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A tentação de Jesus | Marcos 1:12-13


I - Introdução e Contextualização


O Evangelho segundo Marcos, amplamente reconhecido pela crítica bíblica moderna e pela Redaktionsgeschichte (crítica da redação) como o primeiro dos evangelhos canônicos a ser redigido, estabelece não apenas a cronologia básica do ministério de Jesus, mas a estrutura teológica fundamental da cristologia do Novo Testamento. A perícope que compreende os versículos 12 e 13 do primeiro capítulo — a Tentação no Deserto — constitui um momento charneira, uma articulação decisiva na estrutura literária da obra. Ela opera como a transição imediata e violenta entre a gloriosa teofania do batismo no Jordão e o início do ministério público de pregação na Galileia.


Para compreender a magnitude destes dois versículos, é imperativo situá-los no Sitz im Leben (situação vivencial) da comunidade marcana e no vasto panorama da história da redenção. A tradição patrística, remontando a Papias (c. 140 d.C.) e preservada por Eusébio, identifica Marcos como o "intérprete de Pedro", redigindo seu evangelho provavelmente em Roma para uma comunidade gentílica sob a sombra da perseguição neroniana ou logo após a queda de Jerusalém. Neste contexto de sofrimento e martírio, a apresentação de Jesus não é a de um filósofo estoico ou de um legislador sereno, mas a de um Servo Sofredor e de um Guerreiro Divino que, desde o primeiro instante de sua investidura messiânica, é lançado em um conflito mortal contra as forças do caos.  


A narrativa de Marcos sobre a tentação é singularmente breve, composta por apenas cerca de trinta palavras no texto grego original, em contraste com os relatos detalhados de Mateus (4:1-11) e Lucas (4:1-13), que preservam os diálogos da fonte Q. No entanto, essa brevidade não indica falta de interesse teológico ou escassez de fontes; pelo contrário, denota uma concentração kerygmática intensa. Marcos não está interessado na psicologia da tentação ou no debate casuístico sobre a Lei, mas no fato cosmológico do confronto. Para o Segundo Evangelista, a tentação não é um prelúdio moral, mas a invasão territorial do Reino de Deus nos domínios de Satanás. Jesus é o "Mais Forte" (ischyroteros, Mc 1:7) que entra na casa do "homem forte" (Satanás) para atá-lo e saquear seus bens (Mc 3:27).

 

O contexto imediato é vital: o batismo de Jesus (Mc 1:9-11). Ali, os céus foram "rasgados" (schizomenous), uma imagem violenta que sugere uma intrusão irrevogável de Deus na história humana, o Espírito desceu e a voz do Pai declarou a identidade ontológica e funcional de Jesus: "Tu és o meu Filho amado". A conjunção coordenativa que abre o versículo 12 conecta indissociavelmente a filiação à provação. Não há hiato, respiro ou celebração entre a unção e o combate. A teologia de Marcos postula que a identidade de Jesus como "Filho de Deus" não o isenta da luta; paradoxalmente, é precisamente essa identidade que precipita e atrai o conflito cósmico.  


O cenário do deserto, na teologia bíblica, é profundamente ambivalente e carregado de memória histórica. É o lugar da provação de Israel, da murmuração, da idolatria do bezerro de ouro, e, na demonologia do Segundo Templo, a morada de Azazel e dos espíritos imundos (Lv 16). Contudo, é simultaneamente o lugar do encontro íntimo com YHWH, do noivado divino com Israel (Os 2:14) e da expectativa de um Novo Êxodo (Is 40:3). Ao situar Jesus no deserto, Marcos evoca toda a narrativa de Israel, sugerindo que onde o filho primogênito coletivo (Israel) falhou, o Filho unigênito individual (Jesus) deve triunfar.


Portanto, a análise que se segue não é apenas um exercício acadêmico de filologia, mas uma imersão na "cristologia de batalha" de Marcos. O texto apresenta um tableau apocalíptico onde o Espírito, Satanás, as feras e os anjos compõem os atores de um drama que redefine a realidade. Este estudo propõe dissecar as camadas semânticas, históricas e dogmáticas destas breves linhas que narram a inauguração da guerra santa de Jesus contra o império das trevas, utilizando a totalidade das fontes disponíveis para extrair a riqueza insondável deste evento inaugural.  


II - Estrutura Literária e Análise Narrativa


A perícope de Marcos 1:12-13 não é um fragmento isolado, mas a pedra de fecho do "Prólogo" do Evangelho (1:1-13). Este prólogo funciona como a chave hermenêutica para toda a narrativa subsequente, estabelecendo a identidade de Jesus e a natureza de sua missão antes que qualquer personagem humano dentro da diegese (história) a compreenda. A estrutura literária empregada por Marcos é intencional e serve para comunicar urgência, conflito e autoridade.


A. O Estilo Paratático e a Urgência Marcana: A Teologia do "Euthys"


Uma das características mais distintivas do estilo de Marcos é o uso frequente da parataxe — a coordenação de orações simples através da conjunção "e" (kai) — em detrimento de construções hipotáticas mais elegantes e subordinadas, típicas de um grego literário refinado. No versículo 12, a sentença explode com a expressão Kai euthys ("E logo" ou "E imediatamente").


Esta construção adverbial, euthys, ocorre mais de 40 vezes no Evangelho de Marcos, com uma concentração particular no primeiro capítulo. Longe de ser apenas um cacoete linguístico ou uma pobreza estilística, o euthys marcano carrega um peso teológico profundo. Ele cria um efeito narrativo de "respiração ofegante", uma propulsão cinética que impede o leitor de descansar. A narrativa não caminha; ela corre.


  1. Conexão Causal e Temporal: O uso de euthys no versículo 12 estabelece uma relação não apenas temporal, mas quase causal entre a revelação batismal e a tentação. A descida do Espírito não leva a um momento de contemplação mística no templo, mas a uma expulsão imediata para a desolação. Marcos está ensinando, através da estrutura gramatical, que a investidura do Espírito é uma unção para a guerra. Aquele que é declarado Filho é imediatamente tratado como Soldado.


  2. O Ritmo da Batalha: O estilo reflete a intensidade da batalha espiritual. Assim como em um combate real não há pausas para reflexão filosófica durante a troca de golpes, na narrativa de Marcos, a ação divina avança de forma irrefreável. O Reino de Deus invadiu a história (Mc 1:15), e essa invasão gera uma reação imediata das forças de oposição. A estrutura literária mimetiza a urgência escatológica: o tempo se abreviou, e o Rei está em movimento rápido para reivindicar seu domínio.  


B. O Quiasmo Temático e o Paralelismo Visual


Apesar de sua brevidade, a passagem de Marcos 1:12-13 exibe uma estrutura interna altamente sofisticada e equilibrada, que pode ser analisada como um quiasmo implícito ou um paralelismo de opostos. A cena é construída visualmente, espacialmente e relacionamente:


  • A (Agente Divino): O Espírito (Pneuma) — Ação: Impulsiona (ekballei) com força.

  • B (Lugar/Cenário): O Deserto (erēmos) — Contexto: Isolamento e hostilidade.

  • C (Duração/Tempo): Quarenta dias (tessarakonta) — Significado: Tipologia de provação completa.

  • C' (Agente Antagônico): Satanás (Satanas) — Ação: Tenta (peirazomenos).

  • B' (Agente Criacional/Cenário): As Feras (thēria) — Contexto: Coexistência (ameaça ou paz?).

  • A' (Agente Celestial): Os Anjos (angeloi) — Ação: Servem (diēkonoun).


Esta estrutura concêntrica coloca Jesus no vórtice de um turbilhão cósmico. Ele é o eixo imóvel em torno do qual giram as potências do céu (Espírito, Anjos), da terra (Deserto, Feras) e do submundo (Satanás).


  • Tensão Vertical: O Espírito empurra Jesus "para baixo" ou "para fora" (para o deserto), enquanto os anjos descem para sustentá-lo. Há uma interação constante entre o céu e a terra.


  • Tensão Horizontal: Jesus está posicionado entre o Adversário (Satanás) e a Criação bruta (Feras). Ele é o mediador que deve resolver o conflito introduzido pela Queda. A estrutura literária destaca a centralidade absoluta de Cristo: ele não é um mero espectador, mas o protagonista que suporta e resolve as tensões cósmicas.  


C. Análise Comparativa Sinótica: A Singularidade de Marcos


A comparação com os paralelos sinóticos (Mt 4:1-11; Lc 4:1-13) revela a intenção teológica exclusiva de Marcos através do que ele omite e do que ele inclui exclusivamente.


Característica

Mateus (4:1-11)

Lucas (4:1-13)

Marcos (1:12-13)

Verbo de Movimento

Anēchthē (Foi conduzido para cima)

Ēgeto (Era guiado)

Ekballei (Impeliu/Expulsou com violência)

Foco da Tentação

Obediência à Torá (Citações de Dt)

Humanidade e Persistência (Momento oportuno)

Identidade e Conflito de Poder

Diálogos

Três tentações explícitas

Três tentações explícitas

Ausentes (Foco no fato do confronto)

Jejum

Explícito (fome)

Explícito (fome)

Implícito

Detalhe Exclusivo

Pedras, Pináculo, Monte

Reinos em um instante

"Estava com as feras"

Resultado

Diabo o deixou; anjos serviram

Diabo se afastou; Jesus volta no poder

Anjos serviam (ação contínua)

A ausência dos diálogos em Marcos não deve ser vista como uma deficiência. Ao remover o conteúdo verbal das tentações, Marcos força o leitor a focar na natureza essencial do evento: um choque de reinos. Marcos apresenta a cena quase como um tableau vivant ou uma pintura iconográfica. A menção exclusiva de que Jesus "estava com as feras" (meta tōn thēriōn) altera significativamente a textura literária da cena, introduzindo temas de teologia da criação (Adão) ou de terror escatológico (Salmo 91), que serão explorados na exegese. Marcos é visual, espacial e apocalíptico, enquanto Mateus e Lucas são pedagógicos e catequéticos.  


III - Análise Exegética e Hermenêutica: O Léxico do Conflito


A densidade teológica de Marcos 1:12-13 reside na precisão cirúrgica de seu vocabulário. Cada palavra grega carrega um peso histórico, intertextual e dogmático que exige uma dissecação cuidadosa.


Versículo 12: A Violenta Expulsão pelo Espírito


Texto Grego: Kai euthys to Pneuma auton ekballei eis tēn erēmon. Tradução: "E imediatamente o Espírito o impeliu [expulsou] para o deserto."


1. A Pneumatologia da Ação (To Pneuma)


O sujeito da oração é o Espírito (To Pneuma). Isso é fundamental para a cristologia e a apologética (ver seção VII). Jesus não vai ao deserto por acaso, nem por uma iniciativa humana autônoma, nem arrastado primariamente pelo Diabo. Ele vai sob a direção soberana e eficaz da Terceira Pessoa da Trindade. A tentação ocorre dentro da economia da salvação, não fora dela. O mesmo Espírito que o ungiu no batismo agora o equipa e o direciona para o campo de batalha. Não há dicotomia entre o "Espírito Consolador" e o "Espírito Guerreiro"; aqui, o Espírito age como o estrategista divino que posiciona o Campeão (Jesus) no local exato onde o inimigo deve ser engajado.  


2. A Violência do Verbo (Ekballei)


Aqui reside um dos pontos exegéticos mais debatidos e teologicamente ricos. Marcos utiliza o verbo ekballō no presente histórico (ekballei), conferindo vivacidade à cena.


  • Semântica: O verbo ekballō é forte, agressivo e até violento. Literalmente, significa "lançar fora", "expulsar", "arremessar para fora". É a mesma palavra técnica usada por Marcos consistentemente para descrever a expulsão de demônios (1:34, 39; 3:15, 22; 6:13; 7:26; 9:18, 28) e a purificação do Templo, onde Jesus "expulsa" os vendilhões (11:15).


  • Contraste Sinótico: Mateus usa anēchthē (passivo divino, "foi levado") e Lucas usa ēgeto (continuativo, "era guiado"), ambos termos mais suaves que denotam condução.


  • Significado Teológico: Por que Marcos usa um verbo tão violento para descrever a ação do Espírito sobre o Filho?


    • Rejeição da Relutância: Não implica que Jesus estava relutante ou resistindo a Deus.


    • A Força da Vocação: O termo sugere uma compulsão divina poderosa e irresistível. Jesus, como o Servo Sofredor e o Profeta Escatológico, é tomado por uma força pneumática que o arranca da segurança e o lança na linha de frente. Há uma "violência santa" na vocação messiânica. Assim como os profetas do Antigo Testamento eram "arrebatados" ou "agarrados" pela mão de YHWH (Ez 3:14; Jr 20:7), Jesus é impelido para o confronto com uma urgência que não admite demora. O Espírito o "despeja" no território inimigo como uma arma de guerra.  


3. A Geografia Teológica (Eis tēn erēmon)


O termo erēmos não é apenas uma indicação geográfica, mas teológica. Denota um lugar solitário, desabitado, inculto.


  • Lugar de Maldição e Demônios: Na cosmovisão judaica do Segundo Templo (influenciada por textos como 1 Enoque 10:4 e a liturgia do Dia da Expiação em Levítico 16), o deserto era a habitação de Azazel e dos espíritos impuros. Era o reino do caos, da morte e da antivida. Ao ser lançado ali, Jesus está invadindo o QG do inimigo. Ele leva a presença santificadora do Espírito para o lugar da maldição.  


  • Lugar de Encontro e Renovação: Paradoxalmente, o deserto é também o lugar da teofania (Sinai/Horebe) e do primeiro amor de Israel (Jr 2:2). É o local onde Deus seduz seu povo para falar-lhe ao coração (Os 2:14). Jesus vai ao deserto para recapitular a história de Israel, transformando o lugar de murmuração em lugar de obediência perfeita.


Versículo 13: A Provação, O Adversário e a Nova Criação


Texto Grego: kai ēn en tē erēmō tessarakonta hēmeras peirazomenos hypo tou Satana, kai ēn meta tōn thēriōn, kai hoi angeloi diēkonoun autō. Tradução: "E estava no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás; e estava com as feras, e os anjos o serviam."


1. A Tipologia Temporal (Tessarakonta hēmeras)


O número 40 é saturado de simbolismo bíblico, indicando um período completo de teste, purificação e preparação para uma nova era ou missão.


  • Moisés: Jejuou 40 dias e noites no Monte Sinai na presença de Deus, sem comer pão nem beber água, para receber a Lei (Êx 34:28; Dt 9:9).


  • Elias: Caminhou 40 dias e noites com a força da comida angélica até o Horebe para renovar a aliança profética (1 Rs 19:8).


  • Israel: Peregrinou 40 anos no deserto, onde foi testado e falhou frequentemente (Dt 8:2).


  • Jesus em Marcos: Jesus é apresentado como o Profeta maior que Moisés e Elias e o Verdadeiro Israel. Onde Israel falhou na fome e na idolatria, Jesus permanece fiel. O período de 40 dias em Marcos não é apenas a duração da tentação, mas a duração de toda a estadia no deserto; a tentação permeia todo o período.  


2. A Natureza do Conflito (Peirazomenos hypo tou Satana)


O uso do particípio presente passivo (peirazomenos) indica uma ação contínua e duradoura. Jesus não foi tentado apenas no final dos 40 dias (como uma leitura superficial de Mateus poderia sugerir), mas durante todo o período.


  • O Verbo Peirazō: O termo grego possui um campo semântico duplo. Pode significar "testar" (dokimazō), no sentido positivo de provar a qualidade e a fidelidade (como Deus testou Abraão, Gn 22), ou "tentar", no sentido negativo de solicitar para o mal, seduzir para a queda e destruição. Em Marcos 1:13, ambos os sentidos convergem em uma tensão dramática: Deus, através do Espírito, está testando a fidelidade messiânica de seu Filho, enquanto Satanás, agindo como o agente do teste, está tentando destruir essa fidelidade e subverter a missão.  


  • O Agente (Satanas): Marcos usa o nome próprio "Satanás" (do hebraico ha-Satan, o Acusador/Adversário), em vez de "Diabo" (Diabolos). Isso enfatiza o papel pessoal e adversarial. Satanás não é uma metáfora para o mal abstrato ou para a inclinação interna do homem (yetzer hara); ele é um agente externo, pessoal e poderoso, o "homem forte" que guarda sua casa (o mundo caído) e que agora enfrenta o "Mais Forte" que veio para atá-lo. O conflito é objetivo e cósmico.


3. O Enigma das Feras (Kai ēn meta tōn thēriōn)


Esta frase, exclusiva de Marcos, é o crux interpretum da passagem. Existem duas linhas hermenêuticas principais, e a genialidade de Marcos pode residir na fusão de ambas:


  • A. Interpretação do Terror/Conflito: Baseia-se em textos como Salmo 22:12-21 ("Muitos touros me cercam... salvam-me da boca do leão") e Salmo 91:13 ("Pisarás o leão e a áspide"). Nesta visão, as "feras" representam o perigo demoníaco, a ameaça de morte e o horror absoluto do deserto. Elas são os agentes de Satanás para amedrontar Jesus. Jesus é o herói que enfrenta o "terror da noite" e triunfa sobre a criação hostil.  


  • B. Interpretação do Paraíso/Novo Adão: Esta linha, favorecida por muitos exegetas modernos (como Bauckham e Jeremias), vê aqui uma tipologia Adâmica reversa. Baseia-se em Isaías 11:6-9 ("O lobo habitará com o cordeiro") e Gênesis 1-2. Adão foi criado para dominar as feras, mas caiu e a criação tornou-se hostil. Jesus, o Segundo Adão (Rm 5), ao vencer a tentação, restaura a paz paradisíaca. A preposição meta ("com") sugere companhia e coexistência pacífica, não combate. Jesus está "com" as feras como Adão estava no Éden. As feras reconhecem seu verdadeiro Senhor e a inimizade da Queda é suspensa na presença do Messias. Esta leitura sugere que a Era Messiânica de paz já irrompeu no deserto.  


  • Síntese: A presença das feras atesta a identidade de Jesus como o Senhor da Criação. Seja subjugando o terror ou restaurando a paz, Ele exerce autoridade onde Adão falhou.


4. O Ministério Angélico (Kai hoi angeloi diēkonoun autō)


A sentença final fecha o quadro com a intervenção celestial. O verbo diakoneō (servir) é frequentemente usado no NT para "servir à mesa" ou prover comida (cf. Mc 1:31, onde a sogra de Pedro, curada, os "serve").


  • O Imperfeito (diēkonoun): O tempo imperfeito sugere uma ação contínua ou repetida: "os anjos estavam servindo-o". Eles não apareceram apenas no final (como em Mateus), mas sustentaram Jesus durante toda a provação.


  • Tipologia do Êxodo e Elias: Assim como Israel foi alimentado com maná (pão dos anjos, Sl 78:25) e Elias foi alimentado por um anjo antes de sua jornada de 40 dias (1 Rs 19:5-8), Jesus é sustentado sobrenaturalmente.


  • Confirmação da Filiação: A presença dos anjos valida a promessa do Salmo 91:11 ("Aos seus anjos dará ordens a teu respeito"). O Pai não abandonou o Filho no deserto; o céu estava mobilizado para garantir sua sobrevivência física enquanto Ele travava a batalha espiritual.  


Tabela 1: Análise Lexical dos Termos Chave em Marcos 1:12-13


Termo Grego

Tradução

Significado em Marcos

Implicação Teológica

Euthys

Imediatamente

Urgência, ação sem pausa.

A missão de Cristo é dinâmica, escatológica e imparável.

Ekballei

Impeliu/Expulsou

Força, compulsão divina violenta.

O Espírito tem soberania estratégica sobre a agenda de Jesus. Vocação profética irrevogável.

Eremos

Deserto

Lugar solitário, hostil, Jeshimon.

Campo de batalha espiritual; lugar de maldição transformado em lugar de renovação da aliança.

Peirazomenos

Sendo tentado

Teste contínuo (particípio presente).

A vida de Jesus foi uma guerra constante contra o mal, não apenas um evento isolado.

Satanas

Satanás

O Adversário pessoal.

O mal é objetivo e externo; Jesus invade o reino das trevas para atar o homem forte.

Thēria

Feras

Animais selvagens.

Ambiguidade: Perigo mortal (Salmo 22) ou Paz Messiânica/Novo Éden (Isaías 11).

Diēkonoun

Serviam

Ministério, serviço de mesa.

Provisão física e espiritual divina; sustento contínuo na provação (Salmo 91).

IV - Contexto Histórico-Cultural e Aspectos Arqueológicos


A exegese de Marcos 1:12-13 enriquece-se imensamente quando ancorada na realidade material e cultural da Judeia do século I. O "deserto" não é uma abstração teológica, mas um lugar físico com características específicas que moldaram a experiência de Jesus e a compreensão dos primeiros leitores.


A. A Geografia Física do Deserto da Judeia


O termo erēmos refere-se especificamente ao Deserto da Judeia, uma faixa de terra árida que desce abruptamente da cordilheira central (Jerusalém/Hebrom) para o Vale do Rift do Jordão e o Mar Morto.


  • Topografia Hostil: É uma região de calcário senoniano macio, esculpida por ravinas profundas e wadis (leitos de rios secos) traiçoeiros. A altitude cai de cerca de 800-1000m acima do nível do mar (em Jerusalém) para cerca de 400m abaixo do nível do mar (no Mar Morto) em uma distância curta de 20-30 km. Isso cria uma "sombra de chuva" extrema, tornando a terra estéril e desolada. No Antigo Testamento, é frequentemente chamada de Jeshimon ("a devastação").


  • Clima: As temperaturas no verão podem ultrapassar 45°C, enquanto as noites de inverno podem ser congelantes. A sobrevivência humana sem recursos externos é quase impossível por longos períodos.


  • Arqueologia da Fauna: A menção das "feras" (thēria) por Marcos é corroborada por registros históricos e arqueológicos. No século I, a região ainda abrigava predadores que hoje estão extintos ou são raros na área. O leão asiático (Panthera leo persica), mencionado frequentemente na Bíblia, ainda habitava os matagais do Jordão (a "glória do Jordão", Jr 49:19). Outros animais incluíam o leopardo (Panthera pardus), o urso pardo sírio (Ursus arctos syriacus), lobos, hienas listradas, chacais e javalis. A presença de Jesus entre as "feras" não era uma hipérbole poética, mas uma descrição de perigo letal real. Dormir ao relento no deserto da Judeia era expor-se a ser devorado.  


B. Expectativas Messiânicas e Movimentos do Deserto


No período do Segundo Templo, o deserto estava carregado de expectativas políticas e escatológicas. A tipologia do "Novo Êxodo" permeava a esperança judaica.


  • Os Essênios e Qumran: A comunidade de Qumran, situada neste mesmo deserto (costa noroeste do Mar Morto), retirou-se para lá baseada em Isaías 40:3 ("Preparai no deserto o caminho do Senhor"). Eles viviam em ascetismo rigoroso, aguardando a batalha final entre os "Filhos da Luz" e os "Filhos das Trevas". Para eles, o deserto era um refúgio de pureza longe da corrupção do Templo de Jerusalém.


  • Movimentos Revolucionários: Flávio Josefo relata diversos aspirantes a messias e líderes carismáticos (como Teudas e o "Egípcio") que conduziram seguidores ao deserto, prometendo repetir os milagres de Moisés ou Josué (abrir o Jordão, derrubar muralhas) como prelúdio para a libertação de Roma.


  • O Contraste de Jesus: Ao ir para o deserto, Jesus valida essa expectativa tipológica (é ali que a redenção começa), mas subverte o modelo. Ele não vai para organizar um exército militar (Zelotes), nem para fundar uma comunidade monástica isolacionista (Essênios). Ele vai sozinho para enfrentar a fonte espiritual do mal. Sua batalha não é contra Roma (ainda), mas contra Satanás, a raiz de toda opressão. Jesus redefine a geografia da salvação: a libertação não vem pela fuga política ou ritual, mas pelo confronto espiritual direto.  


C. A Demonologia do Século I


A cosmovisão do antigo Oriente Próximo não via o deserto como um espaço neutro, mas como o domínio do caos. Textos intertestamentários como Tobias (8:3) situam demônios fugindo para as "partes mais remotas do Egito" (deserto). Em Mateus 12:43, o espírito imundo anda por "lugares áridos". Jesus, ao ser "impelido" para lá, está realizando uma incursão ofensiva. Ele não está se escondendo; ele está caçando. Ele vai onde o inimigo se sente seguro para desafiar sua autoridade sobre a criação caída.


V - Questões Polêmicas e Discussões Teológicas


A densidade do texto marcano levanta debates teológicos que atravessam séculos de reflexão cristã.


A. O Dilema da Impecabilidade: Peccabilitas vs. Impeccabilitas


A afirmação bíblica de que Jesus foi "tentado" (peirazomenos) gera uma aporia cristológica clássica: Era possível para Jesus pecar?


  1. A Posição da Peccabilitas (Capacidade de pecar): Esta corrente argumenta que, para a tentação ser real e não uma farsa teatral, a possibilidade de queda deveria existir. Se Jesus não pudesse pecar, ele não seria verdadeiramente humano, nem poderia compadecer-se das nossas fraquezas, sendo "tentado em tudo à nossa semelhança" (Hb 4:15). A genuinidade da luta humana exige a possibilidade do fracasso.


  2. A Posição da Impeccabilitas (Incapacidade de pecar): Esta é a posição majoritária na teologia ortodoxa e reformada. Argumenta-se que Jesus é Deus, e "Deus não pode ser tentado pelo mal" (Tg 1:13) no sentido de ceder a ele. A União Hipostática (duas naturezas, uma pessoa) garante que a pessoa do Filho não pode pecar. Se a natureza humana pecasse, a Pessoa Divina estaria implicada em pecado, o que é ontologicamente impossível.


  3. Síntese Teológica e a Realidade da Pressão: Teólogos de peso, como W.G.T. Shedd e Louis Berkhof, resolvem o dilema distinguindo entre a suscetibilidade ao ataque e a inevitabilidade da vitória. Eles argumentam que a tentação de Jesus foi mais real e intensa do que a nossa precisamente porque ele nunca cedeu.


    • Analogia da Força: Uma árvore que quebra sob o vento conhece a força do vento apenas até o ponto de ruptura. A árvore que permanece de pé até o fim do furacão conhece a força total e máxima do vento. Nós cedemos à tentação antes que ela atinja seu grau máximo; Jesus suportou a pressão total sem quebrar.


    • A tentação foi real não porque havia uma chance "matemática" de Deus falhar, mas porque a pressão exercida sobre a natureza humana de Jesus (fome, medo, desejo de glória) foi real, excruciante e levada ao limite. Ele sentiu o peso do pecado sem participar dele.


B. O Segredo Messiânico e a Natureza da Tentação


William Wrede, em 1901, propôs a teoria do "Segredo Messiânico" em Marcos, sugerindo que o evangelista criou o tema do silêncio (Jesus proibindo demônios e discípulos de revelarem quem Ele era) para explicar por que Jesus não foi reconhecido como Messias em vida.


  • Aplicação à Tentação: A tentação no deserto é lida por muitos (como J.R. Edwards) como a definição de que tipo de Messias Jesus seria. Satanás tenta Jesus a abandonar o caminho do Servo Sofredor (o caminho da cruz, oculto e doloroso) por um messianismo de glória imediata, poder político e milagres espetaculares (o caminho da glória sem sofrimento).


  • Refutação a Wrede: A exegese moderna (Hengel, Guelich) rejeita o ceticismo de Wrede, afirmando que o "segredo" não é uma invenção literária, mas uma necessidade histórica e teológica. Jesus precisava redefinir o messianismo (purificando-o de conotações nacionalistas violentas) antes de aceitar o título publicamente. A tentação no deserto é o momento fundante dessa redefinição: Jesus recusa os atalhos satânicos para o poder.  


VI - Doutrina Teológica (Sistemática) e Visões Denominacionais


A perícope de Marcos 1:12-13 é um manancial para a construção dogmática, especialmente na Cristologia e na Soteriologia.


A. Cristologia: Recapitulação e Cabeça Federal


A teologia sistemática, seguindo Irineu de Lião, vê neste evento a doutrina da Recapitulação (anakephalaiōsis). Jesus revive a história humana e de Israel, mas com um desfecho vitorioso.


  • Tipologia Adâmica (Segundo Adão): Onde o primeiro Adão falhou em um jardim exuberante, cercado de animais dóceis e com todas as necessidades supridas, o Segundo Adão (Jesus) venceu em um deserto hostil, cercado de feras e faminto. A obediência ativa de Cristo desfaz a desobediência de Adão (Rm 5:19). A presença pacífica com as feras (se seguirmos a interpretação paradisíaca) é o sinal escatológico de que o domínio sobre a criação, perdido por Adão, foi recuperado pelo Filho do Homem (Sl 8).


  • Tipologia de Israel: Jesus é o "Filho" que Deus chamou do Egito (Mt 2:15). Onde a nação de Israel falhou durante 40 anos, caindo em murmuração e idolatria, Jesus, o Verdadeiro Israel reduzido a um homem, permaneceu fiel por 40 dias, confiando plenamente no Pai.


B. Perspectivas Denominacionais e Confissionais


  1. Tradição Reformada (Calvinista): Enfatiza a Representação Federal. Jesus está no deserto não apenas como um exemplo moral de resistência ("faça como Jesus"), mas como o Cabeça da Aliança. Sua vitória é legal e forense; ela é imputada aos eleitos. A resistência de Cristo à tentação constitui parte essencial de sua "Obediência Ativa", que é a base da justiça creditada ao crente na justificação. A soberania do Espírito em "impelir" Jesus destaca o monergismo da obra redentora.  


  2. Tradição Luterana: Foca no tema do Christus Victor. A obra de Cristo é vista primariamente como uma batalha dramática para libertar a humanidade escravizada por tiranos ilegítimos (pecado, morte, diabo). O deserto é a arena onde o campeão da humanidade entra em combate singular para derrotar o dragão. A ênfase está na objetividade da vitória sobre o Diabo.


  3. Tradição Católica Romana: Historicamente, interpretou este texto (junto com Mt e Lc) como o modelo supremo para a vida ascética e monástica. A fuga mundi (fuga do mundo) para o deserto, o jejum rigoroso e o enfrentamento direto dos demônios tornaram-se paradigmas para os Padres do Deserto (como Santo Antão) e para a via purgativa da espiritualidade. A Quaresma é a atualização litúrgica destes 40 dias na vida da Igreja.


  4. Tradição Pentecostal/Carismática: Enfatiza a Batalha Espiritual e a Pneumatologia. O foco recai sobre o fato de que Jesus foi "cheio do Espírito" e "impelido pelo Espírito" para o confronto. O texto é lido como um manual de guerra: a unção do Espírito invariavelmente atrai o ataque satânico, mas também provê autoridade para vencer e suporte angelical. A realidade dos demônios e a necessidade de confronto direto são pontos centrais de aplicação.


VII - Análise Apologética


A narrativa da tentação, com seus elementos sobrenaturais (Satanás, anjos, Espírito), oferece um terreno fértil e necessário para a apologética cristã em um mundo secularizado.


A. A Realidade do Mal Pessoal vs. Mal Estrutural


A modernidade tende a reduzir o mal a estruturas sociais injustas, ignorância educacional ou desequilíbrios psicológicos/químicos. A narrativa de Marcos desafia essa visão reducionista afirmando a existência de uma inteligência malévola pessoal: Satanás.


  • Argumento Apologético: A apologética cristã (ex: C.S. Lewis, Plantinga) argumenta que a profundidade, a inteligência e a malícia gratuita do mal na história humana são melhor explicadas pela existência de uma agência pessoal maligna do que pelo mero acaso evolutivo ou determinismo sociológico. A batalha de Jesus valida a intuição humana universal de que o mal é uma força "intrusa", um parasita na boa criação de Deus, e não algo natural. O mal tem uma "face", e Jesus veio para confrontá-la.


B. O Dualismo e a Soberania de Deus


Filosoficamente, o texto aborda o problema do dualismo. O cristianismo não prega um dualismo ontológico (como o Zoroastrismo ou Maniqueísmo), onde Bem e Mal são deuses iguais e eternos em luta perpétua.


  • A Resposta de Marcos: Satanás é real e poderoso, mas não é soberano. Note quem toma a iniciativa: é o Espírito (To Pneuma) que impele (ekballei) Jesus para o deserto. Deus é o agressor; Deus escolhe o tempo e o lugar da batalha. Satanás reage. Isso oferece uma resposta robusta ao Problema do Mal: Deus permite e até orquestra o teste, não porque o mal seja bom, mas porque a derrota do mal é necessária para a manifestação da maior glória de Deus e a redenção da criação (simbolizada pela paz com as feras).


C. A Humanidade Genuína de Jesus (Contra o Docetismo Moderno)


Contra visões que espiritualizam Jesus a ponto de torná-lo um mito ou um fantasma (Docetismo), a tentação prova sua humanidade crua. Ele estava em um lugar físico, cercado de perigos físicos (feras), sofrendo necessidades físicas (fome implícita no serviço dos anjos). Isso torna a fé cristã racionalmente atraente e existencialmente poderosa, pois apresenta um Deus que não assiste ao sofrimento de longe, mas "sabe o que é padecer", validando a experiência humana de luta, solidão e medo.


VIII - Análise de Seitas e Heresias


A interpretação equivocada da cristologia presente neste texto gerou, historicamente, diversas distorções doutrinárias.


A. Adocionismo e Ebionismo


Seitas judaico-cristãs antigas (como os ebionitas) e algumas formas de gnosticismo (Cerinto) ensinavam que Jesus era um mero homem sobre quem o "Espírito-Cristo" desceu no batismo, capacitando-o para milagres, mas abandonando-o antes da paixão. Eles poderiam ler o "Espírito o impeliu" como uma possessão externa de um homem por uma divindade separada.


  • Refutação: Marcos abre seu evangelho (1:1) declarando Jesus como "Filho de Deus" antes de qualquer evento. A filiação é ontológica, não funcional ou adotiva. O Espírito não cria a filiação no batismo; ele atesta a filiação e capacita a humanidade de Jesus para a missão. A união é pessoal (hipostática), não uma mera justaposição de duas pessoas.


B. Visão Mítica/Liberal (Desmitologização)


Teólogos liberais do século XIX e XX (como D.F. Strauss e R. Bultmann) trataram este relato como um mito puro (Mythus), criado pela comunidade primitiva para expressar a superioridade de Jesus sobre heróis judaicos, negando o evento histórico ou a existência de um Diabo pessoal.


  • Refutação: A sobriedade de Marcos milita contra a classificação de mito ou lenda tardia. Evangelhos apócrifos posteriores adornam a vida de Jesus com detalhes fantásticos (dragões que o adoram, etc.). Marcos é contido, áspero e realista. O "critério da dessemelhança" também apoia a historicidade: a igreja primitiva dificilmente inventaria uma história onde seu Senhor é "impelido" como um possesso e submetido a provações humilhantes, a menos que o fato estivesse firmemente enraizado na memória histórica das testemunhas oculares.


C. Sincretismo Esotérico e Nova Era


Grupos esotéricos modernos reinterpretam a "convivência com as feras" e o contato com anjos como uma validação de práticas xamânicas, comunicação com animais totêmicos ou estados alterados de consciência.


  • Refutação: O texto não mostra Jesus buscando sabedoria nas feras ou nos anjos. Ele está em conflito moral e espiritual com Satanás. Os anjos o servem (diakonia) como agentes de Deus, não como guias espirituais invocados por rituais. A autoridade de Jesus sobre as feras deriva de sua pureza e posição como Novo Adão, não de técnicas de manipulação da natureza.


D. Teologia da Prosperidade (Triunfalismo)


Certas vertentes do neopentecostalismo utilizam a vitória de Jesus e o serviço dos anjos para prometer aos crentes uma isenção de sofrimento e uma vida de triunfo constante.


  • Refutação: O texto de Marcos estabelece a teologia da cruz (theologia crucis) contra a teologia da glória. Porque era o Filho amado, Jesus foi levado ao deserto, à fome e ao perigo. A filiação atrai a provação, não o conforto imediato. Os anjos serviram Jesus no meio e através da provação, não para isentá-lo dela ou levá-lo para um palácio.


IX - Paralelos com Ciências e Aspectos Filosóficos


A profundidade da experiência de Jesus no deserto permite diálogos frutíferos com disciplinas seculares.


A. Psicologia da Privação e do Isolamento


A psicologia moderna estuda extensivamente os efeitos do isolamento sensorial e da privação fisiológica (fome, sede, calor extremo) na mente humana. Em ambientes de "tanque de privação sensorial" ou sobrevivência no deserto, alucinações visuais e auditivas são fenômenos neurológicos documentados.


  • O Desafio Naturalista: Um cético poderia argumentar que as visões de Satanás e anjos foram meros delírios psicossomáticos induzidos pela hipoglicemia e pelo estresse térmico.


  • A Resposta Teológica: A fé cristã não nega o desgaste físico; ela o pressupõe. A teologia ascética argumenta que a fragilidade física (o enfraquecimento da "carne") é precisamente a condição que silencia os ruídos do mundo material e aguça a percepção da realidade espiritual, que é objetiva, mas normalmente invisível. O jejum não visa a alucinação, mas a desintoxicação da dependência material para permitir o confronto espiritual em um nível mais profundo. O "delírio" para a psicologia pode ser a "visão" para a teologia.


B. Sociologia e Antropologia: O Rito de Passagem


O antropólogo Arnold van Gennep e, posteriormente, Victor Turner, desenvolveram a teoria dos "Ritos de Passagem", estruturados em três fases:


  1. Separação (Pré-liminar): O indivíduo é removido de seu status social anterior. (Jesus sai da multidão e de Nazaré para o Jordão/Deserto).


  2. Margem ou Liminaridade (Liminar): O estado de transição, ambiguidade e teste. O indivíduo não tem status, é "invisível", submetido a provações para provar seu valor. (Jesus no deserto: sem casa, sem título reconhecido, entre feras, sendo testado).


  3. Reagregação (Pós-liminar): O indivíduo retorna à sociedade com um novo status e poder. (Jesus retorna à Galileia pregando o Reino com autoridade).


  4. Insight: Marcos 1:12-13 descreve a fase de Liminaridade suprema. Sociologicamente, o deserto legitima a liderança carismática de Jesus. Ele não é um burocrata do Templo; ele é um homem santo forjado na margem, o que lhe confere autoridade profética para desafiar o centro.


C. Filosofia Existencialista: "Geworfenheit" vs. Missão


O conceito de Geworfenheit ("ser lançado" ou "jogado") de Martin Heidegger descreve a condição humana: somos "jogados" no mundo sem nossa escolha, em circunstâncias que não controlamos, gerando angústia. O verbo ekballei (impelido/lançado) em Marcos ressoa com essa ideia.


  • O Contraste Cristão: Jesus também é "lançado" (ekballei) no deserto, em uma situação hostil. Porém, ao contrário do existencialismo ateu, onde o lançamento é para o absurdo ou para o nada, Jesus é lançado por uma Pessoa (o Espírito) com um Propósito (Telos). A existência cristã, modelada em Cristo, não é um "ser-para-a-morte" (Heidegger), mas um "ser-para-a-batalha" e, ultimamente, um "ser-para-a-vitória". A provação tem sentido teleológico.


D. Direito: O Conceito de Provação (Probation)


Juridicamente, o conceito de "provação" (probation) refere-se a um período de teste onde o caráter e a aptidão de um indivíduo são avaliados antes da confirmação em um cargo ou da concessão de liberdade. Jesus, como o Segundo Adão, passa pelo "período probatório" em que o Primeiro Adão falhou. Sua "aprovação" forense no tribunal do deserto — resistindo à sedução do crime (pecado) — lhe dá o direito legal (Jus) de agir como o Representante e Redentor da humanidade. Ele ganha o direito de usar o "saque" da casa do homem forte.


X - Conexões Intertextuais e Tipologia Bíblica


A perícope de Marcos é um tecido denso, entrelaçado com fios de todo o cânon bíblico. A compreensão plena exige desenredar esses fios.


A. O Novo Êxodo e a Nova Criação


  • Texto Base: Isaías 40:3 ("Voz que clama no deserto"); Oséias 2:14; Isaías 11:6-9; Isaías 65:25.


  • Conexão: O deserto não é apenas o lugar da morte, mas o berço da redenção. Jesus inicia o retorno do exílio espiritual da humanidade no mesmo cenário onde Israel foi forjado. A presença das feras em paz (ou subjugadas) aponta para a realização das profecias de Isaías sobre a era messiânica onde "o lobo e o cordeiro pastarão juntos". Jesus inaugura o Shalom ecológico e cósmico.  


B. O Guerreiro Divino e o Caos Primordial


  • Texto Base: Salmo 74:13-14 ("Tu dividiste o mar... esmagaste as cabeças do Leviatã no deserto"); Isaías 27:1; Gênesis 1:2.


  • Conexão: Na mitologia do Oriente Próximo e na polêmica bíblica, o mar e o deserto são os loci do caos primordial. Jesus enfrentando Satanás e as feras evoca o motivo do Chaoskampf (luta contra o caos). YHWH derrota os monstros do caos para estabelecer a ordem (criação). Jesus, o encarnado YHWH, desce ao caos para reordená-lo e estabelecer o Reino.


C. O Justo Sofredor e o Salmo 91


  • Texto Base: Salmo 91:11-13 ("Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito... Pisarás o leão e a áspide").


  • Conexão: Marcos dramatiza o Salmo 91. Jesus é o Justo por excelência que habita "no esconderijo do Altíssimo" (sob a direção do Espírito), enfrenta o leão (feras/Satanás) e é servido pelos anjos. Diferente de Mateus, que cita o Salmo na boca de Satanás, Marcos encena o cumprimento do Salmo na experiência de Jesus.  


D. Daniel na Cova dos Leões


  • Texto Base: Daniel 6:22 ("O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões").


  • Conexão: A imagem de um homem de Deus justo, cercado por feras predadoras, mas protegido por anjos e ileso devido à sua fidelidade, tem um paralelo direto em Daniel. Jesus é o novo Daniel, o Filho do Homem (Dn 7), cuja inocência fecha a boca da morte e vindica a justiça de Deus sobre a força bruta.


Tabela 2: Comparativo das Tentações nos Sinóticos

Característica

Marcos (1:12-13)

Mateus (4:1-11)

Lucas (4:1-13)

Extensão

2 Versículos (breve, denso).

11 Versículos (detalhado, didático).

13 Versículos (detalhado, psicológico).

Agente do Envio

O Espírito o "expulsa" (ekballei).

O Espírito o "conduz" (anēchthē).

Cheio do Espírito, foi "guiado" (ēgeto).

Foco Teológico

O fato do conflito, a identidade do Guerreiro e a presença das feras.

O diálogo teológico, a obediência à Torá e a filiação como submissão.

A humanidade de Jesus e a persistência da tentação ("até momento oportuno").

Conteúdo

Não descreve as tentações específicas (pães, templo, reinos).

1. Pedras em pães


2. Pináculo do Templo


3. Reinos do Mundo.

1. Pedras em pães


2. Reinos do Mundo


3. Pináculo do Templo.

Detalhes Únicos

"Estava com as feras" (meta tōn thēriōn).

Jejum explícito de 40 dias e noites (fome enfatizada).

Diabo se afasta e Jesus retorna "no poder do Espírito".

Cristologia

O Guerreiro Cósmico / Novo Adão / Senhor da Criação.

O Novo Moisés / Verdadeiro Israel / Mestre da Lei.

O Homem Perfeito / Filho obediente / Exemplo moral.

Personagem / Evento

Duração

Local

Significado Teológico

Paralelo com Jesus em Marcos

Dilúvio (Noé)

40 dias/noites

Arca / Águas do Caos

Julgamento sobre o pecado e purificação para Nova Criação.

Jesus passa pelo "dilúvio" da tentação e inaugura a Nova Criação.

Moisés

40 dias/noites

Monte Sinai

Jejum na presença de Deus; Mediação da Antiga Aliança.

Jesus, o novo Legislador, vive em dependência do Pai para mediar a Nova Aliança.

Israel

40 anos

Deserto

Provação, falha, murmuração, aprendizado da dependência.

Jesus, o Verdadeiro Israel, é provado e vence onde a nação falhou (sucesso na prova).

Elias

40 dias/noites

Deserto até o Horebe

Jornada de desespero e renovação da vocação profética.

Jesus é o Profeta escatológico que renova a missão profética em meio à hostilidade.

Golias

40 dias

Vale de Elá

Desafio diário ao exército de Deus (1 Sm 17:16).

Jesus, o novo Davi, enfrenta o "gigante" Satanás que desafia o Reino e o vence.

XI - Exposição Devocional e Aplicação Prática


A exposição de Marcos 1:12-13 não deve terminar na análise acadêmica, mas desembocar na práxis cristã e na espiritualidade. O texto oferece um paradigma robusto para a vida de fé.


  1. A Vida no Deserto do Espírito: O texto corrige nossa teologia da prosperidade e do conforto. Ele ensina que uma vida cheia do Espírito não é uma garantia de facilidade, mas um convite ao campo de batalha. Muitas vezes, quando nos sentimos "impelidos" para situações de solidão, escassez financeira, aridez emocional ou ataque espiritual, não é necessariamente porque pecamos ou porque Deus nos abandonou. Pode ser exatamente o oposto: porque somos filhos amados e ungidos, o Espírito nos conduziu estrategicamente a uma provação necessária para forjar nossa identidade e autoridade.

     

  2. A Realidade da Batalha e a Não-Surpresa: Não devemos ser ingênuos ("estranhar o fogo ardente", 1 Pe 4:12). Se o próprio Filho de Deus, em sua santidade perfeita, foi atacado violentamente pelo Inimigo, seus seguidores também o serão. A tentação é inevitável para quem carrega a unção. Contudo, o texto nos liberta da culpa da tentação: ser tentado não é pecado; ceder é que é. Jesus nos mostra que a resistência é possível e que o Inimigo, embora forte, não é onipotente.


  3. Recursos Sobrenaturais: A menção dos anjos é um lembrete poderoso da providência divina. Quando os recursos humanos falham e a sociedade nos abandona (deserto), os recursos do céu são mobilizados. "Onde abundou o perigo, superabundou a graça". Deus sustenta seus filhos nos lugares estéreis. O crente nunca está verdadeiramente sozinho no deserto; o céu está ativo ao seu redor.


  4. Paz em Meio às Feras: A imagem de Jesus em paz com as feras é uma promessa escatológica que pode ser experimentada existencialmente agora. Aquele que tem paz com Deus (através da justificação e obediência) não precisa temer as "feras" da vida — sejam elas circunstâncias perigosas, inimigos humanos, ansiedades predatórias ou a própria morte. Cristo pacificou o caos. Se Ele pôde estar seguro entre leões e demônios no deserto da Judeia, Ele pode guardar o crente no meio do caos moderno. A autoridade de Cristo transforma o lugar de terror em um santuário de glória.


A exposição de Marcos 1:12-13 revela que estes dois versículos não são uma mera nota de rodapé biográfica entre o batismo e a pregação, mas o alicerce teológico da missão de Jesus. Eles estabelecem a identidade de Jesus como o Filho de Deus guerreiro, cheio do Espírito, o Novo Adão que reverte a queda, o Verdadeiro Israel que vence a provação e o Campeão Cósmico que entra na casa do homem forte para atá-lo e libertar os cativos.


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