar-se) no perfeito gera um dos debates mais intensos da teologia do Novo Testamento. Significa "chegou e está aqui" ou "está perto mas ainda não chegou"?


    • Stein argumenta que o Reino chegou na pessoa de Jesus, mas a consumação é futura. O verbo sugere uma proximidade tal que a realidade do Reino já se faz sentir.  


    • Guelich nota a tensão entre a proximidade espacial e temporal. O Rei chegou, portanto, o Reino está acessível e presente na Sua pessoa, mas a sua manifestação plena e gloriosa ainda é futura.  


    • Conclusão Exegética: A melhor interpretação, apoiada pelo uso de engiken noutros contextos (como quando Judas se "aproxima" no Getsémani e já está presente), é que o Reino de Deus fez-se presente e está iminentemente acessível. É uma realidade que invadiu o presente, criando uma "zona de impacto" onde o poder de Deus está disponível para curar, libertar e salvar.


5. Metanoeite (μετανοεῖτε): A Reorientação Radical


O primeiro imperativo é metanoeite. A tradução tradicional "arrependei-vos" carrega frequentemente conotações puramente emocionais de remorso ou tristeza pelo pecado. Embora o aspecto emocional não esteja excluído, o termo grego metanoia (mudança de mente) e o seu fundo hebraico shuv (dar meia-volta, retornar) apontam para algo mais profundo.


  • Significado Integral: No contexto da proclamação do Reino, metanoia é uma reorientação total da vida. É uma troca de lealdades políticas e espirituais. Se o Reino de Deus chegou, então todos os outros "reinos" (o reino do ego, o reino de César, o reino de Mamom, o reino de Satanás) são ilegítimos ou secundários. Arrepender-se é abandonar a colaboração com esses reinos usurpadores e jurar lealdade ao verdadeiro Rei. É uma decisão volitiva e intelectual que resulta numa mudança ética de direção. Não é apenas "sentir-se mal" pelo que se fez, mas "pensar de forma diferente" sobre a realidade e agir em conformidade.  


6. Pisteuete en to Euangelio (πιστεύετε ἐν τῷ εὐαγγελίῳ): Fé como Adesão Vital


O segundo imperativo é "crede no evangelho". A construção gramatical pisteuete en (crer em/dentro) é peculiar e estilisticamente marcante. O grego clássico e o Novo Testamento usam mais frequentemente pisteuo com o dativo simples ou com a preposição eis.


  • Nuance de En: O uso de en pode sugerir "crer e repousar na esfera do evangelho". A fé aqui não é apenas um assentimento intelectual a uma proposição doutrinária ("eu acredito que isto é verdade"), mas uma confiança existencial e locativa. É "mudar-se para" a realidade do evangelho. É colocar o peso da própria existência sobre a boa notícia de que Deus está a reinar através de Jesus. É viver dentro dessa nova realidade anunciada. Fé e arrependimento são duas faces da mesma moeda: o arrependimento é o virar as costas ao velho sistema; a fé é o abraçar o novo regime de Deus.  


Tabela 1: Análise Lexical e Teológica Comparativa

Termo Grego

Significado Básico

Fundo Hebraico (AT)

Nuance Teológica em Marcos

Implicação Prática

Euangelion

Boa notícia (vitória militar, nascimento real)

Besorah (Is 40:9) - Notícia da vitória de Yahweh

A notícia da intervenção salvífica e real de Deus em Jesus. Anti-Imperial.

O Evangelho é uma notícia sobre o que Deus fez, não um conselho sobre o que devemos fazer.

Basileia

Reino, Domínio, Reinado

Malkuth (Sl 145:13) - O exercício da soberania de Deus

O poder dinâmico de Deus invadindo a história para salvar e julgar.

Deus é o Rei ativo agora; a nossa vida deve refletir a submissão a esse governo.

Metanoia

Mudança de mente/intelecto

Shuv (Jr 31:18) - Dar meia-volta, retornar ao caminho

Reorientação total da vida (mente, vontade, emoções) para Deus.

Arrependimento é uma mudança de direção e lealdade, não apenas remorso emocional.

Kairos

Tempo oportuno, momento decisivo

Eth (Ec 3:1) - Tempo determinado para propósito

O momento divinamente agendado para a ação redentora; plenitude.

A vida tem propósito e urgência; devemos discernir os "tempos" de Deus.


IV. Contexto Histórico-Cultural e Arqueológico


A mensagem de Jesus não foi proferida num vácuo, mas num contexto geopolítico e religioso específico que ilumina o seu significado revolucionário.


A Galileia no Século I: O Cadinho da Revolução


A escolha da Galileia como cabeça de ponte para a invasão do Reino é estratégica e teologicamente significativa.


  • Geopolítica e Tensão Social: Sob o governo de Herodes Antipas (filho de Herodes, o Grande), a Galileia passava por uma urbanização forçada e traumática. Antipas construiu cidades helenizadas como Tiberíades e Séforis (esta última a apenas alguns quilómetros de Nazaré). Este programa de construção impôs pesadas taxas sobre o campesinato judaico e promoveu uma cultura greco-romana que ofendia os judeus conservadores. Havia uma tensão latente entre o campo (judaico, agrário, tradicional) e a cidade (helenizada, comercial, elite herodiana).


  • Significado Teológico: Ao iniciar o Seu movimento na Galileia, Jesus distancia-se dos centros de poder tradicionais de Jerusalém (o Templo e o Sinédrio). Ele vai para as margens, para a "Galileia dos Gentios" (Is 9:1), cumprindo a profecia de que a luz brilharia nas trevas. Jesus contorna as estruturas de poder existentes para alcançar o povo comum que sofria sob o peso duplo da ocupação romana e da colaboração herodiana.  


Arqueologia de Cafarnaum


A arqueologia confirma o cenário descrito por Marcos. Cafarnaum, que se tornou a base do ministério de Jesus (Mc 1:21), era uma cidade fronteiriça estrategicamente localizada na Via Maris, a grande rota comercial que ligava o Egito à Síria.


  • A Cidade: As escavações revelam uma cidade vibrante, com uma população mista, indústria pesqueira ativa e comércio. A presença de uma alfândega (onde Levi/Mateus trabalhava) e de um centurião romano (cujo servo Jesus curou) indica a sua importância administrativa.


  • A Sinagoga: A descoberta da sinagoga de calcário branco do século IV, construída sobre fundações de basalto negro do século I, confirma a existência de um local de culto significativo onde Jesus teria ensinado. A proximidade da "Casa de Pedro" (uma insula doméstica transformada em local de culto cristão primitivo) com a sinagoga sugere que o movimento de Jesus operava no coração da vida comunitária, mas criando espaços alternativos de reunião. Este contexto cosmopolita era ideal para uma mensagem que, embora profundamente judaica, tinha vocação universal.  


A Fortaleza de Maqueronte e a Sombra de Herodes


A menção à prisão de João evoca a figura sinistra de Herodes Antipas e a fortaleza de Maqueronte. Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas 18.5.2) relata que João foi preso e executado nesta fortaleza palaciana a leste do Mar Morto, por medo de que a sua influência sobre as massas levasse a uma rebelião.


  • Implicação: A prisão de João foi um ato de terrorismo de estado destinado a silenciar a dissidência profética. Ao entrar na arena pública precisamente neste momento, Jesus está a realizar um ato de coragem política e espiritual extraordinária. Ele está a entrar deliberadamente na "cova dos leões", desafiando a mesma autoridade que esmagou o Seu precursor. A proclamação do "Reino de Deus" neste contexto é inerentemente subversiva, pois relativiza a autoridade de Herodes e de César.  


V. Controvérsias Teológicas


A interpretação de "O Reino de Deus está próximo" gerou alguns dos debates mais acalorados da teologia moderna, definindo correntes inteiras de pensamento escatológico.


O Debate Escatológico: "Já" vs "Ainda Não"


  1. Escatologia Consequente (Konsequente Eschatologie): Albert Schweitzer, no início do século XX, argumentou que Jesus era um profeta apocalíptico que esperava o fim literal do mundo de forma iminente. Para Schweitzer, engiken significava que o fim cataclísmico estava a dias ou semanas de distância. Quando isso não ocorreu, Jesus teria forçado a Sua própria morte na tentativa de obrigar Deus a intervir. Nesta visão, Jesus foi um profeta falhado e o "Reino" era puramente futuro e apocalíptico.


  2. Escatologia Realizada (Realized Eschatology): Em reação, C.H. Dodd (1935) propôs que o Reino de Deus tinha chegado plenamente no ministério de Jesus. Para Dodd, engiken significa "chegou". Ele interpretava as referências apocalípticas como simbólicas. O Reino é uma realidade presente espiritual e ética, não um evento futuro catastrófico.


  3. Escatologia Inaugurada (Inaugurated Eschatology): Esta é a visão de consenso atual entre a maioria dos estudiosos evangélicos e críticos (apoiada por Cullmann, Jeremias, G.E. Ladd e comentaristas como Wiersbe e Stein). Esta visão sustenta uma tensão dialética: o Reino foi inaugurado (D-Day) na vinda, morte e ressurreição de Jesus, mas aguarda a sua consumação (V-Day) na Sua segunda vinda (Parusia). O Reino está presente em poder para salvar, curar e transformar, mas futuro em termos de erradicação total do mal, sofrimento e morte. O "mistério" do Reino (Mc 4:11) é precisamente esta presença do Reino no meio da história sem a glória apocalíptica imediata e o julgamento final coercivo. O Reino está aqui como uma semente, mas ainda não como a árvore plena.  


A Natureza do Reino: Espiritual vs. Político


Os judeus do primeiro século, incluindo os zelotes e fariseus, esperavam um Messias que restaurasse o reino davídico através de uma vitória militar e política sobre Roma.


  • A Redefinição de Jesus: Jesus não nega a dimensão política futura do Reino (julgamento das nações), mas inverte radicalmente a ordem e a natureza da sua chegada. O Reino começa internamente (metanoia) e manifesta-se através do serviço, do sofrimento e do amor sacrificial, não da conquista militar. Como aponta Lopes, a "boa nova" de Jesus é a vitória sobre os tiranos cósmicos — pecado, morte e Satanás — e não apenas sobre o tirano político temporal, César. Jesus recusa a coroa política para aceitar a coroa de espinhos, estabelecendo um Reino que não é deste mundo (na sua origem e métodos), mas que é para este mundo (no seu efeito transformador).  


Visão Teológica

Proponente Principal

Interpretação de "Está Próximo" (Engiken)

Ponto Forte

Ponto Fraco

Escatologia Consequente

A. Schweitzer

Futuro Iminente (mas falhou na previsão)

Leva a sério a linguagem apocalíptica radical e a urgência.

Faz de Jesus um profeta equivocado/falhado; ignora o presente do Reino.

Escatologia Realizada

C.H. Dodd

Presente Totalmente (Já chegou, não há mais)

Explica os milagres e a presença real do Rei no ministério.

Ignora a realidade contínua do mal, a necessidade de julgamento e a Parusia.

Escatologia Inaugurada

G.E. Ladd / O. Cullmann

Já e Ainda Não (Tensão Dialética)

Equilibra a presença atual do poder com a esperança futura da glória.

Mantém a complexidade bíblica e a tensão da vida cristã (batalha contínua).


VI. Visões Denominacionais


A interpretação de Marcos 1:14-15 varia conforme as lentes confessionais, influenciando a práxis da igreja.


Tradição

Ênfase Hermenêutica

Implicação Prática

Reformada (Calvinista)

Foca na Soberania de Deus (Basileia) e na natureza radical da Metanoia como fruto da regeneração. O Reino é o governo pactual de Deus sobre toda a criação. Hendriksen reflete esta visão, definindo o Reino como o "domínio reconhecido de Deus" nos corações e na cultura.

Pregação doutrinária robusta; ênfase na soberania de Deus sobre todas as esferas da vida (visão de mundo Kuyperiana); transformação cultural.

Dispensacionalista

Tende a fazer uma distinção nítida entre o "Reino de Deus" (universal/espiritual) e o "Reino dos Céus" (messiânico/davídico/terreno). Alguns dispensacionalistas clássicos veem em Marcos 1:15 uma oferta genuína do Reino Davídico a Israel; como foi rejeitado, o Reino foi "adiado" até ao Milénio futuro. A Igreja é um "parêntesis". Wiersbe, embora moderado, toca no tema da rejeição do Rei.

Forte foco na profecia futura e em Israel; distinção clara entre Israel e Igreja; pessimismo cultural (o mundo vai piorar até ao fim).

Católica Romana

Historicamente, tendeu a identificar o Reino de Deus na terra com a Igreja visível e a sua hierarquia sacramental. O "arrependimento" é frequentemente ligado ao sacramento da penitência/confissão.

Eclesiocentrismo forte; o Reino cresce através da administração dos sacramentos e da expansão institucional da Igreja.

Pentecostal/Carismática

Enfatiza o Poder do Reino. Se o Reino chegou (engiken), então os sinais do Reino (milagres, curas, expulsão de demónios) devem estar presentes agora, tal como estiveram no ministério de Jesus (Mc 1:21-28). O "Reino" é uma realidade dinâmica de poder espiritual disponível.

"Evangelismo de Poder"; expectativa de intervenção sobrenatural imediata; guerra espiritual; oração por enfermos como demonstração do Reino.

Liberal/Teologia Social

Interpreta o Reino primariamente como uma realidade Ética e Social de justiça, paz e igualdade. "Arrepender-se" é mudar estruturas sociais injustas. O sobrenatural é minimizado ou desmitologizado.

Ativismo social e político; foco na imanência de Deus e na ética do Sermão do Monte; "Construção do Reino" através do esforço humano.

VII. Apologética e Filosofia


O anúncio de Jesus em Marcos 1:15 tem implicações profundas para a filosofia da história e a apologética.


O Conceito de Tempo (Kairos) e a Filosofia da História


A declaração "O tempo está cumprido" desafia duas visões dominantes da história: a cíclica e a caótica.


  • Desafio ao Estoicismo (Visão Cíclica): A filosofia grega tendia a ver a história como ciclos repetitivos ou degeneração de uma Idade de Ouro. O tempo (chronos) era uma prisão circular (o Eterno Retorno). Jesus introduz o Kairos — o tempo vertical que interseta o horizontal. A história tem um telos (propósito e fim). Deus não é um observador passivo, mas o Senhor que conduz a história linearmente para um ponto de maturação.


  • Desafio ao Existencialismo/Niilismo (Visão Caótica): Contra a visão moderna de que a história é "um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada" (Macbeth), Jesus afirma que o tempo é "preenchido" de significado divino. O tempo não é um recipiente vazio ou absurdo, mas um palco de revelação intencional. Em Cristo, o tempo encontra a sua plenitude e redenção.  


O "Escândalo da Particularidade"


A mensagem levanta a questão filosófica do "Escândalo da Particularidade" (termo de Kittel/Kierkegaard). Porquê "agora"? Porquê na Galileia? Porquê este homem? O cristianismo afirma que a Verdade Universal (o Logos) se tornou um facto histórico particular. Deus escolhe um momento específico (kairos), uma cultura específica e um indivíduo específico. A mensagem de 1:15 nega o relativismo religioso abstrato. Não diz "um caminho para Deus abriu-se", mas "O Reino de Deus (o único) chegou num momento histórico específico". A verdade é histórica e encarnada.


VIII. Análise de Seitas e Heresias sobre o Reino


A má interpretação de Marcos 1:15 tem sido um terreno fértil para desvios teológicos ao longo da história.


  1. Marcionismo: Marcião (séc. II) rejeitava o Deus do Antigo Testamento, vendo-o como um demiurgo mau. Ele ignoraria ou mutilaria a cláusula "o tempo está cumprido", pois esta implica necessariamente uma continuidade positiva com as promessas, alianças e profecias do Antigo Testamento. Marcos 1:1-3 (citação de Isaías/Malaquias) e 1:15, lidos juntos, refutam o Marcionismo ao ancorar o Evangelho na história de Israel.  


  2. Milenarismo Apocalíptico (ex: Testemunhas de Jeová, Adventismo Primitivo): Estes movimentos muitas vezes cometem o erro de tentar "cronometrar" o kairos. Focam-se obsessivamente em datas para o fim do chronos ou redefinem o Reino exclusivamente como um governo futuro (o Milénio), esvaziando a presença atual e transformadora do Reino que Jesus anunciou como "próximo/presente". Ignoram que o Reino é uma realidade presente para ser vivida, não apenas um evento futuro para ser aguardado com cálculos matemáticos.


  3. Teologia da Prosperidade: Esta heresia moderna distorce o "Crede no evangelho" para "Crede para manipular o Reino". Transforma o Reino de Deus (a soberania de Deus sobre o homem) no Reino do Homem (a soberania do homem usando os princípios de Deus para ganho pessoal). O Reino torna-se um mecanismo para obter saúde e riqueza, ignorando que o caminho do Reino em Marcos é o caminho da Cruz.


  4. Gnosticismo: Para os gnósticos, a salvação vinha pela gnosis (conhecimento secreto e esotérico) que libertava a centelha divina da prisão da matéria. A ênfase de Jesus em metanoia (mudança moral e volitiva) e na realização histórica ("tempo cumprido" na carne e na história) é fundamentalmente anti-gnóstica. O Reino não é uma fuga da história, mas a redenção da história.


IX. Paralelos com Ciências, Direito e Sociologia


Direito: Paradidomi e a Soberania Jurídica


O termo paradothenai (entregue) tem fortes conotações forenses. Refere-se à entrega de um prisioneiro à autoridade judicial.


  • O Grande Julgamento: Há uma ironia suprema em Marcos. Enquanto João e Jesus são "entregues" aos tribunais humanos (Herodes, Pilatos, Sinédrio) como criminosos, o anúncio do "Reino de Deus" revela que é o Tribunal Divino que entrou em sessão para julgar a história. A Lei Romana (Lex Romana), que se orgulhava da sua justiça, e a Lei Judaica, que se orgulhava da sua piedade, conspiram para condenar o Inocente. O Evangelho expõe a falência da justiça humana quando confrontada com a Verdade absoluta. Além disso, o conceito de "Reino" implica jurisdição. Jesus está a declarar uma nova jurisdição soberana que se sobrepõe e supera todas as jurisdições terrenas.  


Sociologia: Mudança de Paradigma e Movimentos de Revitalização


O chamado à Metanoia pode ser comparado sociologicamente ao conceito de "mudança de paradigma" de Thomas Kuhn na ciência. Não é apenas adicionar uma nova ideia ao sistema existente; é trocar as lentes fundamentais através das quais se vê todo o universo.


  • Movimento de Revitalização: Antropologicamente, Jesus inicia o que Anthony F. C. Wallace chamaria de "movimento de revitalização". Ele contorna as instituições escleróticas (Templo, hierarquia sacerdotal) para criar uma nova estrutura social baseada na adesão voluntária ao Reino, e não na etnia ou pureza ritual. Note-se que Ele prega ao ar livre, à beira-mar, ou em casas na Galileia, democratizando o acesso ao sagrado.


  • Cidadania Alternativa: Num império onde o "Evangelho" era a notícia de César e o "Reino" era Roma, a proclamação de Jesus é a formação de uma "cidadania alternativa" (politeuma em Fp 3:20). A Ekklesia surge como uma polis dentro da polis, uma comunidade que vive sob as leis de outro Rei.  


Ciência: A Natureza do Tempo e a Relatividade


A distinção Kairos/Chronos encontra um eco interessante na física moderna. Na teoria da relatividade, o tempo não é uma constante absoluta e imutável (como no Newtonianismo), mas é relativo à massa e à velocidade. Teologicamente, a Encarnação é o evento de "massa infinita" que "curva" o tempo e o espaço ao seu redor. O evento Cristo é a "singularidade" teológica — um buraco negro de graça — que atrai toda a história para si, dando-lhe densidade, direção e novo significado. O tempo já não flui apenas do passado para o futuro, mas é definido pela sua relação com este Evento central.


X. Intertextualidade


A densidade de Marcos 1:14-15 só é plenamente descodificada quando ligada à vasta teia das Escrituras, funcionando como um hiperlink para o Antigo Testamento.


  1. Daniel 2, 7 e 9: A referência ao "tempo cumprido" é um eco direto de Daniel. Daniel 2:44 profetiza que "nos dias destes reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído". Daniel 9 fala das "setenta semanas" até ao Messias. Jesus está a dizer: "O relógio profético de Daniel parou de contar; a hora zero chegou". O Filho do Homem de Daniel 7 está prestes a receber o Reino.


  2. Isaías 40, 52 e 61: Como vimos, o termo "Evangelho" (Besorah) está ancorado em Isaías. O arauto que anuncia a paz e o retorno de YHWH a Sião (Is 52:7) é agora Jesus. Mas há uma diferença crucial: em Isaías, o arauto anuncia a vinda de Deus; em Marcos, Jesus é o arauto e também é a presença de Deus. Ele é o Mensageiro e a Mensagem.  


  3. Salmos Reais (Salmos 93, 97, 99): A proclamação litúrgica "O Senhor Reina" (YHWH Malak) torna-se agora uma realidade histórica: "O Reino de Deus está próximo". A esperança do culto de Israel torna-se facto na Galileia.


  4. Jonas 3: O chamado de Jonas a Nínive ("Arrependei-vos") é um tipo do chamado de Jesus. Contudo, "aqui está quem é maior que Jonas" (Mt 12:41). Jonas pregou arrependimento para evitar um julgamento; Jesus prega arrependimento para entrar numa bênção (embora o julgamento permaneça para quem recusa).


  5. Gálatas 4:4 e Efésios 1:10: Paulo oferece o comentário teológico apostólico sobre o anúncio histórico de Jesus. A "plenitude dos tempos" (pleroma tou chronou) de Gálatas é a explicação teológica do peplerotai ho kairos de Marcos. O que Jesus anuncia como evento, Paulo explica como doutrina da redenção e adoção.


XI. Aplicação Devocional


O estudo técnico e denso de Marcos 1:14-15 deve, inevitavelmente, desembocar na adoração e na prática transformadora (a ortodoxia deve gerar ortopraxia).


  1. O Senso de Urgência (O Kairos Pessoal): Se o tempo está cumprido, a indecisão é fatal. Não podemos viver como se o Reino fosse uma realidade distante ou teórica. Cada momento é um kairos potencial onde Deus pode intervir. Para o crente, isto significa viver com uma "expectativa santa", remindo o tempo e aproveitando as oportunidades (Ef 5:16). A procrastinação espiritual é incompatível com a proclamação do Reino.  


  2. A Natureza do Arrependimento Diário: Metanoia não é um evento único na conversão ("eu arrependi-me em 1995"), mas um estilo de vida contínuo. Como Martinho Lutero declarou na primeira das suas 95 Teses: "Quando o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse: 'Arrependei-vos', ele quis que toda a vida dos fiéis fosse uma penitência". É o realinhamento constante da nossa bússola interna (valores, prioridades, afetos) com o Norte Verdadeiro do Reino, abandonando diariamente os "reinos" do ego, do conforto e do pecado.


  3. Fé como Lealdade Política: "Crer no evangelho" não é apenas aceitar factos teológicos; é um ato de lealdade política suprema. É jurar fidelidade ao Rei Jesus acima de qualquer partido, ideologia ou nação. Num mundo de "fake news" e desespero, o cristão fundamenta a sua estabilidade na "Boa Notícia" objetiva de que Deus reina. Herodes pode prender João, governos podem cair, economias podem colapsar, mas "o Reino de Deus está aqui". Esta é a rocha da nossa segurança.  


  4. A Centralidade da Proclamação: Jesus veio pregando. A primazia da Palavra é inegociável. Uma igreja que deixa de proclamar o "Evangelho de Deus" para pregar autoajuda, moralismo terapêutico ou ativismo político perdeu a sua razão de ser. O Reino avança através da proclamação fiel do Rei e da Sua obra.  


  5. Coragem em Tempos de Crise: Jesus começou o Seu ministério público no momento exato em que João foi preso. Quando as trevas parecem triunfar e as vozes proféticas são silenciadas, não é hora de recuar; é precisamente a hora de Deus agir. A oposição cultural não é um sinal para retirada, mas o cenário para a manifestação da glória de Deus. O discípulo de Jesus deve estar preparado para "entrar na Galileia" quando todos os outros fogem com medo de Herodes.

bottom of page