O sacrifício pelos pecados dos sacerdotes | Levítico 4:13-21
- João Pavão
- 13 de dez. de 2025
- 14 min de leitura

I - Introdução e Contextualização
O livro de Levítico, ou Vayikra na tradição hebraica (assim chamado pela sua primeira palavra, "E chamou"), não é um mero apêndice cerimonial ao Êxodo, mas o coração pulsante da Torá. Se o Êxodo narra a redenção do povo de Deus da escravidão, Levítico prescreve o método de comunhão contínua com esse Deus libertador. A narrativa bíblica parou em Êxodo 40 com a Glória do Senhor (Shekinah) enchendo o Tabernáculo, impedindo até mesmo Moisés de entrar. Levítico surge como a resposta divina a esse dilema: Como pode um povo pecador e finito aproximar-se e habitar com um Deus infinitamente Santo?.
Os primeiros capítulos de Levítico (1-3) tratam das ofertas voluntárias, aquelas que o adorador traz por devoção espontânea (Olah, Minchah, Shelamim). Contudo, ao chegarmos ao capítulo 4, ocorre uma mudança dramática e necessária na legislação cúltica. Entramos na esfera das ofertas obrigatórias, desenhadas especificamente para lidar com a ruptura da aliança causada pelo pecado. O texto de Levítico 4:1-12 inaugura a legislação da Oferta pelo Pecado (hebraico: Chattat), um mecanismo divinamente instituído para a gestão da culpa e da impureza espiritual que ameaça a residência de Deus no meio de Israel.
Este bloco específico (vv. 1-12) trata do caso mais grave de todos dentro da categoria de pecados inadvertidos: o pecado do Sacerdote Ungido (HaKohen HaMashiach). A gravidade deste texto reside no princípio da representação federal. O sacerdote não é um indivíduo privado; ele é a personificação de Israel diante de Yahweh. Sua falha não é um tropeço pessoal, mas um cataclismo teológico que traz culpa (asham) sobre toda a nação. Portanto, o ritual prescrito aqui é o mais elaborado e solene entre as ofertas por pecado individual, exigindo que o sangue sacrificial penetre nas zonas mais sagradas do Santuário.
Contextualmente, Israel está acampado no pé do Sinai. O Tabernáculo acabou de ser erigido. A santidade de Deus é uma realidade física e perigosa no meio do acampamento. O sistema de sacrifícios não deve ser visto como um ritualismo primitivo de sangue, mas como uma tecnologia espiritual sofisticada de preservação da vida e da aliança. O estudo a seguir dissecará este texto com rigor acadêmico, explorando suas camadas linguísticas, históricas e teológicas, demonstrando como a antiga liturgia de sangue aponta inexoravelmente para a necessidade de uma expiação cósmica e definitiva.
II - Estrutura Literária e Análise Narrativa
A arquitetura literária de Levítico 4 revela uma mente jurídica e sacerdotal altamente organizada. O capítulo não é uma lista aleatória de regras, mas uma estrutura casuística hierárquica (Lei de Casos), onde os rituais são graduados de acordo com o nível de responsabilidade do ofensor e o impacto do seu pecado na santidade do santuário.
O capítulo divide-se em quatro painéis principais, baseados na pessoa que peca:
O Sacerdote Ungido (vv. 1-12): O foco da nossa exposição. O pecado contamina o Lugar Santo; exige um novilho; o sangue é levado para dentro da Tenda; a carcaça é queimada fora do arraial.
Toda a Congregação de Israel (vv. 13-21): O pecado coletivo. Equiparado em gravidade ao do Sumo Sacerdote. O ritual é quase idêntico.
O Príncipe/Líder (Nasi) (vv. 22-26): Pecado de uma autoridade civil. Exige um bode macho; o sangue fica no pátio externo.
O Cidadão Comum (Am Ha'aretz) (vv. 27-35): Pecado de um leigo. Exige uma cabra ou cordeira fêmea; o sangue fica no pátio externo.
A perícope de Levítico 4:1-12, portanto, estabelece o paradigma máximo. A estrutura narrativa interna destes doze versículos segue um padrão processual rigoroso, desenhado para a memorização e execução precisa pelos levitas:
Abertura Divina (vv. 1-2): A fonte da lei é Yahweh, não Moisés.
A Prótase (A Condição - v. 3a): "Se o sacerdote ungido pecar...".
A Apódose (A Consequência/Remédio - v. 3b-12): Uma série de verbos de ação que detalham o rito:
Apresentação e Identificação: Trazer o novilho e impor as mãos (v. 4).
Rito de Sangue (Purificação): Aspergir 7 vezes diante do véu e nas pontas do altar de incenso (vv. 5-7).
Rito de Gordura (Consagração): Queimar a gordura no altar de bronze (vv. 8-10).
Rito de Eliminação (Remoção): Queimar a carcaça fora do arraial (vv. 11-12).
Esta estrutura literária destaca o conceito de Santidade Gradativa. Quanto maior a autoridade espiritual do indivíduo, maior a penetração do seu pecado nas esferas da santidade e mais caro e complexo é o ritual de restauração. A narrativa utiliza a repetição de fórmulas (como "fará ao novilho como fez...") para criar coesão interna e reforçar a pedagogia do ritual.
III - Análise Exegética e Hermenêutica
A compreensão profunda de Levítico 4:1-12 exige uma microanálise do texto hebraico, pois cada termo técnico carrega um peso teológico imenso.
Versículos 1-2: A Natureza do Pecado Bishegagah
"Falou mais o SENHOR a Moisés... Quando uma alma pecar, por ignorância (bishegagah)..."
A palavra hebraica chave que define todo o escopo deste capítulo é Bish'gagah (בִּשְׁגָגָה), traduzida como "por ignorância", "inadvertidamente" ou "sem intenção". A raiz shagah refere-se a errar o caminho, desviar-se ou cometer um erro por descuido.
Conceito Teológico: Isso estabelece uma distinção fundamental na teologia penal de Israel. A Chattat (oferta pelo pecado) cobre pecados cometidos por fraqueza, negligência, esquecimento ou desconhecimento da lei.
Contraste: O pecado bishegagah contrasta com o pecado BeYad Ramah ("com mão levantada" ou "desafiadoramente"), mencionado em Números 15:30. Para a rebelião alta e desafiadora contra a aliança, não havia sacrifício ordinário previsto; a pena era o corte (karet).
Implicação: O texto revela que, para Deus, a intenção não anula a culpa. Mesmo o pecado cometido sem malícia cria uma dívida espiritual e uma poluição real que precisa ser tratada. A ignorância não é inocência; é uma forma de culpa atenuada que ainda exige sangue.
Versículo 3: O Representante Federal e a Culpa Corporativa
"Se o sacerdote ungido pecar para escândalo do povo..."
HaKohen HaMashiach (הַכֹּהֵן הַמָּשִׁיחַ): Refere-se ao Sumo Sacerdote. O termo "ungido" é enfático. Enquanto os sacerdotes comuns eram aspergidos com óleo, o Sumo Sacerdote tinha o óleo derramado sobre a cabeça (Lv 8:12; 21:10), simbolizando a plenitude do Espírito e da autoridade.
Leashmat Ha'am (לְאַשְׁמַת הָעָם): Traduzido como "trazendo culpa sobre o povo" ou "para escândalo do povo". Esta é uma das frases mais consequentes do Antigo Testamento. Ela ensina o princípio da solidariedade corporativa. O Sumo Sacerdote é o mediador; ele é a "ponte" entre Deus e Israel. Se a ponte cai, o tráfego da graça para. O pecado privado do Sumo Sacerdote resulta em uma culpa objetiva para toda a nação. A nação inteira fica sob juízo devido à falha de um homem.
Par (פַּר): O animal exigido é um "novilho" (touro jovem). É o animal mais valioso do rebanho, correspondendo à alta posição do ofensor. O custo do pecado é proporcional ao privilégio do pecador.
Versículo 4: A Imposição de Mãos (Semichah)
"...e porá a sua mão sobre a cabeça do novilho..."
O rito de Semichah (סְמִיכָה) envolve mais do que um toque suave. O verbo Samach significa "apoiar-se", "fazer força sobre", "sustentar".
Significado Teológico: Não é apenas uma designação de propriedade ("este boi é meu"). É um ato de transferência e substituição. O ofertante transfere sua identidade, e teologicamente, sua culpa, para o animal. O animal torna-se o alter ego do pecador.
O Abate (Shechitah): Note que é o próprio sacerdote (como pecador) quem mata o animal, não outro sacerdote. A experiência visceral de tirar a vida do animal servia como uma lição gráfica: "Este animal está morrendo a morte que eu merecia". O salário do pecado é a morte, e ela é executada vicariamente.
Versículos 5-7: A Liturgia do Sangue no Lugar Santo
Aqui o ritual do Sumo Sacerdote diverge radicalmente do ritual do cidadão comum. O sangue deve ser levado para dentro da Tenda da Congregação (Ohel Moed).
Aspersão Diante do Véu (v. 6): O sacerdote deve aspergir (Hizzah) o sangue sete vezes diante do Parokhet (o véu que separa o Santo dos Santos).
Interpretação: O pecado do Sumo Sacerdote é tão grave que a poluição atravessa o pátio e contamina a própria entrada da sala do trono de Deus. As sete aspersões visam purificar o véu para que a presença de Deus não irrompa em juízo. O número sete indica uma purificação completa e perfeita.
Aplicação nas Pontas do Altar de Incenso (v. 7): O sangue é colocado nos "chifres" (Qarnot) do altar de ouro (altar de incenso).
Simbolismo: O altar de incenso representa a intercessão e a oração aceitável. O pecado do mediador corrompeu o instrumento de intercessão. O sangue purifica o altar para que as orações de Israel possam novamente ser ouvidas. Isso contrasta com o pecado do líder ou do povo comum, onde o sangue é aplicado apenas no altar de bronze fora da tenda.
Versículos 8-10: A Oferta da Gordura (Chelev)
A gordura que cobre as entranhas, os rins e o lóbulo do fígado deve ser queimada no altar. No pensamento semítico, a gordura (Chelev) e os rins eram a sede das emoções, da vontade e da melhor parte da energia vital do animal.
Significado: Mesmo numa oferta pelo pecado, a "melhor parte" pertence a Yahweh. A queima produz um "aroma suave", indicando que a intenção de restaurar a comunhão é agradável a Deus. Deus reivindica a essência da vida (o sangue) para expiação e a essência da energia (a gordura) para satisfação.
Versículos 11-12: O Descarte Fora do Arraial
Este é o ponto mais distintivo e sombrio da Chattat sacerdotal. Diferente das outras ofertas, cuja carne era comida pelos sacerdotes num ato de comunhão, a carne deste novilho não pode ser comida.
A Regra: O sacerdote que oferece o sacrifício normalmente come da carne (Lv 6:26), simbolizando que Deus aceitou a expiação. Mas, como o sacerdote aqui é o próprio pecador, ele não pode se beneficiar do seu próprio pecado, nem mediar por si mesmo comendo a oferta.
O Destino: O novilho inteiro (couro, carne, cabeça, pernas, entranhas e até o esterco) deve ser levado para um "lugar limpo" fora do arraial (Michuts LaMachaneh).
Teologia do "Fora do Arraial": O animal tornou-se portador de uma impureza tóxica. Ele é "anátema". Deve ser removido da presença da comunidade santa. No entanto, deve ser um lugar "limpo" (onde se jogam as cinzas sagradas), indicando que, embora carregue o pecado, o sacrifício em si é santíssimo.
Tabela Comparativa: As Ofertas pelo Pecado (Chattat) em Levítico 4
Categoria do Ofensor | Animal Exigido | Local do Sangue | Destino da Carne | Nível de Poluição |
|---|---|---|---|---|
Sumo Sacerdote | Novilho (Macho) | Dentro da Tenda: Véu e Altar de Incenso | Queimada fora do arraial (Não comida) | Máximo (Lugar Santo) |
Toda a Congregação | Novilho (Macho) | Dentro da Tenda: Véu e Altar de Incenso | Queimada fora do arraial (Não comida) | Máximo (Lugar Santo) |
Líder Civil (Príncipe) | Bode (Macho) | Pátio: Pontas do Altar de Holocausto | Comida pelos sacerdotes | Médio (Pátio) |
Cidadão Comum | Cabra/Cordeira (Fêmea) | Pátio: Pontas do Altar de Holocausto | Comida pelos sacerdotes | Médio (Pátio) |
IV - Contexto Histórico-Cultural e Aspectos Arqueológicos
A Geografia Espacial do Acampamento
Para entender Levítico 4, é crucial visualizar a "Cosmologia da Santidade" de Israel. O mundo não era homogêneo; era graduado em zonas de santidade:
Santo dos Santos: A presença concentrada de Yahweh sobre a Arca.
Lugar Santo: A esfera de operação sacerdotal.
Pátio do Tabernáculo: Onde o povo se encontrava com Deus.
O Arraial de Israel: A esfera da vida diária pura.
Fora do Arraial: O domínio da morte, da impureza (leprosos, cadáveres) e do caos (Azazel).
O ritual de Levítico 4:1-12 conecta todas essas zonas: o pecado começa no coração do sacerdote (Arraial), o sangue vai até o Véu (fronteira do Santo dos Santos), e a carcaça vai para Fora do Arraial. Arqueologicamente, a disposição dos acampamentos beduínos e militares egípcios da Idade do Bronze Tardia (época do Êxodo) mostra paralelos com a estrutura concêntrica do acampamento israelita, mas a teologia de "contágio de santidade e impureza" de Israel era única.
Os Altares de Chifres
O texto menciona aplicar sangue nas "pontas" (qarnot - chifres) do altar. Escavações arqueológicas em Tel Be'er Sheva e Tel Dan revelaram altares de pedra com projeções em forma de chifres nos quatro cantos. No antigo Oriente Próximo, o chifre era símbolo de poder, força e refúgio. Agarrar-se às pontas do altar era um ato de buscar asilo divino (1 Reis 1:50). Em Levítico 4, aplicar sangue nos chifres significa purificar o ponto de maior poder e santidade do altar. O altar de incenso, especificamente mencionado no v. 7, era menor, feito de ouro (ou revestido), e ficava dentro da Tenda, como confirmado pela descrição em Êxodo 30 e achados de pequenos altares de incenso em contextos cananeus e israelitas.
Paralelos no Antigo Oriente Próximo
Textos rituais hititas e ugaríticos (c. 1400-1200 a.C.) também prescrevem rituais de sangue e eliminação de impurezas. Os hititas tinham rituais onde um animal (ou pessoa) era enviado para fora da comunidade carregando a impureza (semelhante ao bode expiatório). Contudo, uma diferença crucial é a teologia do sangue: em muitos cultos pagãos, o sangue era alimento para os deuses (demoníaco). Em Levítico, o sangue é estritamente um detergente ritual e meio de expiação, jamais alimento para Yahweh, que não tem necessidades biológicas.
V - Questões Polêmicas e Discussões Teológicas
1. A Polêmica do Verbo Kipper (Expiação vs. Purificação)
Uma das discussões mais acaloradas na teologia do Antigo Testamento gira em torno do significado da palavra Chattat e do verbo Kipper.
Visão Tradicional (Propiciação): Teólogos conservadores argumentam que Kipper significa "cobrir" ou "aplacar". O sacrifício acalma a ira de Deus contra o pecado.
Visão de Jacob Milgrom (Purificação): O renomado estudioso judeu Jacob Milgrom revolucionou os estudos de Levítico argumentando que Chattat deve ser traduzida sempre como "Oferta de Purificação". Para ele, Kipper significa "esfregar" ou "limpar". A teologia é que o pecado humano libera uma "miasma" física/espiritual que adere ao santuário. Se essa poluição acumular, Deus (que é Santo e não coabita com o mal) é forçado a abandonar o santuário. O sangue, então, atua como um "detergente espiritual" para limpar o santuário, não para mudar a mente de Deus.
Síntese Teológica: A maioria dos teólogos evangélicos (como Hartley e Wenham) aceita a visão de Milgrom sobre a contaminação do santuário, mas insiste que a Propiciação também está presente. O santuário precisa ser limpo precisamente porque a Santidade de Deus reage com ira contra a impureza. Portanto, o sacrifício tanto purifica o lugar quanto propicia a Pessoa Divina.
2. A Eficácia do Sangue
Liberais teológicos frequentemente veem o sistema de sangue como uma relíquia mágica primitiva. Conservadores, contudo, defendem que o sangue tem valor sacramental instituído por Deus ("Eu vo-lo tenho dado sobre o altar para fazer expiação", Lv 17:11). Não é magia inerente ao fluido biológico, mas uma ordenança divina que aceita a vida (no sangue) em troca da vida do pecador.
VI - Doutrina Teológica (Sistemática) e Visões Denominacionais
Teologia Reformada (Calvinista)
A tradição reformada (Calvino, Matthew Henry) vê em Levítico 4 uma ilustração vivida da Depravação Total e da Expiação Penal Substitutiva. O fato de que até pecados "inadvertidos" exigem morte prova que a natureza humana é inerentemente culpada diante de Deus. A queima da vítima "fora do arraial" é tipologicamente crucial, apontando para Cristo suportando a maldição divina longe da presença favorável de Deus.
Teologia Católica Romana
A tradição católica enfatiza a distinção entre pecados mortais (mão levantada) e pecados veniais (inadvertidos/fraqueza), uma distinção com raízes em Levítico 4 vs. Números 15. Além disso, a visão do sacerdócio levítico é vista como o tipo do sacerdócio ministerial da Nova Aliança, e o sacrifício perpétuo aponta para o sacrifício da Missa, onde o sangue de Cristo purifica continuamente a Igreja.
Teologia Pentecostal e Carismática
Enfatiza o Poder do Sangue e a necessidade de santidade prática. A distinção entre pecado inadvertido e proposital é usada pastoralmente para alertar contra a apostasia e a necessidade de sensibilidade ao Espírito Santo. O "sangue nos chifres do altar" é frequentemente alegorizado como o poder da oração intercessória que deve ser santificada.
Teologia Luterana
Foca na dialética Lei e Evangelho. Levítico 4 é a Lei em sua forma mais pura e aterrorizante: mostra que o pecado é inevitável, a culpa é objetiva e o homem não pode se auto-justificar. Isso conduz o pecador ao desespero de si mesmo e à necessidade absoluta do Cordeiro de Deus (Evangelho).
VII - Análise Apologética
Um tema difícil que surge neste texto é a acusação neo-ateísta e secular de que o Deus do Antigo Testamento é um "açougueiro sanguinário" e que a religião bíblica é baseada em violência primitiva.
Defesa Racional e Filosófica:
A Pedagogia do Horror: A morte gráfica do animal não visa satisfazer uma "sede de sangue" divina, mas sim chocar o adorador com a realidade ontológica do pecado. O pecado é a antítese da vida; é a desconstrução da criação. O ritual visualiza o invisível: o pecado mata. Deus usa o rito para inculcar um profundo respeito pela vida e um horror ao pecado.
A Solução para a Violência (René Girard): O filósofo René Girard argumentou que as sociedades arcaicas lidavam com a violência interna através do mecanismo do "bode expiatório" (linchamento coletivo). Levítico, contudo, sublima e reordena isso. O sacrifício não é um ato de violência descontrolada, mas um ato litúrgico, controlado e divinamente sancionado que interrompe o ciclo de vingança humana, transferindo a retribuição para um substituto animal inocente.
Objetividade Moral: O homem moderno tenta lidar com a culpa através da terapia (subjetiva) ou negação. Levítico afirma que a culpa é objetiva. O sistema sacrificial oferece uma solução concreta para um problema real, satisfazendo a exigência moral de justiça. Sem expiação, a justiça universal não é satisfeita.
VIII - Análise de Seitas e Heresias
Gnosticismo e Marcionismo
Heresias antigas (ressurgentes na Nova Era) alegam que o Deus de Levítico (Demiurgo) é mau, obcecado por matéria e sangue, diferente do Deus Pai de Jesus.
Refutação: O Novo Testamento (Hebreus 9-10) não rejeita Levítico como "mau", mas como "sombra" que aponta para a realidade. O mesmo Deus que exige justiça em Levítico oferece a Si mesmo (o Filho) em Levítico. A matéria e o sangue não são maus; são o meio da redenção (Encarnação).
Movimento de Raízes Hebraicas (Extremistas)
Alguns grupos argumentam que os crentes gentios devem retornar à observância da Torá, incluindo o desejo de restaurar sacrifícios animais.
Refutação: Levítico 4 prescreve sacrifícios que "nunca podem tirar pecados" (Hb 10:11) de forma definitiva. Voltar às sombras após a vinda da Luz (Cristo) é considerado apostasia pelo livro de Hebreus. O sacrifício de Cristo é "uma vez por todas".
Teologia Liberal/Modernista
Tende a ver a "expiação de sangue" como uma metáfora bárbara que deve ser abandonada em favor apenas do "exemplo moral" de Jesus.
Refutação: Levítico 4:12 ensina que o pecado gera poluição real e perigosa. Remover o conceito de expiação de sangue destrói a base da justiça divina. Se Deus perdoa sem custo (sem sangue), Ele não é justo. Levítico sustenta a justiça de Deus.
IX - Paralelos Interdisciplinares: Direito, Sociologia e Ciências
Direito: Mens Rea e Responsabilidade Objetiva (Strict Liability)
No Direito Penal moderno, para haver crime grave, geralmente exige-se mens rea (intenção culpada). Contudo, Levítico 4 introduz o conceito de que a responsabilidade existe mesmo na ausência de intenção. Isso se assemelha ao conceito jurídico moderno de Responsabilidade Objetiva (Strict Liability), comum em leis ambientais ou de saúde pública. Se uma fábrica polui um rio acidentalmente, ela ainda é responsável pela limpeza. O pecado é uma "poluição ambiental espiritual"; o dano é feito independentemente da intenção do agente, e a reparação é exigida.
Sociologia: Coesão e Reintegração
Émile Durkheim postulou que rituais servem para a coesão social. O ritual da Chattat serve para reintegrar o ofensor à comunidade. A culpa não tratada é socialmente tóxica; gera segredos e isolamento. O rito público de confissão (mãos na cabeça do animal) permite que a culpa seja externalizada e a pessoa seja recebida de volta na comunhão social e divina sem o estigma do erro passado.
Biologia e Higiene Pública
A legislação levítica (incluindo o descarte de carcaças fora do arraial) demonstra uma sabedoria sanitária avançada. Queimar vísceras e remover restos animais para longe da área habitacional prevenia a putrefação, pragas e doenças em um acampamento de milhares de pessoas no deserto quente. O que era ritualmente impuro era, frequentemente, biologicamente perigoso.
X - Conexões Intertextuais e Tipologia Bíblica
A Falha do Sacerdote vs. A Perfeição de Cristo
Levítico 4 começa com uma premissa chocante: "Se o sacerdote ungido pecar...". O mediador humano é falho. Isso cria uma tensão teológica que percorre todo o AT.
Hebreus 7:26-27: Resolve essa tensão apresentando Jesus como o Sumo Sacerdote "santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores", que não precisa oferecer sacrifícios primeiramente por si mesmo.
O Mistério de "Fora do Arraial"
A instrução de queimar a oferta pelo pecado fora do acampamento (Lv 4:12) parecia apenas um detalhe de eliminação de resíduos até a exegese do Novo Testamento.
Hebreus 13:11-13: "Porque os corpos dos animais, cujo sangue é... trazido para o santuário, são queimados fora do arraial. Por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta."
Tipologia: Jesus foi crucificado fora dos muros de Jerusalém (o "arraial" teológico). Ele se tornou a Chattat suprema, o "lixo santo", o anátema, absorvendo a toxicidade do pecado do mundo para purificar o povo e abrir o caminho para o Santo dos Santos.
XI - Exposição Devocional e Aplicação Prática
1. A Responsabilidade Terrível da Liderança
O texto coloca o pecado do líder (Sacerdote) em primeiro lugar e exige o sacrifício mais caro. Líderes espirituais (pastores, pais, mestres) não pecam em um vácuo. Seus erros trazem "escândalo" e consequências para toda a comunidade sob seu cuidado. Isso nos chama a um padrão mais alto de temor e santidade. "A quem muito foi dado, muito será exigido" (Lc 12:48).
2. A Realidade dos Pecados Ocultos
O conceito de pecado por ignorância (bishegagah) nos humilha. Mostra que pecamos mais do que sabemos. Nossas "boas intenções" não nos inocentam diante da Santidade absoluta. Isso deve nos levar a orar como Davi: "Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos" (Salmo 19:12). Devemos viver em constante autoexame e dependência da graça, não da nossa própria percepção de bondade.
3. O Custo da Restauração
Ver o novilho ser morto e queimado lembrava ao israelita que o perdão não é barato. A graça é gratuita para nós, mas custou tudo para Deus. O "lugar limpo" fora do arraial aponta para o Calvário, onde o Filho de Deus se fez pecado por nós. A resposta adequada a Levítico 4 não é repulsa, mas adoração profunda Àquele que tomou nosso lugar fora do portão para que pudéssemos entrar na Casa do Pai.



