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O Ser Humano à Imagem de Deus (Sexto Dia - Parte 2) | Gênesis 1.26–28

Atualizado: 16 de set. de 2025



Introdução e Contextualização: Estabelecendo o Palco Cósmico


A passagem de Gênesis 1:26-28 representa não apenas o clímax da narrativa da criação, mas também o fundamento de toda a antropologia bíblica. Para compreender a profundidade e o alcance radical destas palavras, é imperativo situá-las em seu devido contexto literário, histórico e teológico. Este texto não é um fragmento isolado de um mito antigo, mas uma declaração teológica cuidadosamente elaborada, com um propósito específico para uma audiência específica, servindo como a abertura majestosa para a grande sinfonia da história da salvação.


O Ápice do Sexto Dia: A Posição Privilegiada de Gênesis 1:26-28 no Relato da Criação: A estrutura narrativa de Gênesis 1 posiciona deliberadamente a criação da humanidade como o clímax e a coroa da criação. Após cinco dias de atos criativos majestosos, mas formulados de maneira semelhante, o ritmo da narrativa muda drasticamente no versículo 26. A fórmula impessoal e imperativa "Haja..." (yehi) é substituída por uma declaração volitiva e pessoal: "Façamos..." (na'aseh). Esta mudança assinala um momento de deliberação divina, uma espécie de conselho celestial que precede o ato criativo final e mais significativo. Esta pausa dramática e a mudança na linguagem divina elevam a criação da humanidade, separando-a de tudo o que veio antes e sinalizando sua posição única e seu propósito no cosmos recém-formado.


O Clímax Narrativo: Deliberação e Solenidade na Criação da Humanidade: Como mencionado anteriormente, a quebra deliberada do padrão literário estabelecido no versículo 26 é um dispositivo narrativo de imensa importância. O uso do plural cohortativo "Façamos o homem..." desacelera a narrativa, convidando o leitor a se inclinar e prestar atenção. Este não é apenas mais um item na lista da criação; é o seu ápice, o momento para o qual toda a atividade criativa anterior estava se movendo. A solenidade deste momento destaca a singularidade da humanidade e a relação especial que ela terá com o Criador.   


Análise Exegética e Hermenêutica


Uma compreensão profunda de Gênesis 1:26-28 exige um mergulho cuidadoso no texto hebraico original. As escolhas lexicais e gramaticais do autor não são arbitrárias; elas carregam um peso teológico imenso e revelam camadas de significado que muitas vezes se perdem na tradução. Esta seção fornecerá uma análise detalhada dos termos e estruturas chave que formam o alicerce da doutrina da Imago Dei.


Versículo 26: O Conselho Divino e o Propósito Humano


  • "E disse Deus: 'Façamos' (נַעֲשֶׂה - na'aseh) o homem (אָדָם - *'adam')...": A declaração começa com o verbo נַעֲשֶׂה (na'aseh), uma forma verbal hebraica conhecida como coortativo na primeira pessoa do plural. Esta forma expressa auto-deliberação ou uma intenção resoluta. O uso do plural aqui ("nós") tem sido uma fonte de intenso debate teológico ao longo da história (abordado em detalhe na Seção V). O substantivo אָדָם ('adam) é crucial. Neste contexto, não é um nome próprio (Adão), mas um termo genérico que significa "humanidade" ou "gênero humano". Sua raiz está ligada à palavra para "solo" ou "terra" (אֲדָמָה -'adamah), prenunciando a narrativa de Gênesis 2:7, onde o homem é formado "do pó da terra", e estabelecendo a conexão intrínseca da humanidade com o mundo criado.


  • "...à nossa imagem (בְּצַלְמֵנוּ - b'tsalmenu), conforme a nossa semelhança (כִּדְמוּתֵנוּ - kidmutenu)...": Aqui encontramos o coração da passagem, a doutrina da Imago Dei. Os dois termos hebraicos usados são complementares e devem ser entendidos juntos.


    • (tselem - imagem): Esta palavra geralmente se refere a algo concreto e físico. No AOP, era usada para descrever um ídolo que representava uma divindade ou uma estela real que representava a presença e autoridade do rei em uma província distante. Portanto, tselem sugere que a humanidade é a representação visível e tangível de Deus no mundo criado.


    • (demuth - semelhança): Este termo é mais abstrato e qualificador. Ele significa "semelhança", "correspondência" ou "padrão". Ao adicionar demuth, o texto evita uma interpretação excessivamente literal ou física. A humanidade não é uma cópia física de Deus (que é espírito, conforme João 4:24), mas é como Deus, refletindo Seus atributos e caráter. Juntos, tselem e demuth comunicam que a humanidade é a representação autorizada de Deus na terra, possuindo capacidades mentais, morais, sociais e espirituais que a distinguem de toda a criação animal e a capacitam para a comunhão com seu Criador.   


  • "...e que eles dominem (וְיִרְדּוּ - v'yirdu)...": A consequência imediata e a expressão funcional da Imago Dei é o domínio. O verbo רָדָה (radah) significa "reinar, governar, ter domínio". É um termo de realeza, frequentemente usado para descrever o governo de um rei sobre seus súditos. Este não é um mandato para tirania ou exploração irresponsável, mas para um governo de mordomia benevolente. Como imagem do Rei celestial, a humanidade deve governar a criação da maneira como Deus governa: com sabedoria, cuidado e justiça, promovendo o florescimento. Ser a imagem de Deus é funcionar como vice-regente de Deus na terra.   


Versículo 27: O Ato Criativo e a Dualidade Humana


  • A ênfase tríplice em "Criou" (בָּרָא - bara): Este versículo tem uma estrutura poética poderosa, construída em torno da repetição do verbo בָּרָא (bara). Este verbo é teologicamente significativo, pois no Antigo Testamento, ele é usado exclusivamente com Deus como sujeito. Ele denota um ato de criação que somente Deus pode realizar, seja criando algo do nada (ex nihilo) ou transformando a matéria existente em algo radicalmente novo e sem precedentes. A repetição tríplice do verbo neste único versículo ("Criou Deus... à imagem de Deus o criou... homem e mulher os criou") funciona como um crescendo poético, sublinhando a singularidade, a importância e a origem puramente divina da humanidade.   


  • "...à imagem de Deus o criou; homem e mulher (זָכָר וּנְקֵבָה - zakar u'neqevah) os criou": A estrutura da frase é reveladora. O texto passa do singular ("o criou") para o plural ("os criou"), definindo imediatamente a humanidade unificada ('adam) como uma dualidade de homem e mulher. Os termos זָכָר (zakar) e נְקֵבָה (neqevah) são as palavras hebraicas básicas para "macho" e "fêmea", enraizadas em distinções biológicas e anatômicas. Esta declaração é teologicamente revolucionária por várias razões:   


    1. Igualdade Ontológica: Afirma que tanto o homem quanto a mulher são, igualmente e plenamente, criados à imagem de Deus. Não há hierarquia na essência do ser; a Imago Dei não é mais proeminente no homem do que na mulher.   


    2. Plenitude na Complementaridade: Sugere que a imagem de Deus na humanidade é refletida de forma mais completa na comunhão e complementaridade entre homem e mulher. A humanidade como um todo, em sua diversidade de gênero, é o portador da imagem divina.


Versículo 28: A Bênção Divina e o Mandato Cultural


  • "E Deus os abençoou...": A bênção no contexto bíblico não é um mero desejo de bem-estar. É uma transmissão de poder e favor divinos para a fertilidade, o sucesso e o cumprimento de um propósito. A bênção de Deus capacita a humanidade a realizar o mandato que Ele lhe confia.


  • "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a (וְכִבְשֻׁהָ)": Este conjunto de imperativos é frequentemente chamado de "Mandato Cultural". É a comissão divina para que a humanidade desenvolva o potencial latente do mundo criado.


    • "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra": Este é o mandato procriativo, a tarefa de expandir a presença da humanidade, a portadora da imagem de Deus, por todo o globo.


    • "e sujeitai-a": O verbo כָּבַשׁ (kabash) é um termo forte, que pode significar "submeter, subjugar, trazer à servidão". Embora possa soar áspero, no contexto de uma criação pré-queda declarada "muito boa", ele deve ser entendido como a tarefa de dominar e desenvolver os recursos brutos da terra para o florescimento humano. Isso inclui a agricultura, a mineração, a construção de cidades, a arte, a ciência e a tecnologia — em suma, a construção da civilização. Longe de ser uma maldição, o trabalho e o desenvolvimento são parte intrínseca do bom desígnio de Deus para a humanidade, tornando os seres humanos Seus co-criadores no contínuo desdobramento do potencial da criação. O mandato é reiterado e expandido com o verbo radah ("dominai"), ligando o Mandato Cultural diretamente à função de vice-regência da humanidade.


A seguir, uma tabela resume os termos hebraicos chave para facilitar a compreensão técnica.


Termo Hebraico

Transliteração

Significado Básico

Amplitude Semântica e Contexto

Significado Teológico em Gn 1:26-28

אָדָם

'adam

Humanidade, gênero humano

Termo genérico para seres humanos; ligado a 'adamah (solo).

Refere-se a toda a humanidade, não apenas a um indivíduo masculino, estabelecendo a dignidade universal.

צֶלֶם

tselem

Imagem, estátua

Frequentemente uma representação física, um ídolo concreto ou imagem real.

A humanidade é a representante física e viva de Deus no reino criado.

דְּמוּת

demuth

Semelhança, similaridade

Mais abstrato que tselem, denotando correspondência ou parecença.

Qualifica tselem, evitando um fisicalismo grosseiro; a humanidade reflete o caráter de Deus.

רָדָה

radah

Reinar, ter domínio

Um termo de realeza; governar, liderar.

O aspecto funcional da Imago Dei; o papel da humanidade como vice-regente de Deus.

כָּבַשׁ

kabash

Subjugar, trazer sob controle

Um termo forte para subjugação, mas aqui em um contexto pré-queda.

O "Mandato Cultural" para desenvolver o potencial da criação e construir a civilização.

בָּרָא

bara

Criar

Um verbo usado exclusivamente para a ação criativa de Deus.

Enfatiza a singularidade e a origem divina da humanidade.

Contexto Histórico-Cultural e Arqueológico: Gênesis em Diálogo com o Antigo Oriente Próximo


A narrativa da criação em Gênesis 1 não surgiu em um vácuo cultural. Pelo contrário, ela é uma obra profundamente engajada com o ambiente intelectual e religioso do Antigo Oriente Próximo (AOP). Compreender este contexto é essencial para apreciar a natureza radical e polêmica da mensagem bíblica. O texto de Gênesis está em um diálogo dinâmico com as culturas vizinhas, adotando certas formas conceituais comuns, mas preenchendo-as com um conteúdo teológico revolucionário.   


Mitos de Criação da Mesopotâmia e do Egito: Paralelos e Polêmicas: Escavações arqueológicas e o deciframento de textos cuneiformes trouxeram à luz uma rica tapeçaria de mitos de criação de civilizações como a Suméria, a Acádia, a Babilônia e o Egito. Ao comparar estes relatos com Gênesis 1, observamos tanto paralelos surpreendentes quanto divergências profundas.


  • Paralelos: Muitos mitos do AOP começam com um estado de caos aquoso primordial, muito semelhante à descrição da terra como "sem forma e vazia" com "trevas sobre a face do abismo" (תְּהוֹם - tehom) em Gênesis 1:2. De fato, a palavra hebraica tehom é etimologicamente cognata com Tiamat, a deusa dragão do caos aquoso no épico babilônico Enuma Elish. A sequência da criação em Gênesis (separação da luz e das trevas, criação de um firmamento para separar as águas, surgimento da terra seca, criação dos luminares e, finalmente, da humanidade) também encontra ecos em várias narrativas do AOP. Estes paralelos indicam que os autores bíblicos compartilhavam um universo conceitual comum com seus vizinhos; eles estavam usando um vocabulário culturalmente inteligível para contar sua história.   


  • Polêmicas: As diferenças, no entanto, são teologicamente sísmicas e revelam o propósito polêmico de Gênesis.


    1. Monoteísmo vs. Politeísmo: Enquanto os mitos do AOP descrevem um panteão de deuses que frequentemente estão em conflito, Gênesis apresenta um único Deus soberano e transcendente.

    2. Criação por Palavra vs. Criação por Conflito: No Enuma Elish, o cosmos é criado a partir do cadáver da deusa Tiamat após uma batalha celestial brutal. Em Gênesis, a criação ocorre sem esforço, pela palavra soberana de Deus. O sol, a lua e as estrelas, adorados como divindades poderosas em todo o AOP, são em Gênesis rebaixados ao status de meros "luminares" criados por Deus para marcar o tempo.

    3. Mundo Bom vs. Mundo Ambíguo: A criação em Gênesis é declarada repetidamente "boa", refletindo a natureza de seu Criador. Nos mitos pagãos, o mundo material é frequentemente visto como moralmente ambíguo, nascido da violência e do caos.


O Conceito de "Imagem" na Ideologia Real do Antigo Oriente Próximo: O pano de fundo mais crucial para entender a Imago Dei vem da ideologia real do AOP. Textos e monumentos da Mesopotâmia e do Egito revelam um conceito muito específico: apenas o rei era considerado a "imagem do deus" (em acadiano, ṣalam ilim). O faraó ou o rei mesopotâmico era visto como o filho da divindade principal, seu representante escolhido na terra. Ele era o mediador entre o reino divino e o humano, responsável por manter a ordem cósmica (maat no Egito) e executar a vontade dos deuses. A estátua do rei, colocada em partes distantes do império, servia como uma extensão de sua presença e autoridade.


A Singularidade da Antropologia de Gênesis: A Dignidade Universal da Humanidade: É neste contexto que a declaração de Gênesis 1:26 se torna explosiva. O texto bíblico realiza uma democratização radical do status real. Ele toma o privilégio exclusivo e elitista do rei e o aplica a toda a humanidade. Cada ser humano, homem e mulher, israelita e gentio, nobre e plebeu, é criado à imagem de Deus e investido com a dignidade e a responsabilidade real que outras culturas reservavam apenas para seu monarca.   


Esta visão contrasta fortemente com a antropologia da maioria dos mitos do AOP. No Enuma Elish e no mito de Atrahasis, a humanidade é criada a partir do sangue de um deus menor e rebelde com um propósito servil: realizar o trabalho pesado que os deuses não queriam fazer, para que pudessem descansar. Os humanos são, em essência, escravos dos deuses. Gênesis inverte completamente essa noção. A humanidade não é uma reflexão tardia e servil, mas o ápice da obra criativa de Deus, criada no final para governar como Seus parceiros e vice-regentes.


Além disso, a afirmação "homem e mulher os criou" à imagem de Deus funciona como uma polêmica direta contra os cultos de fertilidade do AOP. As religiões cananeias, por exemplo, eram centradas em panteões de deuses e deusas (como Baal e Aserá) cujas uniões sexuais eram consideradas essenciais para a fertilidade da terra e do povo. Gênesis 1 desmitologiza radicalmente a sexualidade. Deus cria sem uma consorte feminina; Ele está acima e além da sexualidade. Ao colocar a distinção "macho e fêmea" dentro da ordem criada, como portadores da imagem divina, mas não como seres divinos em si, o texto afirma a bondade da sexualidade humana e da procriação como um dom abençoado do Criador, ao mesmo tempo que mantém uma distinção absoluta entre o Criador e a criatura.


Questões Polêmicas e Discussões Teológicas


A densidade teológica de Gênesis 1:26-28 inevitavelmente gerou séculos de debates e interpretações divergentes. A passagem está no centro de algumas das questões mais complexas e controversas da teologia, da ciência e da ética. Esta seção abordará as principais áreas de discussão, apresentando as diversas teorias e perspectivas.


O Plural "Façamos": Um Vislumbre da Trindade? A frase "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" tem intrigado intérpretes judeus e cristãos por milênios. A questão central é: com quem Deus está falando? Várias teorias principais foram propostas para explicar este plural enigmático.   


  1. A Visão Trinitária: Esta é a interpretação cristã tradicional, defendida por muitos Pais da Igreja e Reformadores. Ela vê o plural como um diálogo intratrinitário entre as Pessoas da Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Embora a doutrina da Trindade não seja explicitamente formulada no Antigo Testamento, esta visão argumenta que Gênesis 1:26 contém uma "revelação progressiva", uma semente ou prenúncio da natureza plural-una de Deus que seria plenamente revelada no Novo Testamento.   


  2. A Visão do Conselho Celestial: Muitos estudiosos do Antigo Testamento, focando no contexto histórico-cultural, argumentam que Deus está se dirigindo ao seu conselho celestial de seres angélicos (cf. 1 Reis 22:19-22; Jó 1:6; Salmo 82:1). No pensamento do AOP, era comum a ideia de um deus principal presidindo uma assembleia de divindades menores. Nesta visão, o autor bíblico adapta esta imagem, retratando YHWH como o Rei soberano consultando sua corte celestial. No entanto, a objeção a esta visão é que a humanidade é criada à imagem "nossa", e as Escrituras em nenhum outro lugar afirmam que os anjos compartilham a imagem e semelhança de Deus da mesma forma que os humanos.   


  3. O Plural de Majestade (ou "Nós Real"): Esta teoria sugere que o plural é uma forma de discurso real, semelhante a um monarca que diz "Nós decretamos..." ao falar de si mesmo. Embora seja uma possibilidade, esta visão é geralmente considerada a mais fraca, pois há poucos, ou nenhuns, exemplos inequívocos deste uso por um único falante no hebraico bíblico.


  4. O Plural de Deliberação: Uma variação da visão anterior, que sugere que o plural indica uma auto-deliberação ou auto-encorajamento. Deus estaria, em essência, "falando consigo mesmo" para enfatizar a importância do ato que está prestes a realizar.


Análise Conclusiva: É provável que a audiência original israelita, familiarizada com os conceitos do AOP, tenha entendido a frase no sentido de Deus se dirigindo ao seu conselho celestial. Contudo, do ponto de vista da teologia canônica cristã, que lê o Antigo Testamento à luz do Novo, a interpretação trinitária é uma evolução teológica legítima e rica. Ela reconhece que o texto pode conter uma profundidade de significado que só se tornou plenamente aparente com a revelação posterior de Cristo.   


Imago Dei: Substância, Função ou Relação? Uma Análise Integrada: O que exatamente constitui a "imagem de Deus" na humanidade? A teologia histórica desenvolveu três modelos principais para responder a esta pergunta, e a compreensão moderna tende a integrá-los.   


  1. A Visão Substancial (ou Estrutural): Esta é a visão mais antiga e tradicional. Ela localiza a Imago Dei em certas capacidades ou qualidades inerentes à natureza humana que refletem os atributos de Deus. Teólogos como Agostinho e os Reformadores apontaram para a racionalidade, a vontade livre, a consciência moral e a natureza espiritual (alma) como os componentes da imagem. Ser à imagem de Deus é ser um certo tipo de criatura.


  2. A Visão Funcional: Esta perspectiva, mais proeminente na erudição do século XX, argumenta que a imagem não é o que a humanidade é, mas o que a humanidade faz. A Imago Dei é encontrada na vocação para reinar e ter domínio sobre a criação como representante de Deus (Gn 1:26b, 28). Ser à imagem de Deus é funcionar como Seu vice-regente.   


  3. A Visão Relacional: Popularizada por teólogos como Karl Barth, esta visão enfatiza que a imagem de Deus se manifesta na capacidade humana para o relacionamento — primariamente com Deus e, secundariamente, com outros seres humanos. O texto imediatamente define o 'adam criado como "homem e mulher", sugerindo que a imagem é refletida na comunhão interpessoal, que por sua vez espelha a comunhão intratrinitária do Deus relacional.   


Em vez de ver estas visões como mutuamente exclusivas, a abordagem mais robusta é considerá-las complementares e interdependentes. A humanidade precisa de certas capacidades substanciais (como razão e vontade) para poder funcionar adequadamente como governante da criação, e tanto a substância quanto a função encontram seu propósito e expressão mais elevados no contexto de um relacionamento de amor com Deus e com o próximo.


Criação e Ciência: Gênesis 1:26-28 e o Diálogo com a Evolução Humana: O aparente conflito entre o relato bíblico da criação imediata da humanidade e a teoria científica da evolução humana é uma das questões mais polêmicas da era moderna. Uma abordagem apologética e teologicamente informada requer a distinção entre os propósitos da Escritura e da ciência.   


Gênesis 1 não é um texto científico e não pretende descrever os mecanismos biológicos da origem humana. Seu foco é teológico: afirmar que a humanidade, independentemente do processo, é uma     criação especial de Deus, intencionalmente feita para ter uma relação única com Ele e um papel distinto no mundo.


Muitos teólogos e cientistas cristãos adotam uma forma de evolução teísta, que propõe que Deus usou o processo evolutivo, guiando-o para produzir o Homo sapiens. Nesta visão, a "criação à imagem de Deus" não seria necessariamente um ato físico instantâneo, mas um momento crucial em que Deus dotou uma ou mais criaturas hominídeas com as qualidades espirituais, morais e relacionais que constituem a Imago Dei — um "toque pessoal" divino que transcende a mera biologia. Esta abordagem busca harmonizar os dados científicos com as verdades teológicas centrais do texto: a origem divina da humanidade, sua distinção do reino animal e seu propósito dado por Deus.   


Gênero e Hierarquia: Implicações para Teologias Igualitárias e Complementaristas: Gênesis 1:27 — "homem e mulher os criou" — é um texto fundamental no debate sobre os papéis de gênero na igreja e na família.


  • Perspectivas Igualitárias: Enfatizam que o homem e a mulher foram criados simultaneamente à imagem de Deus e receberam juntos, sem distinção, o mandato para dominar a terra. Argumentam que isto estabelece uma igualdade fundamental de essência, autoridade e vocação desde o início da criação.   


  • Perspectivas Complementaristas: Embora concordem com a igualdade ontológica (igual valor e dignidade), os complementaristas geralmente apontam para a narrativa de Gênesis 2 (onde Adão é criado primeiro e Eva é formada a partir dele para ser sua "auxiliadora") para argumentar a favor de uma diferenciação de papéis e uma hierarquia funcional ordenada por Deus, com a liderança masculina.


É importante notar que a passagem de Gênesis 1:26-28, considerada isoladamente, oferece um forte apoio à igualdade fundamental e à parceria compartilhada entre os sexos. O debate surge principalmente quando se tenta harmonizar esta passagem com a narrativa de Gênesis 2.


Doutrina Teológica (Sistemática) e Visões de Correntes Denominacionais


A passagem de Gênesis 1:26-28 não é apenas um texto para exegese histórica; é uma fonte primária para doutrinas centrais da teologia cristã sistemática. Sua interpretação moldou a forma como a Igreja compreende a Deus, a humanidade e a salvação. Além disso, diferentes tradições denominacionais desenvolveram ênfases distintas ao interpretar a Imago Dei e suas implicações.


A Doutrina da Humanidade (Antropologia Teológica): Este texto é o locus classicus, ou a passagem fundamental, para a doutrina cristã da humanidade. Ele estabelece várias verdades antropológicas cruciais:


  • Origem Divina: A humanidade não é um produto do acaso ou de forças materiais cegas, mas o resultado de um ato deliberado e especial de Deus.


  • Dignidade Intrínseca: O valor humano não é derivado de utilidade, capacidade, raça, gênero ou status social. Ele é intrínseco e inalienável porque cada pessoa é criada à imagem de Deus. Esta é a base teológica para a santidade da vida humana.   


  • Propósito e Vocação: A vida humana tem um propósito transcendente. Fomos criados para um relacionamento com Deus (a dimensão vertical) e para uma vocação no mundo — refletir o caráter de Deus e administrar Sua criação (a dimensão horizontal).


  • Natureza Dual: A humanidade é paradoxalmente terrena ("do pó da terra") e celestial (à imagem de Deus). Somos criaturas finitas, mas com uma vocação transcendente, unindo em nós mesmos os reinos material e espiritual.


A Doutrina de Deus (Teologia Propriamente Dita): A criação da humanidade também revela aspectos importantes sobre a natureza do próprio Criador.


  • Deus é Pessoal e Relacional: O Deus de Gênesis 1 não é uma força impessoal ou um princípio abstrato. Ele delibera, fala e se relaciona. O ato de criar a humanidade "à sua imagem" revela um Deus que deseja comunhão e auto-revelação.


  • Deus é Soberano e Benevolente: Ele cria com autoridade absoluta, mas Sua criação é "muito boa". Seu governo não é tirânico.


  • Deus Compartilha Sua Autoridade: Em um ato de graça surpreendente, o Deus soberano escolhe compartilhar Seu governo com Suas criaturas, comissionando a humanidade para ser Sua vice-regente. Isso revela um Deus que não acumula poder, mas o delega.


Levantamento de Perspectivas Denominacionais sobre a Imago Dei: Embora todas as principais denominações cristãs afirmem a doutrina da Imago Dei, elas a interpretam com nuances e ênfases distintas, especialmente em relação aos efeitos da Queda e à natureza da restauração.


  • Visão Católica Romana: A teologia católica enfatiza a unidade ontológica de corpo e alma como portadora da Imago Dei. A imagem é fundamentalmente relacional, refletindo a comunhão da Trindade, e é expressa de forma única na comunhão entre homem e mulher no matrimônio. O pecado fere e obscurece a imagem, resultando na concupiscência (a inclinação para o pecado), mas não a destrói completamente. A restauração e elevação da imagem ocorrem através da graça, primariamente mediada pelos sacramentos da Igreja.   


  • Visão Luterana: A teologia luterana, seguindo Martinho Lutero, tende a identificar a Imago Dei original primariamente com a justiça original — o perfeito conhecimento de Deus, a confiança Nele e a santidade de Adão. Esta imagem foi completamente perdida na Queda. O que resta no homem caído são apenas vestígios ou ruínas. A imagem é restaurada não por um processo de melhoria moral, mas forensemente, através da justificação pela fé, onde o crente é declarado justo e revestido com a justiça de Cristo. A santificação é uma consequência, não a essência, desta imagem restaurada.   


  • Visão Reformada (Calvinista): A teologia reformada tradicionalmente faz uma distinção. A imagem em sentido estrito (ou estreito), que consiste em "verdadeiro conhecimento, justiça e santidade" (baseado em Efésios 4:24 e Colossenses 3:10), foi perdida ou totalmente corrompida na Queda. No entanto, a imagem em sentido amplo (ou largo), que inclui a racionalidade, a personalidade e o domínio sobre a criação, foi desfigurada, mas não aniquilada. A restauração da imagem em sentido estrito é um processo gradual de santificação na vida do crente, realizado pelo Espírito Santo, conformando-o progressivamente à imagem de Cristo.   


  • Visão Batista: As confissões de fé batistas afirmam fortemente que a humanidade é uma criação especial à imagem de Deus, o que fundamenta a dignidade humana e inclui a distinção de gênero como parte do bom desígnio de Deus. A Queda corrompeu esta imagem e trouxe o pecado e a condenação a toda a raça humana. A restauração da imagem é um aspecto da salvação através da graça de Deus, recebida pela fé pessoal em Jesus Cristo, e é evidenciada em uma vida transformada.   


  • Visão Pentecostal: A teologia pentecostal compartilha muitas das visões evangélicas, mas com uma ênfase distintiva no papel ativo e experiencial do Espírito Santo. Ela destaca a dimensão relacional da Imago Dei. A restauração da imagem, embora iniciada na regeneração (novo nascimento), é dinamicamente impulsionada e capacitada pela experiência do batismo no Espírito Santo, que capacita o crente para uma vida de santidade e testemunho, refletindo o caráter de Cristo de forma poderosa.


A tabela a seguir oferece uma comparação sistemática destas perspectivas.


Aspecto Teológico

Católica Romana

Luterana

Reformada (Calvinista)

Batista

Pentecostal

Natureza da Imagem Original

Ontológica (unidade corpo/alma), relacional, racional.

Justiça original, perfeito conhecimento e confiança em Deus.

Estrito: Conhecimento, justiça, santidade. Amplo: Racionalidade, domínio.

Criação especial, coroada com gênero, possuindo livre arbítrio.

Relacional, com capacidades para comunhão com Deus.

Efeito da Queda

Ferida e obscurecida, mas não destruída. Inclinação ao pecado (concupiscência).

A imagem da justiça original foi completamente perdida.

A imagem estrita foi perdida/corrompida. A imagem ampla foi desfigurada.

Queda da santidade, trazendo pecado e condenação à raça.

Imagem profundamente distorcida, quebrando a relação com Deus.

Restauração da Imagem

Através de Cristo e dos sacramentos, um processo de cura e elevação.

Restaurada através da fé no Evangelho; justiça imputada de Cristo.

Restaurada progressivamente nos crentes através da santificação pelo Espírito.

Através da graça de Deus na regeneração e salvação em Cristo.

Iniciada na regeneração, capacitada pela obra do Espírito Santo.

Ênfase Principal

Comunhão, sacramentalidade, unidade corpo-alma.

Justificação pela fé, justiça imputada.

Soberania de Deus, santificação, conhecimento.

Criação especial, salvação individual, dignidade.

Papel do Espírito Santo, restauração relacional, dons espirituais.


Análise Apologética e Diálogo Filosófico


A doutrina da criação humana à imagem de Deus não é apenas uma afirmação teológica interna; ela se projeta para a arena pública do pensamento, oferecendo uma base robusta para a compreensão da realidade, da pessoa humana e da ética. A apologética, definida como a "defesa fundamentada da fé cristã" , busca demonstrar a coerência e o poder explicativo da cosmovisão bíblica em diálogo com a filosofia e a cultura.   


A Racionalidade da Criação: Respondendo ao Naturalismo Filosófico: O naturalismo filosófico, a visão de que a realidade material é tudo o que existe, enfrenta desafios significativos para explicar fenômenos centrais da experiência humana. A existência da consciência subjetiva, da razão abstrata, de leis lógicas universais e de valores morais objetivos é difícil de acomodar em um universo puramente material e não-guiado. A cosmovisão bíblica, por outro lado, oferece uma base metafísica coerente para estas realidades. A afirmação de que um Deus pessoal, racional e moral criou seres humanos à Sua imagem fornece uma explicação plausível para por que os humanos possuem mentes racionais capazes de compreender um universo inteligível e consciências morais que ressoam com uma lei moral objetiva. A Imago Dei fundamenta a ideia de que não somos meros acidentes bioquímicos, mas criaturas com um propósito e uma natureza que transcende o material.


Da Imago Dei à Pessoa Humana: Uma Jornada Filosófica: O conceito de "pessoa", tão central para o pensamento ocidental, tem suas raízes diretas nos debates teológicos cristãos sobre a Trindade e a Cristologia, que por sua vez se baseiam na Imago Dei.   


  1. Origens Teológicas: A necessidade de articular como Deus pode ser um em essência e três em Pessoa (Pai, Filho, Espírito Santo) e como Cristo pode ser uma Pessoa com duas naturezas (divina e humana) forçou a Igreja primitiva a desenvolver um conceito metafisicamente robusto de "pessoa".   


  2. Definição de Boécio: No século VI, o filósofo cristão Boécio formulou a definição clássica que influenciaria todo o pensamento ocidental: uma pessoa é uma "substância individual de natureza racional". Esta definição captura a singularidade, a unidade e a natureza racional que a teologia via como reflexos da Imago Dei.


  3. Desenvolvimento Tomista: Tomás de Aquino, no século XIII, aprofundou esta análise, enfatizando a natureza espiritual e imortal da alma humana como o fundamento da personalidade e da dignidade.   


  4. Eco Secular em Kant: Séculos mais tarde, a filosofia de Immanuel Kant, embora secular em sua abordagem, ecoa este legado teológico. A sua famosa formulação do Imperativo Categórico — tratar a humanidade, em si mesmo e nos outros, sempre como um fim em si mesma e nunca como um mero meio — fundamenta-se na ideia de que as pessoas possuem uma dignidade intrínseca, não um preço. Esta noção de dignidade incondicional, embora Kant a baseie na racionalidade autônoma, é historicamente um herdeiro direto da afirmação bíblica de que os seres humanos são valiosos porque carregam a imagem de seu Criador.   


A apologética pode, portanto, argumentar que o conceito moderno e secular de "direitos humanos universais" é historicamente e filosoficamente parasitário da doutrina judaico-cristã da Imago Dei. Sem a base teológica de um valor outorgado pelo Criador, torna-se extremamente difícil para o naturalismo filosófico fundamentar por que a dignidade humana é inviolável e universal, em vez de ser uma convenção social ou uma questão de capacidade. A Imago Dei oferece a única base verdadeiramente robusta para a dignidade que o próprio secularismo preza.


A Harmonia dos Relatos da Criação (Gênesis 1 e 2): Uma Apologia da Consistência Bíblica: Uma crítica comum levantada contra a Bíblia é que Gênesis 1 e 2 apresentam relatos de criação contraditórios. Uma análise cuidadosa, no entanto, revela que eles são complementares, não contraditórios.   


  • Perspectivas Diferentes: Gênesis 1 oferece uma visão panorâmica, cósmica e majestosa da criação em seis dias — é a visão de "lente grande angular". Gênesis 2, por outro lado, funciona como uma "lente de zoom", focando especificamente no sexto dia e recontando a criação da humanidade de uma perspectiva mais pessoal, relacional e antropocêntrica.   


  • Propósitos Diferentes: Gênesis 1 estabelece o lugar da humanidade no cosmos. Gênesis 2 estabelece a natureza das relações humanas (com Deus, com o trabalho, entre os sexos).


  • Resolução de Aparentes Discrepâncias: As supostas contradições, como a ordem da criação de plantas e animais, podem ser resolvidas por uma exegese cuidadosa do hebraico. Por exemplo, Gênesis 1:11 descreve a criação da vegetação em geral no terceiro dia. Gênesis 2:5 afirma que "nenhuma planta do campo havia ainda brotado", usando um termo hebraico mais específico que se refere a plantas que requerem cultivo humano. Não há contradição: a vegetação geral foi criada no dia 3, mas as plantas cultiváveis não brotaram até que o homem fosse criado para lavrar o solo. Da mesma forma, Gênesis 2 descreve a criação dos animais em relação à busca de uma auxiliadora para Adão, não necessariamente reordenando a cronologia, mas recontando o evento com um propósito narrativo diferente.   


Conexões Intertextuais e Tipologia Teológica Bíblica


O tema da Imago Dei, introduzido de forma tão poderosa em Gênesis 1, não é um conceito isolado. Ele funciona como um fio dourado tecido em toda a tapeçaria das Escrituras, desde Gênesis até o Apocalipse, encontrando seu significado último e sua realização na pessoa de Jesus Cristo.


A Trajetória da Imago Dei na Escritura: De Gênesis ao Apocalipse: Após sua introdução em Gênesis 1, o conceito da imagem de Deus ressurge em momentos cruciais da narrativa bíblica.


  • Após o Dilúvio (Gênesis 9:6): Deus reafirma a santidade da vida humana, baseando a proibição do assassinato explicitamente no fato de que "Deus fez o homem à sua imagem". Isso indica que, mesmo após a Queda e a corrupção do pecado, a Imago Dei na humanidade, embora desfigurada, não foi aniquilada. Ela permanece como o fundamento da dignidade e do valor humano.


  • Nos Salmos (Salmo 8:4-6): O salmista reflete com admiração sobre o status exaltado da humanidade na criação: "Que é o homem, para que te lembres dele?... Contudo, pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés". Este salmo é um comentário poético sobre o mandato de domínio de Gênesis 1, celebrando a posição real da humanidade como vice-regente de Deus.


  • No Novo Testamento: O conceito é retomado e aprofundado, como veremos a seguir, focando em Cristo como a imagem perfeita e na salvação como a restauração dessa imagem nos crentes.


Cristo, a Imagem Perfeita do Deus Invisível: O Novo Testamento faz uma afirmação impressionante: Jesus Cristo é a imagem de Deus por excelência.


  • Colossenses 1:15: Paulo declara que Cristo "é a imagem (εἰκών - eikōn) do Deus invisível, o primogênito de toda a criação".   


  • 2 Coríntios 4:4: Paulo fala do "evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus".


  • Hebreus 1:3: O autor descreve o Filho como "o resplendor da sua glória e a expressão exata do seu ser".


Cristo é a Imago Dei em um sentido único e supremo. Enquanto Adão foi criado à imagem de Deus, Cristo é a imagem eterna e incriada de Deus. Ele revela perfeitamente o caráter e a natureza do Pai invisível ("Quem me vê a mim, vê o Pai", João 14:9). Ele é o cumprimento de tudo o que a Imago Dei em Adão deveria ser. Nele, a imagem divina não está desfigurada pelo pecado, mas é exibida em sua plenitude e perfeição.   


A Restauração da Imagem: A Soteriologia e Santificação do Crente: Se Cristo é a imagem perfeita, então o objetivo da salvação é a restauração da imagem desfigurada nos seres humanos, conformando-os à imagem de Cristo.


  • Romanos 8:29: Deus predestinou os crentes "para serem conformes à imagem de seu Filho".


  • 2 Coríntios 3:18: Pela obra do Espírito, "somos transformados de glória em glória na mesma imagem".


  • Efésios 4:24 e Colossenses 3:10: A vida cristã envolve "revestir-se do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade" e que "se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou".   


A salvação, portanto, não é meramente um perdão forense, mas um processo transformador de re-criação. O Espírito Santo trabalha na vida do crente para restaurar as qualidades morais, relacionais e espirituais da Imago Dei que foram corrompidas pelo pecado.   


A Tipologia de Adão e Cristo: O Primeiro e o Último Adão: O apóstolo Paulo, especialmente em Romanos 5 e 1 Coríntios 15, desenvolve uma profunda tipologia na qual Adão funciona como um "tipo" (τύπος - typos), ou um padrão prefigurativo, de Cristo, que é o "antítipo" correspondente.   


  • Adão, o Primeiro Homem: Ele é o cabeça federal da antiga humanidade. Seu único ato de desobediência no jardim resultou em pecado, condenação e morte para toda a raça humana que ele representava ("em Adão todos morrem").   


  • Cristo, o Último Adão: Ele é o cabeça federal da nova humanidade. Seu único ato de obediência na cruz resultou em justiça, justificação e vida para todos os que estão unidos a Ele pela fé ("em Cristo todos serão vivificados").   


Este paralelo tipológico de contraste é uma das estruturas teológicas mais importantes da Bíblia. Ele demonstra que a história que começou com a criação da humanidade à imagem de Deus em Gênesis 1, e que tragicamente deu errado em Gênesis 3, encontra sua resolução, redenção e glorioso cumprimento na pessoa e obra do "último Adão", Jesus Cristo. A criação original encontra sua re-criação Nele.


Exposição Devocional: Aplicações para a Vida Contemporânea


A análise técnica, histórica e teológica de Gênesis 1:26-28 não é um mero exercício acadêmico. As verdades contidas nestes versículos são profundamente práticas e têm o poder de transformar radicalmente a forma como nos vemos, como nos relacionamos com os outros e como vivemos no mundo. Extrair as aplicações devocionais deste texto é permitir que suas verdades fundamentais moldem nossa identidade, propósito, relacionamentos e esperança.


Identidade: Encontrando Nosso Valor como Portadores da Imagem de Deus: Em um mundo que frequentemente mede o valor humano com base em desempenho, aparência, riqueza, popularidade ou poder, a doutrina da Imago Dei oferece uma base para a identidade que é ao mesmo tempo humilhante e exaltadora.


  • Nosso valor é outorgado, não conquistado. Não somos valiosos por causa do que fazemos, mas por causa de quem somos: criaturas feitas à imagem do Deus vivo. Este fato indelével confere uma dignidade e um valor intrínsecos a cada ser humano, desde o nascituro até o idoso, independentemente de suas capacidades ou contribuições para a sociedade. Refletir sobre isso é encontrar um antídoto poderoso para a insegurança, a inveja e a cultura da comparação que permeia a sociedade moderna. Somos singulares não porque somos autônomos, mas porque fomos criados para a glória e satisfação de Deus.   


Propósito: Vivendo a Missão de Representar Deus e Administrar a Criação: A vida não é sem sentido. Gênesis 1:26-28 revela que temos uma vocação divina, um propósito que dá significado a todas as nossas atividades.


  • Somos embaixadores de Deus. Como Seus portadores de imagem, nossa principal tarefa é refletir Seu caráter — Seu amor, justiça, misericórdia, sabedoria e criatividade — em todas as nossas esferas de influência.


  • Somos mordomos da criação. O Mandato Cultural nos chama a participar da obra contínua de Deus, cuidando do meio ambiente, cultivando a terra, construindo sociedades justas, criando beleza através das artes e buscando o conhecimento através da ciência. Nosso trabalho, seja ele qual for, pode ser visto como uma forma de adoração, uma maneira de cumprir o comissionamento original de Deus. Isso eleva o mundano ao sagrado e nos chama a uma responsabilidade ecológica e social.   



Relacionamento - Refletindo a Comunhão Divina em Nossas Conexões Humanas: Fomos criados à imagem de um Deus que existe em eterna comunhão — Pai, Filho e Espírito Santo. Portanto, fomos feitos para o relacionamento.


  • A solidão não é nosso estado original. A afirmação "homem e mulher os criou" aponta para nossa necessidade fundamental de comunidade. Nossos relacionamentos em famílias, amizades, igrejas e na sociedade são arenas onde a imagem de Deus pode ser vivida e refletida. O casamento, em particular, é projetado para ser um modelo da glória relacional de Deus.   


  • Somos chamados a amar o próximo. Porque cada pessoa que encontramos, sem exceção, é um portador da imagem de Deus, somos chamados a tratá-los com dignidade, respeito e amor. A Imago Dei destrói todas as bases para o racismo, o sexismo e qualquer outra forma de preconceito, chamando-nos a ver o reflexo do Criador no rosto do outro.


Esperança: A Promessa da Restauração Plena da Imago Dei na Glória: Vivemos em um mundo onde a imagem de Deus está tragicamente desfigurada pelo pecado — em nós mesmos, nos outros e nas estruturas quebradas da sociedade. Vemos egoísmo em vez de amor, opressão em vez de domínio justo, e divisão em vez de comunhão.


  • O Evangelho é a promessa de re-criação. A boa nova de Jesus Cristo é que Deus não abandonou Seu projeto original. Em Cristo, a imagem perfeita, Deus iniciou a obra de restaurar Sua imagem em nós. Através da fé Nele, somos feitos novas criaturas (2 Coríntios 5:17).   


  • Nossa esperança final é a conformidade com Cristo. A jornada cristã é um processo de ser progressivamente transformado à semelhança de Jesus. Nossa esperança não está em nossa própria capacidade de nos aperfeiçoar, mas na promessa de que um dia, na nova criação, esta transformação será completa. "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é" (1 João 3:2). Esta esperança nos sustenta em meio às lutas presentes e nos motiva a cooperar com a obra do Espírito Santo, enquanto aguardamos o dia em que a Imago Dei brilhará em nós, plena e sem mácula, para a glória de Deus. 

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