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O sacrifício pelos pecados dos sacerdotes | Levítico 4:1-12


I - Introdução e Contextualização


O livro de Levítico, conhecido na tradição hebraica como Wayyiqrā ("E chamou"), constitui o coração teológico do Pentateuco e a sementeira da teologia do Novo Testamento. Sua posição imediata após o encerramento do Êxodo não é meramente cronológica, mas lógica: uma vez que a glória de Yahweh preencheu o Tabernáculo (Êx 40:34-38), surge a necessidade urgente de regulamentar como um povo marcado pela falibilidade pode coexistir com a presença abrasadora do Deus Santo. O livro, portanto, não é um mero manual de rituais arcaicos, mas uma exposição sobre a santidade divina e a mediação necessária para a manutenção da aliança.  


Dentro deste sistema, o capítulo 4 introduz a oferta pelo pecado (hattā’t), um sacrifício que marca uma transição fundamental na narrativa legislativa. Enquanto os capítulos 1 a 3 tratam de ofertas voluntárias de "aroma suave" — o holocausto (‘ōlāh), a oferta de manjares (minḥāh) e o sacrifício pacífico (šĕlāmîm) —, o capítulo 4 introduz a obrigatoriedade. A hattā’t é instituída para lidar com a contaminação gerada pela violação dos mandamentos divinos, especificamente os pecados cometidos por ignorância ou erro inadvertido (šĕgāgāh).  


A seção de Levítico 4:1-12 foca exclusivamente no sacerdote ungido (hakkōhēn hammāšîaḥ), o Sumo Sacerdote. A relevância desta seção reside no fato de que o pecado do líder espiritual não é uma infração privada; ele possui uma dimensão corporativa que "traz culpa sobre o povo" (v. 3). A análise deste bloco revela que a proximidade com o sagrado amplia a gravidade da transgressão, exigindo o ritual mais complexo e o animal de maior valor do sistema levítico.  


II - Estrutura Literária e Análise Narrativa


A arquitetura literária de Levítico 4 é um exemplo primoroso de procedimento discursivo sacerdotal, caracterizado por repetições formulares que garantem a precisão da transmissão legislativa. O capítulo é estruturado de forma decrescente em termos de hierarquia social e complexidade ritual, estabelecendo uma correlação direta entre privilégio e responsabilidade.  


A narrativa dos versículos 1 a 12 pode ser dividida em subunidades técnicas que seguem o padrão de instrução-cumprimento. John Hartley observa que o texto utiliza uma cadeia de formas verbais weqatal para descrever os elementos essenciais do ritual, enquanto cláusulas de yiqtol detalham procedimentos menores.


Elemento Estrutural

Descrição Técnica

Versículos

Prólogo Legislativo

Fórmula de introdução da fala divina.

4:1-2a

Definição do Caso

O pecado inadvertido do sacerdote ungido.

4:2b-3

Apresentação

Trazer o novilho à porta da Tenda e imposição de mãos.

4:4

Ritual do Sangue

Aspersão no interior do Santuário e no Altar do Incenso.

4:5-7

Ofertório de Gorduras

Queima das partes internas no Altar do Holocausto.

4:8-10

Eliminação da Carcaça

Remoção e queima total fora do arraial.

4:11-12

Esta estrutura demonstra que o pecado do sacerdote exige uma purificação que penetra nas áreas mais profundas do santuário. Enquanto o pecado de um indivíduo comum é resolvido com sangue no altar externo (pátio), o pecado do ungido exige que o sangue toque o véu que protege a Arca e o altar que sustenta o incenso das orações. Literariamente, a seção 4:1-12 estabelece o padrão máximo de expiação, servindo como o ponto de referência para todos os casos subsequentes.  


III - Análise Exegética e Hermenêutica Detalhada


Versículos 1 e 2: O Conceito de Šĕgāgāh e a Responsabilidade Humana


O texto inicia com a fórmula wayyĕdabbēr YHWH ’el-mōšeh lē’mōr ("E falou o Senhor a Moisés, dizendo"), indicando uma revelação legislativa direta e autoritativa. O versículo 2 introduz o termo técnico fundamental šĕgāgāh (transliterado como šegāgāh), traduzido como "ignorância", "erro" ou "inadvertência".  


A exegese de šĕgāgāh revela que o pecado, na cosmovisão levítica, não é apenas uma questão de intenção subjetiva, mas uma contaminação objetiva. O pecado inadvertido ocorre quando alguém viola um mandamento negativo ("coisas que o Senhor ordenou que não se fizessem") por descuido, falta de conhecimento ou fraqueza. É crucial contrastar este conceito com o pecado "de mão levantada" (bĕyād rāmāh), que representa a rebelião deliberada. Para o pecado inadvertido, Deus provê um caminho de restauração; para a rebelião impenitente, a pena era a exclusão ou a morte (Nm 15:30).  


A hermenêutica deste ponto ensina que a ignorância não isenta de culpa. Na presença de um Deus absolutamente Santo, mesmo o erro não intencional polui o ambiente espiritual e exige reparação através do sangue. Isso estabelece uma ética de vigilância constante sobre as próprias ações e uma consciência da fragilidade humana.  


Versículo 3: O Sacerdote Ungido e o Efeito Cascata do Pecado


Se o infrator for o hakkōhēn hammāšîaḥ (o sacerdote ungido), o impacto é devastador. Este termo designa o Sumo Sacerdote, sobre quem o óleo da unção foi derramado, separando-o para a mediação. A expressão le’ašmat hā‘ām ("trazendo culpa sobre o povo") indica que o líder atua como o representante federal e espiritual da nação.  


Hermenêuticamente, o pecado do ungido é mais grave porque ele é o guardião do conhecimento e o mediador da expiação. Rashi, o comentarista judeu, explica que quando o Sumo Sacerdote peca, o povo permanece sob culpa, pois seu intercessor se tornou ele próprio um poluente do sistema. Por isso, o animal exigido é um novilho (par), um touro jovem sem defeito, o sacrifício mais caro e imponente.  


Versículo 4: O Ritual de Aproximação e Imolação


O sacerdote deve levar o novilho à pĕtaḥ ’ōhel mô‘ēd ("entrada da tenda do encontro"). O ato de sāmak yād ("imposição de mãos") é o mecanismo de identificação e transferência. O ofertante pressiona a mão sobre a cabeça do animal, simbolizando que a sua culpa é transferida para o substituto inocente.  


A imolação (wĕšāḥaṭ) ocorre "perante o Senhor" (lipnê YHWH). O termo lipnê YHWH não se refere apenas a um local geográfico, mas à presença judicial de Deus que aceita a vida do animal em lugar da vida do pecador. A morte do animal proclama que o pecado gera a morte, mas a misericórdia de Deus aceita um substituto vicário.  


Versículos 5 a 7: A Liturgia do Sangue e a Purificação do Santuário


O sangue (dām) é o agente purificador por excelência em Levítico. Nesta seção, o ritual de sangue segue três estágios profundos:  


  1. A Aspersão Sete Vezes (v. 6): O sacerdote molha o dedo no sangue e o asperge (hizzāh) sete vezes diante do pārōket (o véu do santuário). O número sete (šeb‘a) denota a plenitude divina e a perfeição da obra de expiação. O véu protegia o Santo dos Santos; ao aspergir ali, o sacerdote purificava o acesso à presença direta de Deus, que havia sido obstruído pela poluição de seu pecado.  

  2. A Aplicação nos Chifres do Altar do Incenso (v. 7): O sacerdote aplica o sangue nas pontas (qĕrānôt, chifres) do mizbaḥ qĕṭōret hassammîm (altar do incenso aromático). Os chifres simbolizavam o poder e a força do altar como lugar de refúgio. O altar do incenso representava as orações intercessórias; o pecado do sacerdote o havia "emudecido" diante de Deus, e a aplicação do sangue restaurava a eficácia da oração.  

  3. O Descarte na Base do Altar Externo (v. 7b): Todo o restante do sangue é derramado à base do mizbaḥ hā‘ōlāh (altar do holocausto), localizado no pátio. Este ato simbolizava o esgotamento total da exigência legal e a eliminação definitiva da culpa.  


Versículos 8 a 10: A Gordura e o Princípio de Propriedade Divina


Toda a gordura (ḥēleb) que cobre as entranhas, os dois rins (kĕlāyōt) e a fressura devem ser removidos. A gordura era considerada a porção mais rica e vital, o "sebo" que pertencia exclusivamente a Yahweh. O texto estabelece um paralelo com o sacrifício de paz (v. 10), indicando que, mesmo em um ritual de purificação, há um elemento de reconhecimento da soberania e bondade de Deus. Queimar a gordura sobre o altar externo transformava aquela porção em um "aroma agradável", mostrando que Deus aceita a porção vital do substituto em favor do pecador.  


Versículos 11 e 12: A Teologia da Eliminação Fora do Arraial


Este é um detalhe crucial da hattā’t do sacerdote: nada da carne podia ser comido pelos sacerdotes (visto que o próprio oficiante era o pecador). O couro, a carne, a cabeça, as pernas, as entranhas e o pereš (excrementos) devem ser levados para ’el-miḥûṣ lammaḥăneh ("fora do arraial").  


O destino era um māqôm ṭāhôr ("lugar limpo"), especificamente o local onde se depositavam as cinzas do altar. A queima total da carcaça fora da comunidade simbolizava a remoção absoluta da poluição do pecado. Diferente do holocausto, onde o animal era consumido no altar para subir a Deus, aqui o animal é consumido fora do arraial para demonstrar que o pecado causa exclusão e deve ser banido da presença divina e humana.  


IV - Contexto Histórico-Cultural e Aspectos Arqueológicos


A Vida Nômade e o Tabernáculo Portátil


Levítico 4 foi promulgado em um contexto de transição social, onde Israel operava como uma confederação de clãs sob liderança teocrática. A Tenda do Encontro era uma estrutura portátil de madeira de acácia e peles, o que reflete a necessidade de um sistema ritual que pudesse ser montado e desmontado durante as jornadas no deserto. A arqueologia bíblica corrobora este ambiente através de satélites que mapeiam rotas de caravanas do Bronze Final compatíveis com o itinerário do Êxodo.  

A Arqueologia dos Altares de Chifres


A descrição técnica dos "chifres do altar" em Levítico 4:7 encontra respaldo material exaustivo em escavações em todo o Israel:


  • Tel Arad: Descoberto um santuário judaíta do período monárquico (Estrato X, século VIII a.C.) que continha um altar de quatro chifres conforme o modelo bíblico. Espectroscopia de infravermelho (FTIR) identificou resíduos orgânicos de gordura e sangue nesses altares, provando que a aplicação descrita no texto era uma prática ritualística concreta.  

  • Tel Beer-sheba: Arqueólogos desenterraram um altar de pedra de cantaria com chifres em cada canto. Embora tenha sido encontrado desmontado e reutilizado em paredes de armazéns do tempo de Ezequias, sua reconstrução revelou as dimensões precisas de um côvado para cada chifre, validando a historicidade do design mobiliário citado em Levítico e Êxodo.  

  • A Prática do Asilo: A arqueologia e os textos paralelos (1 Reis 1:50) confirmam que os chifres do altar eram pontos de contato para a obtenção de misericórdia e poder, o que contextualiza por que o sangue da oferta pelo pecado era aplicado especificamente ali para "reativar" o poder de intercessão do altar.  


Paralelos com o Antigo Oriente Próximo


Textos ugaríticos e fenícios apresentam terminologias sacrificiais semelhantes, como o uso do termo kōhen para sacerdote, sugerindo uma herança semítica comum. Contudo, Israel se distinguia radicalmente ao proibir o uso de imagens antropomórficas sobre seus altares. Estudos comparados com rituais hititas de purificação mostram que o uso de sangue para "limpar" espaços sagrados era um conceito conhecido na região, mas Levítico remove os elementos mágicos e politeístas, focando na santidade ética de um Deus único.  


V - Questões Polêmicas e Discussões Teológicas


Hattā’t: Oferta pelo Pecado ou Purificação?


Uma discussão central na teologia contemporânea, impulsionada por Jacob Milgrom, questiona a tradução tradicional de hattā’t. Milgrom sustenta que o termo deriva do uso verbal pi‘el que significa "despecar" ou "purificar". Visto que o sacrifício era exigido para situações sem mácula moral (como após o parto em Lv 12), a oferta seria tecnicamente uma Oferta de Purificação do Santuário. O sangue atuaria como um detergente ritual que limpa o santuário da contaminação acumulada pelas impurezas do povo. Teólogos confessionais, contudo, argumentam que o pecado é a causa raiz da impureza e que a tradução "Oferta pelo Pecado" preserva a dimensão moral e a necessidade de perdão divina.  


O Destino do Sacerdote que Peca Deliberadamente


A eficácia de Levítico 4:1-12 é restrita ao pecado inadvertido (šegāgāh). Surge a polêmica: haveria expiação para o sacerdote que pecasse deliberadamente? Números 15:30 prescreve a exclusão para tais casos. Alguns estudiosos sugerem que o Dia da Expiação (Yom Kippur) era a única válvula de escape para pecados não cobertos pelos sacrifícios diários, enquanto outros veem no sistema levítico uma limitação proposital que visava apontar para a necessidade de um sacrifício perfeito e definitivo em Cristo, capaz de perdoar "todo pecado e blasfêmia".  


A Questão da Carne do Novilho


Por que a carne do novilho do sacerdote não podia ser comida, enquanto a do príncipe e a do indivíduo comum podia? (cf. Lv 6:26). A polêmica teológica gira em torno do princípio de que ninguém deve se beneficiar de sua própria expiação. Se o sacerdote comesse a carne de sua própria oferta, o ritual seria invalidado pelo interesse próprio. A destruição total fora do arraial sublinha a gravidade do pecado na liderança: a expiação do ungido não gera sustento físico para o clero, apenas a remoção severa da culpa.  


VI - Doutrina Teológica e Visões Denominacionais


Visão Reformada (Calvinista)


A teologia reformada, ancorada na Confissão de Fé de Westminster, interpreta Levítico 4:1-12 sob a doutrina da Expiação Penal Substitutiva. O novilho é visto como o substituto que sofre a ira judicial de Deus no lugar do sacerdote. João Calvino destacava a "solidariedade na culpa" presente no versículo 3, ensinando que a santidade da Igreja está intrinsecamente ligada à pureza de seus ministros. A queima fora do arraial é interpretada como a demonstração de que o pecado nos torna estranhos a Deus, exigindo uma reconciliação que vem de "fora" do nosso próprio mérito.  


Visão Luterana


Para o luteranismo, baseado na Confissão de Augsburgo, este texto exemplifica o uso pedagógico da lei. A lei revela o pecado inadvertido do sacerdote, forçando-o a recorrer ao sacrifício. O foco luterano recai sobre a Justificação pela Fé, onde o ofertante não "produz" o perdão, mas o recebe através do meio providenciado por Deus. O ritual é visto como uma "sombra" que proclama a passividade humana e a atividade salvadora de Deus em Cristo.  


Visão Adventista do Sétimo Dia


A teologia adventista possui uma leitura singular vinculada à Doutrina do Santuário e ao Juízo Investigativo. De acordo com esta visão, o sangue levado para dentro da Tenda (vv. 5-7) realizava uma transferência simbólica do pecado do pecador para o Santuário. O Santuário "armazenava" esses pecados até serem definitivamente apagados no Yom Kippur antitípico, iniciado em 1844. Esta interpretação enfatiza a responsabilidade contínua do crente e a necessidade de uma purificação final dos registros celestiais.  


Visão Pentecostal e Carismática


Denominações pentecostais enfatizam o simbolismo do óleo da unção e do fogo no ritual. O "sacerdote ungido" representa o obreiro revestido de poder, cujo deslize apaga o "fogo" do altar e exige um renovo através do "sangue de Jesus". Há um forte apelo à intercessão e à manutenção da "labareda" espiritual, vendo no altar do incenso purificado a restauração da autoridade espiritual do líder.  


VII - Análise Apologética


A Moralidade da Substituição Sangrenta


Críticos modernos, imbuídos de uma mentalidade humanista secular, frequentemente atacam Levítico como um texto de "violência divina". A apologética cristã responde utilizando a Filosofia Moral: se o pecado é uma violação contra a Fonte da Vida (Deus), a consequência lógica é a perda da vida. O sacrifício não é uma "sede de sangue" de Deus, mas um recurso pedagógico e gracioso para demonstrar o custo real da transgressão ética sem destruir o próprio transgressor. A racionalidade do rito reside na transferência de mérito e demérito, um conceito jurídico compreensível.  


A Defesa da Origem Mosaica e o Colofão de Levítico


Contra a teoria de que Levítico é uma invenção sacerdotal do século V a.C., a apologética utiliza dados arqueológicos de Ugarit e Mesopotâmia que mostram que o vocabulário de Levítico 4 é típico do segundo milênio a.C.. O Colofão de Levítico 7:37-38 funciona como um selo de autenticidade, datando as leis no período do Sinai. Além disso, a insistência em queimar o animal "fora do arraial" faz sentido apenas em um contexto de acampamento no deserto, não em uma Jerusalém urbanizada e sedentária do pós-exílio.  


O Argumento da Unidade Escriturística


A apologética utiliza a conexão entre Levítico 4 e Hebreus 13 para provar o Design Inteligente da Escritura. O fato de um ritual detalhado no deserto encontrar seu cumprimento preciso em um evento histórico 1.500 anos depois (a crucificação fora das portas de Jerusalém) sugere uma mente divina coordenando a história e o texto.  

VIII - Análise de Seitas e Heresias


O Espiritismo Kardecista e a Lei do Retorno


O Espiritismo nega a necessidade de um sacrifício vicário, defendendo que cada indivíduo deve purificar-se através de múltiplas reencarnações e obras de caridade. Levítico 4:1-12 refuta essa heresia ao mostrar que mesmo o Sumo Sacerdote — o homem mais santo de Israel — era incapaz de limpar seu próprio pecado. A purificação exige o sangue de um substituto providenciado por Deus, não o esforço cumulativo do pecador. A "Lei do Retorno" espírita é uma forma de legalismo que ignora a santidade de Deus e a gravidade da poluição que o pecado causa no santuário.  


O Mormonismo e a Continuidade dos Sacrifícios


A seita dos Mórmons introduz rituais de templo que pretendem ser "restaurações" do sistema levítico, incluindo batismos pelos mortos e ordens sacerdotais adicionais. Levítico 4, lido à luz da Nova Aliança, ensina que o sistema sacrificial era uma "sombra" passageira. Tentar restabelecer rituais de purificação humana após o sacrifício de Cristo é uma heresia que nega a suficiência do sangue de Jesus (Hb 10:18).  


Testemunhas de Jeová e o Sacrifício de Michael


As Testemunhas de Jeová ensinam que Jesus era apenas o Arcanjo Michael que se tornou um homem perfeito para pagar um "resgate correspondente". A análise de Levítico 4:1-12 mostra que o pecado do ungido exige um novilho, sugerindo que quanto maior a dignidade do cargo, maior deve ser o valor da expiação. Se Jesus não fosse o Deus encarnado, Seu sacrifício não teria valor infinito para purificar o Santuário Celestial de todos os pecados de todas as gerações.  


Gnosticismo e a Negação da Carne


Heresias de matriz gnóstica ou Nova Era espiritualizam o pecado, vendo-o apenas como um "erro de percepção" ou "falta de luz". O ritual físico de Levítico 4, com sangue real, vísceras e gordura sendo manipulados, reafirma a realidade física do pecado e a necessidade de uma redenção que atinja a totalidade da existência humana — corpo, alma e espírito.  


IX - Paralelos com Ciências, Filosofia e Direito


Hematologia e a Biologia do Sangue


A ciência moderna confirma o princípio vital descrito em Levítico: "a vida da carne está no sangue" (Lv 17:11). O sangue é o tecido que mantém a homeostase, transportando oxigênio e removendo toxinas. No ritual de purificação, a remoção do sangue simboliza cientificamente a cessação das funções vitais, e sua aplicação no santuário representa o uso dessa "energia vital" para neutralizar os efeitos "tóxicos" do pecado no ambiente social e espiritual.  


Filosofia do Direito: Justiça Retributiva vs. Restaurativa


O ritual da hattā’t oferece um modelo híbrido de justiça que precede as teorias jurídicas modernas.  


  • Dimensão Retributiva: A lei foi violada, um crime foi cometido contra o Estado Teocrático e a pena (morte do animal) deve ser executada para satisfazer a justiça formal.  

  • Dimensão Restaurativa: O objetivo final não é apenas o castigo, mas a purificação do ambiente e a restauração do infrator ao seu cargo, protegendo a coesão da comunidade. O Direito Penal contemporâneo discute a "humanização das penas", algo que Levítico já previa ao permitir substitutos e focando na reintegração do "sacerdote ungido" à sua função mediadora.  


Sociologia do Ritual e Durkheim


Para a sociologia, os rituais de Levítico 4 atuam como mecanismos de manutenção da ordem social. Émile Durkheim argumentava que o sagrado é o que une a sociedade; o pecado do sacerdote ameaça desintegrar essa união. O ritual público de queima fora do arraial serve como uma "cerimônia de degradação" do pecado e "reafirmação" dos valores coletivos, garantindo que a tribo permaneça unida sob um código moral comum.  


Lógica e Teoria de Sistemas


Pode-se traçar um paralelo entre o ritual do sangue e a teoria de sistemas: o santuário é um sistema fechado de santidade que é infectado por um "ruído" ou "vírus" (o pecado do líder). O ritual de sangue aspergido sete vezes funciona como uma função de "limpeza de dados" ou "depuração", restaurando o equilíbrio do sistema para que ele possa continuar processando as orações e sacrifícios do povo.  


X - Conexões Intertextuais e Tipologia


O Antítipo Supremo: Jesus Cristo


A conexão intertextual mais poderosa deste texto encontra-se na Epístola aos Hebreus.  


  1. O Sumo Sacerdote Impecável: Enquanto o sacerdote de Levítico 4:3 peca e precisa de um novilho, Jesus é o Sumo Sacerdote "santo, inculpável, sem mácula" que não precisa oferecer sacrifícios por Si mesmo (Hb 7:26-27).  

  2. O Sangue que Penetra o Véu: O sangue aspergido sete vezes diante do véu (v. 6) prefigura Cristo entrando no Santuário Celestial com Seu próprio sangue, "rasgando o véu" de uma vez por todas para nos dar acesso direto ao Pai (Hb 9:11-12).  

  3. Fora do Arraial (Hebreus 13:11-13): Esta é a conexão tipológica definitiva. "Pois os corpos dos animais... são queimados fora do acampamento. Por isso, Jesus também... sofreu fora da porta". A expulsão do novilho em Levítico 4:12 é a planta arquitetônica da crucificação no Calvário, fora dos muros de Jerusalém.  


Conexão com os Profetas e Isaías 53


O profeta Ezequiel, em sua visão do Templo futuro, mantém a centralidade do novilho para a oferta pelo pecado (Ez 43:19, 45:18-19), demonstrando que a necessidade de purificação é um tema eterno na adoração bíblica. Em Isaías 53:10, o Servo Sofredor é descrito como uma ’āšām (oferta pela culpa), termo que em Levítico é usado de forma intercambiável com a hattā’t em certos contextos, ligando o ritual animal à pessoa de um Messias que carrega as iniquidades.  


O Salmo 51 e a Purificação Interior


Davi, após seu pecado com Bate-Seba, utiliza o vocabulário de Levítico ao clamar: "Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo" (Sl 51:7). Embora não houvesse sacrifício animal para o adultério e o assassinato (pecados de mão levantada), Davi recorre à lógica da purificação de Levítico 4, reconhecendo que a verdadeira expiação deve atingir o santuário do coração.  


XI - Exposição Devocional e Aplicação


O Peso da Liderança e a Transparência


Levítico 4:1-12 é um alerta solene para todos os que exercem liderança espiritual. O erro de um líder não é um evento isolado; ele polui o santuário e "traz culpa sobre o povo". Na igreja moderna, isso sublinha a necessidade de transparência e prestação de contas. O líder deve ser o primeiro a reconhecer sua falibilidade e a recorrer ao sangue purificador, entendendo que sua conduta pessoal molda a saúde espiritual da congregação.  


A Gravidade do Pecado "Sem Intenção"


Vivemos em uma era de relativismo onde o "eu não quis fazer isso" é usado como desculpa para negligência espiritual. Levítico nos ensina que o pecado é uma realidade objetiva que danifica relacionamentos e ambientes, independentemente da nossa intenção. Devemos pedir ao Espírito Santo que revele nossas "faltas ocultas" (Sl 19:12), cultivando uma consciência sensível que busca a purificação mesmo para os erros cometidos por inadvertência ou ignorância.  


O Custo Imensurável da Redenção


Ao contemplar o novilho sendo totalmente consumido no fogo fora do arraial, o crente é lembrado de que o perdão não é gratuito; ele foi pago por um substituto de valor infinito. Jesus Cristo assumiu o nosso lugar "fora da porta", suportando a vergonha e a exclusão para que pudéssemos ser recebidos no "lugar limpo" da presença de Deus. Esta verdade deve gerar uma gratidão que se traduz em uma vida de santidade prática e adoração fervorosa, sabendo que fomos "comprados por alto preço".

 
 
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