Leis a respeito dos escravos | Êxodo 21:1-11
- João Pavão
- 18 de nov. de 2025
- 14 min de leitura

I. Introdução e Contextualização: A Transição da Teofania para a Jurisprudência
A narrativa do livro de Êxodo atinge um clímax teológico e fenomenológico nos capítulos 19 e 20, com a descida de Yahweh sobre o Monte Sinai. A entrega do Decálogo (Êxodo 20:1-17) estabelece os princípios fundamentais, apodícticos e inegociáveis da relação entre Deus e Israel. Contudo, a vida de uma nação não se sustenta apenas sobre princípios abstratos ou mandamentos categóricos; ela exige a aplicação concreta da justiça nas complexidades do cotidiano. É neste ponto que a perícope de Êxodo 21:1-11 se insere, inaugurando o que os eruditos bíblicos denominam "O Livro da Aliança" (Êxodo 20:22 – 23:33), ratificado posteriormente no capítulo 24.
Esta seção marca uma transição literária e teológica crucial: movemos-nos da teofania aterrorizante, com trovões e relâmpagos que fizeram o povo tremer e pedir mediação (Êxodo 20:18-21), para a jurisprudência civil e social. Deus, tendo estabelecido Sua santidade transcendente, agora desce às minúcias das relações trabalhistas e familiares. É profundamente significativo que a primeira legislação tratada após as regulamentações do altar (Êxodo 20:22-26) refira-se ao tratamento de servos e escravos. Na arquitetura literária da Torá, essa prioridade sinaliza que a ética social e o tratamento do ser humano vulnerável não são periféricos à adoração, mas centrais à identidade do povo da aliança. Um povo recém-liberto da casa da servidão egípcia é imediatamente confrontado com a proibição de replicar a tirania de Faraó em suas próprias estruturas domésticas.
O contexto imediato é o da mediação de Moisés. O povo, incapaz de suportar a voz direta de Deus, delega a Moisés a recepção das leis específicas. Assim, estas leis, chamadas mishpatim (juízos ou ordenanças), são a resposta divina à necessidade de ordem social dentro de uma teocracia nascente. Diferentemente do Decálogo, que foi ouvido por toda a congregação, estas leis foram entregues a Moisés para serem "propostas" (v. 1) diante do povo, indicando um corpo de legislação que deveria ser administrado pelos juízes e anciãos da comunidade. O objetivo não é a salvação da alma — a redenção já ocorrera na Páscoa e na travessia do Mar Vermelho — mas a santificação da sociedade. A lei funciona aqui, na linguagem da teologia reformada, em seu "terceiro uso": como guia de gratidão e conduta para os redimidos.
II. Estrutura Literária e Análise Narrativa
A composição literária de Êxodo 21:1-11 difere substancialmente do estilo do capítulo anterior. Enquanto o Decálogo utiliza a forma apodíctica ("Não farás", "Farás"), esta seção introduz a forma casuística, comum aos códigos legais do Antigo Oriente Próximo. A estrutura "Se... então" (protasis e apodosis) domina a narrativa, apresentando casos hipotéticos seguidos de vereditos divinos. Esta forma literária não visa cobrir todas as situações possíveis, mas estabelecer precedentes paradigmáticos que orientem os juízes de Israel na aplicação da justiça (equidade) divina.
A passagem organiza-se em uma estrutura lógica que aborda progressivamente as complexidades do status do servo, movendo-se do geral para o específico, e do masculino para o feminino. A análise estrutural revela um quiasmo temático centrado na dignidade e na liberdade:
Seção | Versículos | Categoria Jurídica | Condição Inicial (Protasis) | Resolução/Status (Apodosis) | Tema Teológico Subjacente |
|---|---|---|---|---|---|
A | 21:1-2 | Direito Geral | Aquisição de servo hebreu | Serviço limitado a 6 anos; alforria gratuita no 7º. | A temporalidade da servidão e a liberdade como graça. |
B | 21:3-4 | Direito de Família | Entrada solteiro vs. casado | Preservação do status quo ante; direitos do senhor sobre a prole gerada na casa. | Tensão entre liberdade individual e obrigações contratuais. |
C | 21:5-6 | Exceção Voluntária | Amor ao senhor e à família | Ritual da orelha furada; serviço perpétuo (leolam). | O serviço motivado pelo amor supera a liberdade autônoma. |
D | 21:7-11 | Direito da Mulher | Venda de filha (casamento/servidão) | Proteção contra saída comum; direitos conjugais inalienáveis. | A dignidade feminina e a proteção contra a mercantilização total. |
A narrativa legal é introduzida pela fórmula "Estes são os estatutos" (we'elleh hamishpatim). A conjunção waw ("e") conecta estas leis diretamente ao altar do final do capítulo 20, sugerindo que a justiça social é uma forma de liturgia. A progressão do texto é notável: começa com a libertação compulsória (v. 2), trata do dilema doloroso entre liberdade e família (vv. 3-4), oferece uma resolução através do compromisso vitalício (vv. 5-6) e, finalmente, aborda o caso mais vulnerável da sociedade patriarcal: a filha vendida por pobreza (vv. 7-11). A estrutura literária, portanto, não é meramente legalista, mas pastoral, buscando proteger os interesses das partes mais fracas (o servo, a mulher) dentro das realidades econômicas da época.
III. Análise Exegética e Hermenêutica Detalhada
A compreensão profunda deste texto exige uma análise minuciosa dos termos hebraicos, pois as traduções modernas, carregadas de anacronismos ocidentais, muitas vezes obscurecem o significado original e a intenção divina.
A. Os Estatutos e o Servo Hebreu (Versículos 1-2)
"Estes são os estatutos que lhes proporás. Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá forro, de graça."
O termo hebraico Mishpatim (מִּשְׁפָּטִים), plural de mishpat, deriva da raiz shaphat (julgar, governar). Refere-se a decisões legais baseadas em precedentes, costumes ou revelação divina direta que regulam a ordem civil. No contexto da aliança, os mishpatim revelam o caráter justo de Deus aplicado às disputas humanas.
A expressão Servo Hebreu ('ebed 'ivri - עֶבֶד עִבְרִי) é o fulcro da passagem. A palavra 'ebed vem da raiz 'abad, que significa trabalhar ou servir. Embora traduzida como "escravo" em muitas versões, o conceito bíblico difere radicalmente da escravidão colonial (baseada em raça e sequestro). Aqui, refere-se à servidão por dívida ou contrato de trabalho forçado devido à insolvência econômica. O adjetivo 'ivri (hebreu) é objeto de intenso debate acadêmico. Historicamente, alguns estudiosos associam-no aos Habiru ou Apiru, uma classe social de desenraizados, mercenários e marginais no Antigo Oriente Próximo. No entanto, no contexto canônico e da aliança, 'ivri funciona aqui como um designativo étnico e social para um membro da comunidade da aliança, um "irmão" (cf. Deuteronômio 15:12, Jeremias 34:9). O uso de 'ivri em vez de Yisraeli pode evocar a memória da própria condição de Israel como estrangeiros e servos no Egito, apelando para a empatia histórica.
A estipulação de seis anos de serviço com libertação no sétimo ano introduz o ciclo sabático na estrutura socioeconômica. Assim como a terra descansa e Deus descansou, o servo tem direito ao descanso e à restauração da liberdade. A expressão de graça (chinnam - חִנָּם) é teologicamente rica. Significa "sem pagamento", "gratuitamente" ou "por nada". O servo não compra sua liberdade; ela lhe é conferida como um direito inalienável outorgado por Deus. Isso prefigura a graça redentora: a liberdade não é uma conquista do esforço do escravo, mas um decreto do Soberano.
B. O Status Civil e a Família (Versículos 3-4)
"Se entrou só com o seu corpo, só com o seu corpo sairá; se ele era homem casado, sua mulher sairá com ele..."
A lei casuística aqui faz uma distinção crucial baseada na origem da família. A expressão "com o seu corpo" (begappo) é um hapax legomenon idiomático que significa "sozinho", "solteiro" ou "possuindo apenas a si mesmo". A lógica jurídica é a da restituição ao estado original (status quo ante). Se o servo já era casado ao entrar na servidão, a esposa não se torna propriedade do senhor; a unidade familiar pré-existente é inviolável. Contudo, o versículo 4 introduz uma tensão ética complexa: se o senhor lhe deu uma mulher (presumivelmente uma serva gentia ou outra hebreia) e ela gerou filhos, "a mulher e seus filhos serão de seu senhor". Isso reflete a realidade patriarcal e econômica onde a prole da serva pertencia à casa do senhor, que sustentou a família durante os anos de serviço. Embora pareça severo aos olhos modernos, protegia os direitos de propriedade do mestre que investiu recursos, mas criava um dilema existencial para o servo: a liberdade física versus a integridade familiar.
C. O Ritual da Orelha Furada: Amor e Permanência (Versículos 5-6)
"Mas se aquele servo expressamente disser: Eu amo a meu senhor, e a minha mulher, e a meus filhos; não quero sair forro..."
Este é um dos pontos altos da teologia do Antigo Testamento sobre o serviço. A motivação para a servidão perpétua não é a coerção, mas o amor ('ahab). A declaração "Eu amo meu senhor" transforma a natureza do serviço de obrigação legal para devoção voluntária.
O procedimento legal envolve levar o servo aos juízes ou a Deus (el-ha'elohim - אֶל־הָאֱלֹהִים). A tradução deste termo é controversa. O texto massorético usa Elohim.
Interpretação Tradicional (Targums/Peshitta): Refere-se aos juízes humanos (dayyanim) que agem como representantes de Deus na administração da justiça.
Interpretação Crítica/Histórica: Alguns sugerem uma referência aos "deuses domésticos" (terafim) ou ídolos do lar, uma prática comum no Oriente Próximo, mas teologicamente problemática no contexto do monoteísmo israelita estrito de Êxodo 20:3.
Interpretação do Santuário: Hamilton e outros argumentam que se refere ao santuário local ou ao tribunal sagrado, onde Deus ratifica o juramento. A Septuaginta traduz como "tribunal de Deus". A interpretação mais teologicamente coerente é que o ato é realizado diante da autoridade judicial constituída divinamente, sacralizando a decisão.
O ritual de furar a orelha (ratsa') com uma sovela contra a porta ou ombreira é carregado de simbolismo. A orelha é o órgão da audição e, no pensamento hebraico, da obediência ("Ouve, ó Israel"). Furar a orelha simboliza abrir permanentemente o canal de obediência às ordens daquela casa. A porta/ombreira representa a entrada e a proteção do lar, bem como o limite entre o mundo exterior e a segurança doméstica. Ao ter sua orelha "fixada" à porta, o servo torna-se parte integrante da estrutura da casa. O termo para sempre (leolam) indica um serviço vitalício, ou possivelmente até o Jubileu (Levítico 25), mas o sentido primário é de permanência indefinida.
D. A Filha Vendida e os Direitos da Mulher (Versículos 7-11)
"E se um homem vender sua filha para ser serva, ela não sairá como saem os servos."
Esta seção trata da amah (serva), uma jovem vendida pelo pai em extrema pobreza. Diferente do servo masculino, a venda dela pressupõe uma expectativa de casamento ou concubinato com o senhor ou seu filho. Por isso, "ela não sairá como saem os servos" (v. 7) — ou seja, ela não é simplesmente libertada para a indigência após seis anos, pois adquiriu status na família.
A lei estabelece proteções rigorosas para essa mulher vulnerável:
Resgate: Se ela "não agradar" ao senhor (não for consumado o casamento pleno), ele deve permitir que ela seja resgatada (hephdah). Ele perde o direito de vendê-la a estranhos, pois agiu com "deslealdade" (begado) ao quebrar a expectativa implícita de casamento.
Status de Filha: Se designada para o filho do senhor, deve ser tratada "conforme o direito das filhas" (v. 9), com toda a dignidade e proteção legal.
Os Três Direitos Inalienáveis (v. 10): Se o senhor tomar outra esposa, ele não pode diminuir três provisões da primeira:
O mantimento (She'er): Literalmente "carne" ou sustento físico.
As vestes (Kesut): Roupa, cobertura, dignidade social.
A obrigação conjugal ('Onah): Este termo é um hapax legomenon em termos legais e é debatido. Tradicionalmente interpretado como direitos sexuais/intimidade. Hamilton nota que, em línguas cognatas, pode se referir a "óleo/unguento", completando a tríade de necessidades básicas (comida, roupa, higiene/conforto). Contudo, a interpretação de "intimidade conjugal" e abrigo emocional permanece a mais forte na tradição judaica e cristã (cf. 1 Co 7:3), garantindo que a mulher não seja reduzida a uma serva doméstica ignorada afetivamente.
A cláusula final (v. 11) é revolucionária: se o senhor falhar em qualquer um destes três deveres, a mulher adquire liberdade imediata, sem pagamento. A violação dos direitos humanos anula a dívida financeira.
IV. Contexto Histórico-Cultural e Aspectos Arqueológicos
Para apreciar a singularidade da legislação mosaica, é imperativo compará-la com o ambiente jurídico do Antigo Oriente Próximo (AOP). As descobertas arqueológicas de códigos legais como o de Ur-Nammu (c. 2100 a.C.), Leis de Eshnunna (c. 2000 a.C.) e, o mais famoso, o Código de Hamurábi (c. 1750 a.C.), fornecem o pano de fundo cultural sobre o qual a Torá foi revelada.
Comparação com o Código de Hamurábi
No Código de Hamurábi (§117), a escravidão por dívida era limitada a três anos, sendo o escravo liberto no quarto ano. À primeira vista, a lei babilônica parece mais leniente (3 anos versus 6 anos em Êxodo). No entanto, uma análise mais profunda revela diferenças fundamentais de ethos:
Natureza da Propriedade: Na Babilônia, o escravo era frequentemente tratado como chattel (propriedade móvel). O credor podia abusar fisicamente do devedor. A lei de Moisés, embora estenda o tempo, muda a natureza ontológica da posse: o servo hebreu continua sendo um irmão e membro da aliança.
Fugas e Tratamento: O Código de Hamurábi punia severamente quem ajudasse um escravo fugitivo (pena de morte). A lei mosaica (em Deuteronômio 23:15) proíbe devolver o escravo fugitivo, uma inversão completa dos valores de propriedade do AOP.
Humanização da Instituição: Enquanto as leis cuneiformes focavam na proteção do capital do credor, a Torá foca na restauração da dignidade do devedor. A venda de filhas em tempos de fome era uma prática comum de sobrevivência (uma rede de segurança social arcaica), não meramente crueldade. Êxodo 21 regula isso para impedir que a filha se torne uma mercadoria sexual descartável, garantindo-lhe status de esposa.
O Ritual da Porta e Paralelos Arqueológicos
Tabletes de Nuzi e textos de Alalakh revelam práticas de adoção e servidão que lançam luz sobre o texto. Rituais de unção ou marcação eram conhecidos, mas a cerimônia específica da orelha na ombreira da porta parece ser uma adaptação israelita única. A porta, arqueologicamente, era o local de transição jurídica e sagrada. Em muitas casas israelitas da Idade do Ferro, a área da entrada poderia conter nichos cultuais, reforçando a interpretação de que o juramento era feito coram Deo (diante de Deus) na entrada do santuário doméstico ou público.
V. Questões Polêmicas e Controvérsias Teológicas
A presença de regulamentações sobre a escravidão na Bíblia é uma das pedras de tropeço mais frequentes para a apologética moderna.
A Bíblia Aprova a Escravidão?
Críticos contemporâneos, operando com uma hermenêutica anacrônica, equiparam a servidão de Êxodo 21 à escravidão transatlântica (colonial), baseada em raça, sequestro e desumanização total.
Distinção Conceitual: É vital distinguir sequestro (man-stealing), que Êxodo 21:16 pune com pena de morte, de servidão por contrato (indentured servitude) descrita em 21:2. A instituição bíblica era uma solução econômica para a falência em uma sociedade sem bancos ou previdência. O servo "vendia" sua força de trabalho, não sua essência humana.
Acomodação Divina: Teólogos como João Calvino e estudiosos modernos como Goldingay argumentam que Deus utilizou a pedagogia da acomodação. Deus regula uma instituição humana decaída para mitigar seus males, em vez de aboli-la instantaneamente em uma estrutura social que não poderia suportar tal vácuo econômico. A lei bíblica "humaniza" a instituição a ponto de plantar as sementes de sua própria destruição.
A Polêmica da Tradução de Elohim
A ambiguidade de Elohim no versículo 6 gera debates sobre a autoridade.
Visão Judaica Clássica (Rashi): Interpreta como "juízes", enfatizando a ordem civil.
Visão Crítica: Vê vestígios de politeísmo doméstico (terafim).
Resolução Teológica: A visão de Hamilton e Durham de que se refere ao "santuário" ou "tribunal de Deus" preserva a sacralidade do juramento sem cair em politeísmo. O contrato de servidão perpétua era grave demais para ser meramente civil; exigia a sanção divina.
VI. Doutrina Teológica (Sistemática)
A exposição de Êxodo 21 alimenta categorias vitais da Teologia Sistemática.
Antropologia Teológica e Hamartiologia
A legislação afirma a Imago Dei (Imagem de Deus) mesmo no indivíduo economicamente falido. A lei protege a integridade física do servo (se o senhor ferir o olho ou dente, o servo é liberto, vv. 26-27), estabelecendo que o corpo do servo não é propriedade absoluta do senhor. A existência da servidão é reconhecida como fruto da Queda e da pobreza (Hamartiologia), mas a lei limita seus efeitos desumanizantes.
Eclesiologia e Comunhão dos Santos
O conceito de 'ivri (irmão hebreu) aponta para a igualdade fundamental do povo de Deus. Levítico 25:42 expande este conceito: "Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como se vendem os escravos". A teologia sistemática deduz daqui que nenhum ser humano pode ter domínio absoluto sobre outro, pois a propriedade suprema pertence a Deus. Na Eclesiologia, isso prefigura o sacerdócio universal, onde as distinções sociais são secundárias à identidade em Cristo (Gálatas 3:28).
VII. Análise Apologética
A defesa da fé cristã utiliza este texto para desconstruir a acusação de que o Deus do AT é um "monstro moral".
Ética Superior: Comparado aos códigos hititas ou assírios, onde a punição e o tratamento de escravos eram brutais (mutilações frequentes), a Torá é extraordinariamente humanitária. A serva (vv. 7-11) tem garantidos direitos conjugais e materiais; se o senhor falhar, ela não é revendida, mas liberta. Isso conferia poder legal a uma mulher em uma sociedade patriarcal, algo inédito no AOP.
A Ilegalidade da Escravidão Moderna: A apologética aponta que a escravidão moderna baseada no tráfico negreiro seria punida com a morte segundo Êxodo 21:16 ("Aquele que furtar algum homem... morrerá"). Portanto, usar a Bíblia para justificar a escravidão colonial foi uma exegese herética e desonesta.
Pedagogia Progressiva: Deus encontra o povo na dureza de seus corações e inicia um processo de reeducação moral. A tolerância regulada da servidão não é aprovação ideal, mas contenção do mal em um mundo caído.
VIII. Análise de Seitas e Heresias
Diversos grupos distorceram historicamente ou teologicamente estes textos.
Identidade Cristã e Supremacia Branca
Movimentos heréticos racistas (como a "Identidade Cristã") utilizam a distinção entre o servo hebreu e o estrangeiro para justificar teologicamente a segregação e a supremacia branca.
Refutação: O texto trata de status legal e aliança religiosa, não de raça biológica. A lei mosaica repetidamente ordena amor ao estrangeiro ("pois fostes estrangeiros no Egito"). A distinção em Êxodo 21 visa proteger a terra da herança tribal, não estabelecer hierarquia racial ontológica.
Testemunhas de Jeová (Cristologia)
As TJs frequentemente utilizam a linguagem de "servo" para diminuir a divindade de Cristo, vendo-o como um ser criado exaltado.
Refutação: A tipologia do Servo em Êxodo 21 (ver seção X) aponta para a kénosis (esvaziamento) de Cristo em Filipenses 2. Jesus toma a forma de servo, mas sua natureza é divina. Sua servidão é uma escolha funcional de amor, não uma necessidade ontológica de criação.
Espiritismo e Religiões Afro-Brasileiras (Paralelo Contrastante)
Em religiões que envolvem incorporação ou dedicação a orixás ("feitura de santo"), há rituais de iniciação e submissão.
Contraste: O ritual da orelha furada em Êxodo é uma decisão consciente, racional e voluntária, baseada no amor observável ('ahab). Não envolve transe, perda de consciência ou possessão. O Deus bíblico valoriza a volição humana e o amor pactuado, distinguindo-se de sistemas que buscam a anulação da personalidade ou controle espiritual mecânico.
IX. Paralelos com Ciências Humanas e Direito
A análise comparada com o Direito e a Sociologia enriquece a compreensão da aplicabilidade do texto.
Conceito em Êxodo 21 | Equivalente Moderno / Teoria Social | Explicação |
|---|---|---|
Libertação no 7º Ano | Lei de Falências (Cap. 7/11) | Permite o "fresh start" (recomeço) financeiro. A dívida não pode condenar o indivíduo à pobreza perpétua. |
Obrigações do Senhor (v.10) | Direito Trabalhista / Contratos | O empregador tem deveres de provisão e dignidade. A quebra dessas cláusulas anula o contrato de trabalho. |
Proteção da Família (v.3) | Sociologia da Família | Reconhecimento da família nuclear como unidade social indivisível, prioritária sobre interesses econômicos (salvo exceção do v.4). |
Servidão Voluntária | Contratos de Longa Duração | Fidelidade corporativa baseada em benefícios mútuos e lealdade (embora a forma antiga fosse totalitária). |
Estes paralelos demonstram que os princípios de justiça social, proteção contra a exploração laboral e a possibilidade de recuperação econômica são fundamentais na mente divina.
X. Conexões Intertextuais Bíblicas e Tipologia Teológica
A profundidade de Êxodo 21 transcende a letra da lei, projetando sombras proféticas que encontram cumprimento no Novo Testamento.
O Jubileu e a Redenção (Levítico 25 / Jeremias 34)
A legislação é expandida em Levítico 25, com o Ano do Jubileu, onde a liberdade é proclamada a toda a terra. Jeremias 34 narra a trágica violação desta lei: os nobres de Judá libertaram seus servos hebreus, mas depois se arrependeram e os subjugaram novamente. Deus declara, então, uma "liberdade" irônica para eles: liberdade para a espada, a peste e a fome. A violação da lei social de Êxodo 21 foi uma das causas diretas do Exílio Babilônico.
Cristologia do Servo Sofredor
A figura do servo que ama seu senhor e se recusa a sair livre é a mais bela tipologia cristológica desta passagem.
Salmo 40 e Hebreus 10: O Salmo 40:6 diz: "Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos furaste..." (ou "corpo me preparaste" na LXX/Hebreus). O salmista aplica a linguagem de Êxodo 21 a uma dedicação total a Deus. Cristo é o Servo perfeito que diz: "Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade".
O Amor do Servo (Filipenses 2): Assim como o servo de Êxodo 21:5 declara: "Eu amo a meu senhor, a minha mulher e a meus filhos; não quero sair livre", Jesus, podendo reivindicar sua liberdade divina e chamar legiões de anjos, escolheu a cruz por amor ao Pai (Senhor) e à Igreja (sua esposa e filhos).
A Marca da Porta: O servo era marcado na madeira da porta. Cristo foi marcado no madeiro da cruz, tornando-se o Servo Sofredor que carrega as marcas de sua obediência e amor eterno em seu próprio corpo (mãos e pés furados).
XI. Exposição Devocional e Aplicação Prática
A aplicação de Êxodo 21 para a vida contemporânea, embora não literal (não temos escravos), é principiológica e espiritual.
A Liberdade da Graça: O texto enfatiza que a liberdade vem "de graça" (chinnam) no tempo determinado por Deus. Isso nos lembra que nossa salvação do pecado não é fruto de nosso acúmulo de capital espiritual, mas da graça soberana de Deus que cancela a dívida.
A Escravidão do Amor: A mais alta liberdade cristã não é a autonomia ("fazer o que eu quero"), mas a doulia (servidão) voluntária a Cristo. O apóstolo Paulo se gloriava no título doulos Christou (escravo de Cristo). O cristão maduro é aquele que, tendo sido liberto do pecado, vai voluntariamente ao "poste da porta" (a Cruz) e diz: "Eu amo meu Mestre; não quero viver independente dEle". O amor torna o jugo suave e o fardo leve.
Ética nos Negócios e Trabalho: O texto desafia empregadores cristãos. Se a lei antiga protegia o alimento, a roupa e a dignidade emocional de um escravo, quanto mais devemos tratar funcionários com justiça, salários dignos e respeito humano? A falha em prover dignidade anula nossa autoridade moral e espiritual. O Deus de Êxodo continua ouvindo o clamor dos oprimidos no ambiente de trabalho moderno.
Em suma, Êxodo 21:1-11 não é um relicário de leis bárbaras, mas um monumento à inserção da graça divina nas estruturas duras da economia humana, apontando, em última análise, para Aquele que se fez servo para nos tornar filhos.



