Ciclo final de Abraão | Gênesis 25:1–11
- João Pavão
- 4 de set. de 2025
- 13 min de leitura

Os versículos de Gênesis 25:1–11 concluem o ciclo de Abraão, fornecendo detalhes finais de sua vida e preparando a transição para as histórias de Ismael e Isaque. Após o casamento de Isaque com Rebeca (Gn 24), o narrador registra um “segundo casamento” de Abraão, bem como sua morte e sepultamento, encerrando assim a toledot (“história/descendência”) de Terá, pai de Abraão. Essa seção funciona literariamente como um epílogo da narrativa de Abraão e simultaneamente uma ponte para as genealogias de Ismael (Gn 25:12-18) e para a história de Isaque (Gn 25:19ss).
Gênesis 25:1 informa que “Abraão tomou outra mulher, cujo nome era Quetura”. Há debate se Abraão se casou com Quetura depois da morte de Sara ou se esse casamento ocorreu anteriormente de forma não narrada (isto é, de modo anacrônico). Alguns intérpretes (como Bruce Waltke) argumentam que o texto é anacrônico – ou seja, relata aqui, no fim da vida de Abraão, algo que pode ter ocorrido antes – visto que Abraão já considerara seu corpo “amortecido” para a paternidade aos 100 anos (cf. Gn 17:17). Seria biologicamente improvável gerar seis filhos aos 140 anos ou mais; se assim fosse, esses filhos “seriam ainda mais sobrenaturais do que Isaque, o que é teologicamente improvável”. Além disso, Quetura é chamada “esposa” em Gn 25:1, mas também “concubina” em Gn 25:6 e 1Crônicas 1:32. Essa dualidade sugere que, se Quetura fosse realmente tomada antes da morte de Sara, Abraão teria praticado poligamia simultânea – algo possível na cultura da época, porém pouco coerente com o amor singular que Abraão demonstrava por Sara. Assim, a posição mais tradicional é que Abraão casou-se com Quetura após o falecimento de Sara, quando ele estava em avançada idade mas ainda vigoroso por graça de Deus. De fato, “a Bíblia não proíbe casar-se na viuvez nem mesmo em idade avançada”, e o mesmo Deus que milagrosamente permitiu o nascimento de Isaque restaurou as forças de Abraão para gerar filhos em sua velhice. Alguns comentaristas propõem que esse novo casamento serviu em parte para cumprir a promessa divina de Gênesis 17:4 – “serás pai de muitas nações” – por meio da multiplicação da descendência de Abraão além de Isaque e Ismael. Em todo caso, embora a poligamia fosse socialmente aceita e até praticada por homens de fé no Antigo Testamento (Abraão teve concubinas; Jacó teve duas esposas e concubinas; Davi e outros reis tiveram várias esposas), não era o ideal original de Deus (cf. Gn 2:24). A Lei mosaica mais tarde tolerou e regulamentou a prática – por exemplo, exigindo que um homem não privasse a primeira esposa de seus direitos caso tomasse outra (Êx 21:10) – mas a poligamia frequentemente gerou conflitos familiares entre esposas e filhos (cf. o ciúme entre Leia e Raquel; a rivalidade entre os filhos de Jacó; as contendas na casa de Davi). A revelação bíblica vai restringindo esse costume, e Jesus reafirmou o ideal monogâmico da criação (Mt 19:4–9), de modo que no Novo Testamento exige-se, por exemplo, que líderes da igreja sejam “marido de uma só mulher” (1Tm 3:2). Assim, ao tomar Quetura após a morte de Sara, Abraão não violou nenhum mandamento, e o narrador não o retrata negativamente; pelo contrário, vê-se nesse episódio final o cumprimento da bênção divina de uma grande descendência, sem comprometer a primazia de Isaque como filho da promessa.
Os filhos de Abraão com Quetura
Quetura, cujo nome possivelmente significa “perfume” ou “incenso”, deu a Abraão seis filhos: Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Isbaque e Suá (v.2). A lista continua nomeando netos e bisnetos de Abraão: Jocsã gerou Seba e Dedã; e Dedã gerou Assurim, Letusim e Leumim (v.3). Midiã, por sua vez, gerou Efá, Efer, Enoque, Abida e Elda (v.4). No total, são 16 descendentes listados (filhos, netos e bisnetos), organizados em forma de genealogia segmentada. A própria menção de Quetura no início e no fim (v.1, “Quetura... deu-lhe filhos”; v.4, “todos estes foram filhos de Quetura”) forma uma inclusão, delimitando a genealogia. Essas listagens não são meros detalhes burocráticos, mas carregam significado teológico e histórico: mostram Abraão plenamente abençoado com uma numerosa descendência natural, embora o narrador ressalte que apenas a descendência sobrenatural (Isaque) é herdeira da promessa.
Do ponto de vista histórico-cultural, muitos desses nomes correspondem a tribos e povos conhecidos posteriormente na região árabe ao leste e sul de Canaã. Por exemplo, Quetura possivelmente recebeu esse nome alusivo ao comércio de incenso, atividade vinculada a seus descendentes. De fato, Seba e Dedã – neto e bisnetos de Abraão – são povos bem atestados no sul da Arábia, famosos pelo comércio de especiarias e incenso. Zinrã pode ter dado nome a um local a oeste de Meca. Medã e Midiã tornaram-se clãs do deserto árabe mencionados posteriormente: no relato de José, mercadores medanitas e midianitas participam do comércio para o Egito (Gn 37:28,36); e os midianitas aparecem bastante na história de Israel – Moisés casou-se com Zípora, filha de um sacerdote midianita, e seu cunhado Hobabe guiou Israel pelo deserto do Sinai (Êx 2:15-21; Nm 10:29-32). A menção de povos árabes importantes sugere que, conforme prometido, Abraão se tornou pai de muitas nações. Note-se ainda que a forma incomum de três nomes em Gn 25:3 (“assuritas, letusitas e leumitas”, gentílicos no plural) intrigou os estudiosos. Uma interpretação é que talvez não fossem nomes pessoais, mas designações tribais ou profissionais – camponeses, ferreiros, nômades – indicando grupos surgidos de Dedã. Entretanto, como genealogias bíblicas às vezes usam gentílicos como nomes próprios (cf. os filisteus em Gn 10:14), a passagem provavelmente os apresenta mesmo como nomes de clãs. Em todo caso, a maioria dos descendentes de Quetura pode ser localizada na Arábia. Curiosamente, a palavra “árabe” em si não aparece no texto – um termo que só surgiria em fontes antigas por volta do século IX a.C. – e não há qualquer alusão a futuras inimizades entre esses povos e Israel (por exemplo, Midiã posteriormente se tornaria um feroz inimigo de Israel, mas nada disso é mencionado aqui). Esses detalhes sugerem a antiguidade e autenticidade da tradição: dificilmente um escriba tardio, escrevendo numa época de hostilidade entre Israel e midianitas, “inventaria” um parentesco entre Abraão e Midiã sem base factual. A presença desses nomes em registros antigos extra-bíblicos reforça a confiabilidade histórica do relato. (De fato, pesquisas arqueológicas e linguísticas identificam vários desses nomes tribais em inscrições cuneiformes e egípcias da Antiguidade, confirmando que o texto de Gênesis preserva memórias genuinamente antigas.)
Isaque, o único herdeiro
Embora Abraão tenha tido outros filhos, o texto sublinha que Isaque permanece o único filho da aliança. O versículo 5 declara: “Abraão deu tudo o que possuía a Isaque”. Isso cumpre o que já fora antecipado em Gn 24:36, quando o servo de Abraão afirmou que seu senhor havia entregue todos os bens ao filho de Sara. Já os outros descendentes – “os filhos das concubinas” (v.6) – receberam de Abraão apenas presentes e foram enviados para longe, “para a terra do Oriente”, ainda em vida do patriarca. Essa distinção legal visava prevenir futuros conflitos de herança, garantindo que Isaque, o filho da promessa, fosse o único sucessor tanto das bênçãos espirituais quanto do patrimônio de Abraão.
O termo “concubinas” no plural (v.6) refere-se às esposas de status secundário de Abraão – aqui abrangendo Quetura e também, provavelmente, Hagar. Hagar não foi formalmente chamada “concubina” nos capítulos anteriores (ela é dita “serva” ou “escrava” de Sara em Gn 16:1-3; 21:10), mas seu filho Ismael não tinha os direitos do filho legítimo de Sara, semelhantemente aos filhos de Quetura. A designação de Quetura como concubina em 1Cr 1:32 indica que, embora fosse esposa no sentido comum, seu status legal na sucessão familiar era inferior ao de Sara. Assim, os filhos de Quetura e Hagar não podiam reivindicar a primogenitura nem a herança principal. A ação de Abraão de deserdar esses filhos, provendo-lhes presentes e afastando-os de Isaque, encontra paralelo em costumes do antigo Oriente Próximo. Por exemplo, o Código de Hamurábi (leis mesopotâmicas do século XVIII a.C.) determinava que os filhos de uma escrava não participassem da herança junto com o filho da esposa principal, caso este existisse. Uma das cláusulas diz que, se o patriarca não tiver formalmente reconhecido os filhos de uma serva como herdeiros antes de falecer, eles “não poderão reivindicar parte dos bens, juntamente com o filho da esposa”. Abraão parece seguir um princípio semelhante: ao dotar seus outros filhos com presentes e enviá-los “para o leste” (longe de Canaã) enquanto ainda vivia, ele evita disputas e reafirma Isaque como herdeiro exclusivo tanto dos bens materiais quanto da promessa divina. Essa decisão sábia de Abraão impediu que suas outras linhagens interferissem no plano de Deus por meio de Isaque.
A menção de que Abraão os enviou “para a terra do Oriente” (heb. ’erets-qedem) provavelmente designa de forma geral as regiões a leste de Canaã – possivelmente o deserto sírio-arábico, até áreas da Arábia Setentrional. Assim, ismaelitas e queturaítas se estabeleceriam em terras orientais (de fato, Ismael habitaria ao leste do Egito, cf. Gn 25:18), enquanto Isaque permaneceria em Canaã, a terra prometida. Essa separação geográfica ressalta que somente Isaque continuou no centro do cumprimento das promessas abraâmicas, enquanto os demais filhos deram origem a outros povos fora da Terra da Promessa. Em suma, a providência de Deus e a escolha soberana estão em foco: Ele abençoa grandemente Abraão com muitos filhos (mostrando Sua generosidade para com várias nações), mas os eleitos para portar o pacto são apenas aqueles descendentes milagrosos conforme Sua promessa (Isaque, e depois Jacó). Como nota um comentarista, há aqui uma tensão notável “entre a eleição de Deus de seu povo medianeiro, através de quem Ele abençoará a terra, e Sua generosidade que abarca todos os povos”. Abraão de fato tornou-se pai tanto de nações que herdariam a Terra Prometida (Israel, via Isaque) quanto de outras nações numerosas (via Ismael e Quetura). Contudo, somente a linhagem de Isaque herdaria a bênção do pacto – a prosperidade e, principalmente, a Terra Prometida associadas à aliança abraâmica. Os filhos das concubinas são definitivamente separados, “despachados permanentemente da Terra Prometida”.
A longevidade e morte de Abraão
O texto prossegue com o obituário de Abraão. Ele viveu 175 anos (v.7), “em boa velhice” e “farto de dias” (v.8). Esses 175 anos significam que Abraão viveu exatamente um século na terra de Canaã – ele chegou com 75 anos (Gn 12:4) e morreu aos 175. Isaque, seu filho, tinha cerca de 75 anos no falecimento do pai (pois nascera quando Abraão tinha 100), e Esaú e Jacó, netos de Abraão, já tinham aproximadamente 15 anos de idade na ocasião. Em outras palavras, Abraão viveu o bastante para conhecer seus netos (embora, curiosamente, o narrador só relate o nascimento de Esaú e Jacó após narrar a morte de Abraão, em Gn 25:19-26, numa pequena inversão cronológica). A expressão “boa velhice” cumpre exatamente a promessa de Deus em Gênesis 15:15 – “tu, Abraão, irás em paz para teus pais; serás sepultado em boa velhice”. Morreu, portanto, no tempo devido e abençoado pelo Senhor.
O versículo 8 descreve a morte de Abraão com três verbos em sequência enfática: “expirou, morreu e foi reunido ao seu povo”. Essa formulação solene – especialmente a adição de “deu o último suspiro (expirou)” – intensifica a dignidade do relato da morte do patriarca, aparecendo de forma semelhante nos falecimentos de Ismael (Gn 25:17), Isaque (35:29) e Jacó (49:33). A frase “idoso e cheio de dias” (algumas traduções: “farto de dias”) indica não apenas uma vida longa em quantidade de anos, mas uma vida plena em qualidade. Nos manuscritos hebraicos, há uma pequena variação: a maioria diz apenas “cheio (farto)”, enquanto algumas testemunhas acrescentam “de dias/anos”. De toda forma, a ideia é que Abraão morreu em plenitude, satisfeito com a vida – tendo experimentado abundantes bênçãos e o cumprimento das promessas divinas em grande medida. Ele pôde, por exemplo, ver seu filho da promessa crescer e casar, garantiu a continuidade da aliança e deixou todos os assuntos em ordem, partindo em paz. A sabedoria bíblica diz que “coroa de glória são as cãs (cabelos brancos), quando se acham no caminho da justiça” (Pv 16:31), e Abraão é um exemplo disso. Apesar de todos os percalços, encerrou seus dias “farto” – uma expressão que os antigos entendiam como morrer satisfeito, tendo cumprido seu propósito. Diferente da imagem moderna que às vezes associa velhice apenas a fraqueza, o comentarista Hansjörg Bräumer salienta que aqui “avançado em anos” não retrata um ancião decrepito de olhos opacos e mãos trêmulas, mas alguém maduro e realizado, que completou sua missão de vida. Abraão, assim, “expirou depois de completar sua vida e cumprir todos os propósitos de Deus” – uma bela epitáfia para o “amigo de Deus”.
Um detalhe teológico importante é a expressão “foi reunido ao seu povo” (v.8b). Notemos que esse “reunir-se ao seu povo” ocorreu depois da morte e antes do sepultamento narrado no verso seguinte. Portanto, não se refere simplesmente ao corpo de Abraão ser posto junto a outros corpos no túmulo, até porque Abraão foi sepultado apenas com Sara na caverna de Macpela – ele não se juntou fisicamente aos seus ancestrais, pois estes haviam ficado na Mesopotâmia. A mesma expressão é usada nas mortes de Moisés e Arão, que também não foram enterrados junto a familiares (Nm 20:24-26; Dt 32:50). Isso sugere que a frase carrega o sentido de pós-vida: um encontro da alma de Abraão com os que já partiram. O renomado exegeta judaico Nahum Sarna argumenta que essa fórmula idiomática “testifica a crença de que, a despeito de sua mortalidade física, o ser humano possui um elemento imortal que sobrevive à morte”. Ser reunido a seu povo significa que Abraão, ao morrer, entrou numa existência junto dos seus antepassados no além. Warren Wiersbe comenta de forma semelhante que essa expressão indica ir para onde estão os que já faleceram, referindo-se ao destino do espírito e não do corpo. Deus já havia dado a Abraão a promessa: “e tu irás em paz para teus pais...” (Gn 15:15), o que implica um reencontro com os antepassados em algum lugar de paz após a morte. Portanto, “ser reunido ao seu povo” é mais que uma metáfora poética para morrer – é uma sutil declaração da esperança de imortalidade e comunhão dos justos além-túmulo dentro da fé bíblica primitiva. Os patriarcas já nutriam essa esperança, ainda que sem as revelações claras posteriores. Prova disso é que, muito mais tarde, Jesus argumentaria com os saduceus (que negavam a ressurreição) exatamente a partir dos patriarcas: Deus se revelou como “o Deus de Abraão, Isaque e Jacó” – “Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos” (Mt 22:31-32) – implicando que Abraão ainda vivia perante Ele. Além disso, no Novo Testamento, o lugar de descanso dos salvos é chamado de “seio de Abraão” (Lc 16:22), expressão que faz eco a essa ideia de Abraão recepcionar em seu “povo” aqueles que morrem na fé. Bräumer poeticamente afirma que “o além é o verdadeiro lar do ser humano, e o lado de cá (esta vida) é a difícil peregrinação estrangeira; ao morrer, o espírito volta para encontrar morada no convívio dos seus, que o aguardam”. Essa visão coaduna com Eclesiastes 12:7 – “o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. Em resumo, o obituário de Abraão indica não apenas o fim digno de sua jornada terrena, mas insinua uma continuidade de comunhão com seu povo no mundo vindouro.
Sepultamento: Abraão é enterrado por Isaque e Ismael
Demonstrando respeito e alguma cooperação familiar, Isaque e Ismael, os dois filhos mais velhos de Abraão, unem-se para realizar seu sepultamento. Eles depositaram o corpo do pai na caverna de Macpela, no campo que Abraão havia comprado dos hititas décadas antes, para sepultar Sara (cf. Gn 23). Assim, Abraão foi enterrado ao lado de sua amada esposa, na única porção de terra de Canaã que ele chegou a possuir em vida – uma compra feita em fé, crendo na promessa de que aquela terra pertenceria à sua descendência. A menção dos filhos juntos é significativa. Isaque é nomeado primeiro, não por ser o mais velho (Ismael era 14 anos mais velho), mas por ser o filho da promessa e herdeiro do pacto – ou seja, a primazia teológica de Isaque supera a primogenitura biológica de Ismael. Ainda assim, o fato de Ismael ter vindo da região onde vivia (ele já havia se estabelecido no deserto de Parã, Gn 21:21) para juntar-se a Isaque no funeral sugere que, apesar de ter sido enviado embora anos antes, ele ainda honrava seu pai. Esse momento lembra o futuro reencontro de Esaú e Jacó para enterrarem Isaque (Gn 35:29) – irmãos separados por conflitos que se reúnem brevemente em homenagem ao pai. A morte do patriarca, assim, promove uma espécie de trégua familiar e reconhecimento dos laços de sangue. Somente os filhos associados a Sara (isto é, o filho dela, Isaque, e o filho da sua criada, Ismael) participam do sepultamento – os filhos de Quetura aparentemente não estiveram presentes, possivelmente por estarem longe no Oriente ou por não terem o mesmo grau de direito/obrigação nessa cerimônia.
A caverna de Macpela, localizada nos arredores de Hebrom, torna-se assim o túmulo tanto de Abraão quanto de Sara (e mais tarde seria também de Isaque, Rebeca, Jacó e Lia, cf. Gn 49:29-32; 50:13). Esse local tinha grande importância para os descendentes de Abraão: era um símbolo concreto da esperança na posse futura da terra. Abraão investiu nessa propriedade por confiar que Canaã era seu destino permanente dado por Deus. Até hoje, Macpela é reverenciada – trata-se do atual sítio do “Túmulo dos Patriarcas”, sobre o qual foi erigido um antigo edifício monumental. Os judeus, particularmente, honram-no há milênios como um dos lugares mais sagrados da Terra Santa: “Depois do Muro Ocidental em Jerusalém, [Macpela] tem permanecido através da história como o mais sagrado dos monumentos do povo hebreu”. Cristãos também reconhecem seu valor histórico, embora para a fé cristã a atenção se volte mais para a esperança da ressurreição do que para sepulcros terrenos. De toda forma, o enterro de Abraão em Macpela marca o fim de uma era – o patriarca repousa na terra prometida, atestando em morte a mesma fé que guiou sua vida. Como afirmou certa vez um comentarista, os crentes do Antigo Testamento podiam não ver em vida o cumprimento total das promessas, mas ao serem sepultados em Canaã manifestavam profeticamente sua confiança de que pertenciam àquela terra pelo pacto divino. Abraão morreu “em paz”, sabendo que Deus cumpriria no tempo devido aquilo que começara nele.
Continuidade da bênção: Deus abençoa Isaque
Após registrar a morte e sepultura de Abraão, o narrador faz questão de acrescentar que “depois da morte de Abraão, Deus abençoou a Isaque, seu filho” (v.11a). Essa breve declaração indica que as bênçãos do Senhor sobre o patriarca agora passam adiante à próxima geração – não cessaram com Abraão, mas continuam eficazes na linhagem da promessa. Assim, Gn 25:11 funciona como um fecho para a história de Abraão e, ao mesmo tempo, como uma transição para a história de Isaque. Deus permanece fiel às Suas promessas: Ele havia jurado ser o Deus da descendência de Abraão, e aqui O vemos confirmando Isaque como o novo portador da aliança abraâmica. A expressão “Deus abençoou Isaque” ecoa a própria temática de Gênesis (bênção divina sobre a linhagem eleita) e prepara o leitor para seguir a trajetória desse filho da promessa. Aliás, o autor de Gênesis sinaliza literariamente que a toledot seguinte será a de Isaque (Gn 25:19: “estas são as gerações de Isaque...”), indicando que a história da redenção prossegue agora através dele. O verso 11 conclui informando que Isaque habitou junto ao “poço de Beer-Laai-Roi”. Este é um detalhe significativo: Beer-Laai-Roi, que significa “poço do Vivente que me vê”, era o lugar onde Hagar, a mãe de Ismael, tivera um encontro com o Anjo do Senhor e recebeu a promessa sobre seu filho (Gn 16:14). Isaque estabelecer-se justamente ali sugere que ele assume o lugar de seu meio-irmão ausente. Há uma sutil mensagem de continuidade e substituição: o local antes associado ao cuidado de Deus para com Ismael agora torna-se residência de Isaque, indicando que Isaque é o herdeiro legítimo de Abraão tanto espiritualmente (portador da bênção) quanto geograficamente (ocupando os espaços da Terra Prometida). Podemos dizer que Isaque “ocupa” a herança, enquanto Ismael se deslocou para fora. Esse assentamento de Isaque em Beer-Laai-Roi também antecipa, por justaposição, o relato seguinte sobre a descendência de Ismael (Gn 25:12-18) – ou seja, antes de voltar a atenção plenamente para Isaque e seus filhos (Esaú e Jacó), Gênesis fecha a história de Ismael listando seus doze príncipes, mas já deixa claro que Isaque está estabelecido e abençoado na terra.



