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Arrependimento fingido | Oséias 6:1-7:16


O livro do profeta Oséias representa um dos marcos mais profundos da literatura profética do Antigo Testamento, sendo frequentemente designado como o "profeta do coração partido" ou o "profeta da graça". Situado no turbulento século VIII a.C., sua mensagem é um registro pungente do amor divino confrontando a perfídia e a instabilidade espiritual do Reino do Norte, Israel. O recorte textual de Oséias 6:1 a 7:16 constitui um bloco de transição crítica, onde o chamado ao arrependimento é obscurecido por uma liturgia de conveniência e uma corrupção sistêmica que permeia desde o santuário até o palácio real.  


I - Introdução e Contextualização


A profecia de Oséias emerge em um período de agudos contrastes históricos. Durante o reinado de Jeroboão II (793–753 a.C.), Israel experimentou uma era de ouro em termos de expansão territorial e prosperidade econômica, equiparada apenas ao período de Salomão. Contudo, essa opulência material serviu de camuflagem para uma decadência espiritual sem precedentes, caracterizada pelo sincretismo religioso e pela opressão social. Com a morte de Jeroboão II, a nação mergulhou em uma espiral de anarquia, assassinatos políticos e vulnerabilidade internacional perante a ascensão da Assíria sob Tiglate-Pileser III.  


O profeta, cujo nome Hôšēa‘ (Transliteração: Hôšēa‘; Tradução: salvação ou Senhor, salva) é uma forma reduzida de Hôša‘yâ, foi instruído a viver em sua própria carne o drama do relacionamento de Javé com Seu povo. Sua experiência matrimonial com Gômer, uma mulher marcada pela infidelidade, tornou-se a metáfora central para descrever o adultério espiritual de Israel. O trecho de 6:1 a 7:16 deve ser lido sob essa ótica: Deus, o "marido" fiel, expõe as feridas incuráveis de uma "esposa" que busca amantes nos ídolos de Canaã e nas potências estrangeiras.

Elemento de Contexto

Detalhamento Histórico e Teológico

Monarcas de Judá

Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias.

Monarcas de Israel

Jeroboão II até a queda de Samaria em 722 a.C.

Conflito Central

Heseḏ (Amor Leal) vs. Ritualismo vazio.

Geografia Crítica

Samaria, Gileade, Siquém e as fronteiras com a Assíria e o Egito.

Propósito da Seção

Demonstrar que o arrependimento verbal não substitui a fidelidade ética.

II - Estrutura Literária e Análise Narrativa


A análise literária de Oséias revela uma composição predominantemente poética, marcada por uma linguagem concisa, emocional e, por vezes, fragmentária, o que reflete a urgência e a dor do mensageiro divino. A seção 6:1-7:16 pode ser segmentada em três movimentos retóricos distintos que estruturam a denúncia profética.  


1. A Liturgia do Arrependimento Inadequado (6:1-3)


Este segmento é identificado como uma oração litúrgica penitencial, possivelmente entoada pelo povo ou apresentada pelo profeta como o modelo ideal de retorno que Israel falhou em vivenciar de forma genuína. A estrutura utiliza o padrão numérico progressivo (dois dias, terceiro dia), comum na sabedoria hebraica, para enfatizar a certeza e a rapidez da restauração esperada.  


2. O Diagnóstico da Inconstância Espiritual (6:4-11a)


Javé intervém na narrativa com uma queixa direta. A transição é marcada por perguntas retóricas que revelam a frustração divina perante a piedade climática de Efraim e Judá. O uso de símiles naturais (nuvem, orvalho) destaca a natureza efêmera da lealdade do povo, contrastando-a com a perenidade do julgamento divino que "sai como a luz".  


3. A Anatomia da Corrupção e o Colapso Político (6:11b-7:16)


O foco literário desloca-se do santuário para a esfera sociopolítica. Deus descreve o processo de cura nacional sendo interrompido pela descoberta de novas iniquidades. O texto utiliza metáforas de "fogo e cozimento" para ilustrar a psicologia do pecado e o "forno" das conspirações reais. A narrativa conclui com a imagem da "pomba tola", uma crítica mordaz à diplomacia israelita que abandonou a soberania de Javé pela servidão internacional.  


III - Análise Exegética e Hermenêutica Detalhada


A exegese minuciosa dos versículos permite compreender a densidade dos termos hebraicos e as intenções teológicas subjacentes ao texto massorético.


Oséias 6:1-3: O Retorno sob a Ótica da Presunção


O chamado "Vinde e tornemos ao Senhor" utiliza o verbo šûḇ (Transliteração: šûḇ; Tradução: voltar, arrepender-se, restaurar). No entanto, a hermenêutica acadêmica observa que Israel emprega este termo de forma utilitária. O povo reconhece que Javé "despedaçou" (ṭāraṗ) e "feriu" (nākâ), mas acredita que o mesmo Deus está obrigado contratualmente a "sarar" (rāp̄ā’) e "vendar a ferida" (ḥāḇaš) sem que haja uma mudança de conduta.  


No versículo 2, a expressão "ao terceiro dia nos levantará" (bayyôm haššĕlîšî yĕqīmēnû) evoca o conceito de ressurreição nacional. Embora o sentido imediato se refira a uma restauração rápida de crises militares (como a guerra siro-efraimita), a tipologia bíblica conecta invariavelmente este trecho à ressurreição de Cristo. A palavra yĕqīmēnû (levantar-nos) sugere não apenas uma recuperação física, mas um restabelecimento da posição aliancial diante da face de Deus.  


O versículo 3 exorta: "Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor". O termo para "conhecer" aqui é yāḏa‘ (Transliteração: yāḏa‘; Tradução: conhecer por experiência, intimidade profunda). A vinda de Deus é comparada à alva (šaḥar) e à chuva serôdia (malqôš). Didaticamente, a chuva serôdia era vital para o amadurecimento dos grãos antes da colheita; assim, a vinda de Deus é vista como o elemento vitalizador final da existência de Israel.  


Oséias 6:4-6: O Primado do Chesed sobre o Ritual


Javé responde com uma pergunta que transborda angústia: "Que te farei, ó Efraim?". O diagnóstico divino é que a benignidade de Israel é como a nuvem da manhã (‘ănan-bōqer) e o orvalho (ṭal). Aqui, o termo hebraico para benignidade é ḥeseḏ (Transliteração: ḥeseḏ; Tradução: amor fiel, misericórdia pactual, lealdade inabalável). A ironia é que Israel, que deveria refletir o ḥeseḏ eterno de Deus, apresenta uma lealdade que evapora ante as tentações de Baal.  


O versículo 6.6 estabelece o princípio fundamental: "Porque eu quero a misericórdia (ḥeseḏ), e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus (da'at elohim), mais do que os holocaustos". Deus não está rejeitando o sistema levítico em si, mas a sua perversão como substituto da obediência ética. O sacrifício sem ḥeseḏ é um ato mecânico destituído de valor espiritual.  


Oséias 6:7-11: A Geografia do Pecado Sacerdotal


O texto descreve que Israel transgrediu a aliança "como Adão" (kĕ'āḏām). Este termo é alvo de debate: pode referir-se à quebra da aliança original pelo primeiro homem ou a um pecado específico na cidade de Adão. A análise exegética de Stuart sugere que a traição foi um ato deliberado de infidelidade (bāḡaḏ), comparável à quebra de um contrato de suserania.  


A denúncia prossegue sobre Gileade e o caminho para Siquém. A expressão "quadrilha de sacerdotes" (ḥeḇer kōhănîm) é particularmente chocante. Sacerdotes que deveriam proteger os peregrinos estavam agindo como bandoleiros de tocaia, cometendo assassinatos e vilanias (zimmāh), termo usado para pecados sexuais e morais extremos. O versículo 11 encerra o capítulo com a imagem da "sega" ou colheita para Judá, indicando que a contaminação do Norte alcançou o Sul, e o julgamento é inevitável.  


Oséias 7:1-7: O Forno das Conspirações Reais


Ao iniciar o capítulo 7, Deus expressa o desejo de "sarar Israel", mas a tentativa revela a iniquidade de Efraim e as maldades de Samaria. O pecado é descrito como algo que "cerca" o povo diante da face de Deus. A elite política é acusada de "alegrar o rei" com mentiras e maldades, possivelmente referindo-se a bajulações que encobriam planos de regicídio.  


A metáfora do forno (tannûr) é central aqui (vv. 4-7). Os adúlteros espirituais são comparados a um forno aceso pelo padeiro. Eles preparam seus corações como quem aquece um forno enquanto a massa leveda; a ira e a luxúria "dormem" ou smolder durante a noite, mas pela manhã irrompem em "chamas abrasadoras" que consomem seus juízes e reis. Esta é uma descrição precisa da instabilidade dinástica da época.  


Oséias 7:8-16: A Inconsistência do Bolo e da Pomba


Israel é descrito como um "bolo que não foi virado". No antigo Israel, bolos eram assados sobre pedras quentes e precisavam ser virados para não queimarem de um lado e permanecerem crus do outro. Esta imagem ilustra o sincretismo: Israel é inconsistente, meio-javista e meio-baalista, uma mistura que o torna inútil para os propósitos de Deus.  


O versículo 9 observa que "estrangeiros lhe comem a força", mas a nação "não o sabe". Os cabelos brancos (śêḇāh), sinal de decrepitude e fim iminente, aparecem, mas o orgulho de Israel o impede de reconhecer sua ruína. Em sua loucura, Efraim age como uma pomba enganada (yônāh pôtâ), sem entendimento, que voa desesperadamente entre o Egito e a Assíria em busca de socorro humano.  


A seção termina com um lamento de Javé sobre o "arco enganoso" (qešeṯ rĕmiyāh). Como um arco cujas fibras falham no momento da tensão, Israel falha em cumprir sua função de testemunha divina. Por causa de sua "língua insolente" e da confiança em alianças estrangeiras, eles se tornarão escárnio na terra do Egito.  


IV - Contexto Histórico-Cultural e Aspectos Arqueológicos


A materialidade da época de Oséias oferece suporte robusto para a compreensão das denúncias de luxo, orgulho e sincretismo presentes no texto.


1. A Capital Samaria e a Opulência do Século VIII


Arqueologicamente, Samaria era uma das cidades mais fortificadas e ricas da região. As escavações revelaram os Marfins de Samaria, fragmentos de painéis entalhados que decoravam os palácios (mencionados em Am 3:15). A iconografia desses marfins, com temas egípcios e fenícios (como o lótus e o sol alado), corrobora a acusação de que Israel estava "misturado com as nações" (Os 7:8) e assimilando estéticas e cultos estrangeiros.  


2. Os Óstracos de Samaria: Evidência de Riqueza e Sincretismo


Encontrados em 1910 nas ruínas do palácio de Jeroboão II, estes 64 cacos de cerâmica com inscrições paleo-hebraicas funcionavam como recibos de impostos e registros de remessas de vinho e óleo refinado vindos das aldeias vizinhas.  


  • A Riqueza Agrícola: Os óstracos provam que a produção de óleo e vinho era a base da economia de Samaria, justificando a denúncia de Oséias de que o povo atribuía essas "dádivas de Javé" aos baalins (Os 2:5-8; 6:11).  


  • O Sincretismo Onomástico: Os nomes próprios registrados nos óstracos revelam a confusão teológica: para cada 11 nomes contendo o elemento "Javé" (Yahu), existem 7 nomes contendo "Baal" (como Baal-zamar, "Baal canta", ou Abi-baal, "Baal é meu pai"). Isto materializa a imagem do "bolo não virado" de Oséias 7:8.

     

3. O Forno e o Padeiro: Arqueologia Urbana


A menção ao padeiro e ao forno (tannûr) em Oséias 7:4-7 não é meramente poética. Escavações na acrópole de Samaria identificaram áreas dedicadas a padarias comerciais que serviam à corte real. O calor desses fornos, alimentados com palha e arbustos espinhosos, podia exceder 900°C, tornando-os metáforas perfeitas para paixões destrutivas e conspirações violentas que "cremavam" a liderança nacional.  


4. A Estrada para Siquém e a Geografia do Crime


A estrada entre Siquém e Samaria era um corredor vital para o comércio e a peregrinação. A arqueologia de Siquém mostra que ela era um centro religioso tradicional. A acusação de Oséias (6:9) de que os sacerdotes "assassinavam no caminho" sugere que os postos de controle religiosos haviam se transformado em pontos de extorsão e violência organizada, aproveitando-se da debilidade do governo central.  


V - Questões Polêmicas e Discussões Teológicas


O texto de Oséias 6-7 é palco de debates exegéticos que impactam diretamente a interpretação sistemática das Escrituras.


1. A Autenticidade do Chamado ao Retorno (6:1-3)


Uma das discussões mais calorosas entre teólogos renomados refere-se à origem desta oração.


  • Corrente da Penitência Genuína: Alguns teólogos (como Matthew Henry) veem aqui o desejo sincero de um remanescente piedoso ou o convite amoroso do profeta ao povo.  


  • Corrente da Presunção Ritual: Críticos modernos (como Mackay e Stuart) argumentam que estas palavras refletem a falsa conversão de Israel. Eles apontam que não há confissão de pecado, apenas o desejo de livramento. Deus responde em 6:4-6 com juízo, o que validaria a ideia de que a oração de 6:1-3 foi rejeitada por ser superficial.  


2. O Debate sobre o "Terceiro Dia" e a Ressurreição


Teólogos debatem se Oséias 6:2 é uma profecia messiânica direta ou uma analogia temporal.


  • Visão Histórico-Crítica: Sustenta que o número três indica apenas um período curto e que o profeta não tinha em mente a figura do Messias, mas a restauração da soberania nacional após a guerra contra a Assíria.  


  • Visão Canônico-Cristocêntrica: Argumenta que, sob a inspiração do Espírito Santo, o texto aponta para a vitória definitiva de Cristo sobre a morte. O fato de o Novo Testamento enfatizar a ressurreição "ao terceiro dia segundo as Escrituras" (1 Co 15:4) tem em Oséias 6:2 seu fundamento mais explícito.  


3. A Localização de "Adão" em Oséias 6:7


  • Interpretação Antropológica: A versão ARC e muitos teólogos reformados leem "como Adão", comparando a quebra da aliança de Israel com a queda no Éden.  


  • Interpretação Geográfica: A RSV e a NVI sugerem "em Adão", referindo-se a uma cidade no vale do Jordão (Js 3:16). O debate é complexo porque, embora a referência geográfica pareça paralela a Gileade e Siquém, o impacto teológico da comparação com o pecado original é muito mais ressonante na estrutura do livro.  


VI - Doutrina Teológica (Sistemática) e Visões Denominacionais


As diversas tradições cristãs utilizam Oséias 6-7 para fundamentar doutrinas sobre a graça, o arrependimento e a natureza do culto.


1. Perspectiva Reformada (Calvinista)


A teologia reformada, baseada na Confissão de Fé de Westminster (Cap. XV), destaca o conceito de arrependimento que conduz à vida em contraste com o arrependimento superficial de Oséias 6:1-3. João Calvino enfatizava que o conhecimento de Deus (da'at) não é apenas informação, mas um compromisso de vida. A referência a "Adão" em 6:7 é frequentemente usada por puritanos para sustentar a doutrina do Pecado Original e a quebra da Aliança de Obras.  


2. Perspectiva Luterana


Lutero via em Oséias 6:6 o coração do Evangelho. Para o luteranismo, a oposição entre "misericórdia" e "sacrifício" ilustra a distinção fundamental entre Lei e Evangelho. O sacrifício é o esforço do homem para satisfazer a lei, enquanto o ḥeseḏ é o fruto da fé que aceita a misericórdia de Deus em Cristo.  


3. Perspectiva Adventista do Sétimo Dia


Através do projeto "Reavivados por Sua Palavra", os adventistas enfatizam que a disciplina divina em Oséias 6:1 tem como objetivo a reforma de vida. Eles interpretam a "nuvem da manhã" (6:4) como um alerta contra a experiência religiosa baseada meramente em sentimentos volúveis, exortando os fiéis a uma obediência persistente aos mandamentos de Deus.  


4. Perspectiva Pentecostal e Renovada


Os pentecostais focam na promessa da "chuva serôdia" (6:3). Interpretam-na tipologicamente como o derramamento do Espírito Santo nos "últimos dias", necessário para preparar a igreja para a vinda de Cristo. O chamado a "prosseguir em conhecer ao Senhor" é lido como uma busca incessante pela intimidade espiritual e pelo poder do Espírito.  


5. Perspectiva Católica Romana


O Catecismo da Igreja Católica (§2100) utiliza Oséias 6:6 para ensinar o primado da caridade. A Igreja ensina que nenhum ritual litúrgico (sacrifício) tem valor se não estiver unido ao "sacrifício espiritual" de um coração compungido e misericordioso para com o próximo.  


VII - Análise Apologética: Defesa da Fé e Racionalidade


A apologética em Oséias 6-7 fundamenta-se na superioridade ética da revelação bíblica sobre os cultos pagãos e as filosofias niilistas.


1. A Ética como Evidência do Teísmo Bíblico


Contra os críticos que veem a religião como uma construção social opressiva, Oséias demonstra que a verdadeira fé em Javé é a única que exige justiça social e misericórdia (6:6). Enquanto os cultos de fertilidade de Baal legitimavam a exploração e a violência sob o pretexto de "garantir a colheita", a mensagem de Oséias desmascara a religião que se torna "legitimadora da injustiça". A racionalidade da fé cristã reside na sua exigência de coerência entre a adoração e a ética pública.  


2. O Problema do Mal e a Ira de Deus


Muitos filósofos modernos questionam a moralidade de um Deus que "fere e despedaça" (6:1). A apologética cristã, dialogando com a filosofia existencialista (como a de Kierkegaard), argumenta que o julgamento de Deus em Oséias não é um ato de sadismo, mas de educação corretiva. A "ira" é o amor ferido de Deus reagindo contra o que destrói o Seu amado. Se Deus fosse indiferente ao pecado de Israel, Ele seria amoral.  


3. A Ressurreição em Oséias 6:2 contra o Naturalismo


A promessa de que Deus "dará vida" após dois dias desafia a visão materialista de que a morte é o fim absoluto. Apologeticamente, a profecia de Oséias prepara o terreno racional para a aceitação do evento histórico da ressurreição de Jesus, mostrando que a vida biológica está sob a autoridade da soberania divina.  


VIII - Análise de Seitas e Heresias


A exposição de Oséias 6:1-7:16 é uma ferramenta vital para desconstruir distorções doutrinárias promovidas por diversos grupos.


Grupo / Heresia

Distorção Teológica

Refutação Baseada no Texto

Espiritismo / Reencarnação

Interpreta a "vida ao terceiro dia" (6:2) como reencarnação.

O termo yĕqīmēnû refere-se à ressurreição corporal e restauração diante da face de Deus, não a sucessivas vidas autônomas.

Testemunhas de Jeová

Negam a onisciência total e a divindade do Filho, vendo Jesus como uma criatura (Arcanjo Miguel).

Oséias 6:3 e 7:13 apresentam Javé como o Redentor absoluto e Senhor do tempo, cujas promessas de "terceiro dia" são cumpridas apenas pela divindade de Cristo na ressurreição.

Nova Era / Esoterismo

Veem o "conhecimento" (da'at) como uma iluminação mística subjetiva.

O da'at elohim (6:6) é relacional e ético; manifesta-se em não mentir, não roubar e não matar (Os 4:1-2; 7:1).

Gnosticismo Antigo e Moderno

Defende que o corpo é mau e que rituais físicos não importam, ou que a salvação é por conhecimento secreto.

Oséias 7:1-7 denuncia pecados corporais e sociais (embriaguez, adultério, regicídio) como provas da queda espiritual, exigindo uma transformação holística.

Desconstruindo a Heresia da "Graça Barata"


Muitos movimentos neopentecostais caem na heresia de transformar Oséias 6:1-3 em uma "fórmula mágica de prosperidade". O texto, porém, mostra que Deus rejeitou essa oração por ser um suborno litúrgico. A verdadeira graça não ignora a maldade de Samaria; ela a expõe para que haja cura real.  


IX - Paralelos com as Ciências e Humanidades


1. Termodinâmica e Psicologia: O Coração como Forno (7:4-7)


A metáfora do forno aceso ilustra princípios que a ciência moderna descreve em termos de termodinâmica e processos bioquímicos. O pecado escondido no coração funciona como uma brasa em ambiente anaeróbico; ele não se apaga, mas acumula energia térmica. Quando a "massa" (o plano maligno) está totalmente levedada (fermentação química), o oxigênio da oportunidade faz com que o sistema entre em combustão súbita, destruindo os reis e juízes.  


2. Biologia e Comportamento Animal: A Pomba Enganada (7:11)


A etologia da pomba revela uma ave que, embora rápida, carece de instintos de defesa robustos contra predadores complexos. Israel é comparado a este animal porque, biologicamente e sociologicamente, a nação perdeu seu instinto de autopreservação espiritual. Ao "chamar o Egito" e "ir para a Assíria", Israel voluntariamente entra no território dos seus predadores, demonstrando uma patologia comportamental onde o medo suplanta a lógica da sobrevivência.  


3. Sociologia Política e Criminologia


Oséias 7:1-3 descreve um estado de anomia social. O profeta nota que o crime se tornou o meio de agradar a liderança ("alegram o rei com sua maldade"). Sociologicamente, isso representa o colapso do contrato social. A criminologia do texto aponta para a existência de crime organizado liderado pelo clero (6:9), mostrando que quando as instituições de controle moral (o sacerdócio) falham, a violência torna-se sistêmica.  


4. Perspectiva Jurídica: Quebra de Contrato Suserano-Vassalo


Teólogos e juristas veem em Oséias 6:7 um exemplo clássico de litígio contratual (rîb). Israel não quebrou apenas uma "regra religiosa", mas um tratado legal internacional com Javé. As denúncias de Oséias funcionam como a "leitura das cláusulas violadas", onde cada crime (assassinato, mentira, adultério) serve de evidência para a execução da sentença de despejo da terra (exílio).  


X - Conexões Intertextuais e Tipologia Bíblica


O conteúdo de Oséias 6-7 serve de alicerce para diversos desenvolvimentos no Novo Testamento.


1. A Citação por Jesus (Os 6:6)


Jesus utiliza este texto para desarmar a religiosidade farisaica em Mateus 9:13 (ao comer com pecadores) e Mateus 12:7 (ao colher espigas no sábado). Cristo identifica-se com a "Misericórdia" (ḥeseḏ) divina, provando que a lei do amor ao próximo é a hermenêutica correta para toda a lei cerimonial.  


2. Tipologia da Ressurreição (Os 6:2)


A promessa do "terceiro dia" é a base para a pregação apostólica da ressurreição física de Cristo. Onde Israel falhou em ser o "servo sofredor" que ressuscita, Cristo assume o papel do verdadeiro Israel, cumprindo a profecia e oferecendo a restauração espiritual que a nação não pôde alcançar.  


3. Paralelos com o Pentateuco


Oséias baseia suas denúncias em Deuteronômio 28-32 e Levítico 26. A imagem da "vaca rebelde" (4:16) ecoa o bezerro de ouro de Êxodo 32, enquanto a "sega" de Judá (6:11) aponta para as maldições da aliança contra a infidelidade agrícola e moral.  


XI - Exposição Devocional e Aplicação Prática


A mensagem de Oséias transcende os séculos, oferecendo um espelho para a espiritualidade contemporânea.


1. Fugindo do "Arrependimento de Segunda-Feira"


O perigo da religiosidade da "nuvem da manhã" (6:4) é a nossa tendência de buscar a Deus apenas em crises, voltando aos velhos hábitos assim que a pressão diminui. A aplicação prática exige a busca por uma espiritualidade de constância, onde o arrependimento não é um evento emocional passageiro, mas um estilo de vida de retorno contínuo ao Senhor.  


2. Valorizando a Intimidade sobre a Performance


Em uma cultura de ativismo religioso e rituais pomposos, o eco de 6:6 nos chama de volta ao essencial: conhecer a Deus. A atividade na igreja não substitui o Heseḏ no mercado de trabalho ou a integridade na vida privada. O convite é para "prosseguir em conhecer", investindo em silêncio e escuta, e não apenas em holocaustos de visibilidade social.  


3. O Alerta dos "Cabelos Brancos" (7:9)


A negligência espiritual é gradual. Podemos estar perdendo nossa vitalidade, nossa ética e nossa força espiritual enquanto o orgulho nos convence de que tudo vai bem. A aplicação devocional é o autoexame diário. Devemos perguntar: onde estão os "cabelos brancos" da minha fé? O que está consumindo minha força sem que eu perceba?.  


4. O Convite ao Deus que Fere para Curar


Finalmente, o texto nos encoraja a não temer a disciplina de Deus. Se Ele "despedaça", é para que possa "ligar a ferida" (6:1). O sofrimento pode ser o instrumento misericordioso de Deus para nos afastar dos "amantes" destrutivos e nos trazer de volta aos braços do Único que pode verdadeiramente nos salvar

 
 
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