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A natureza do pecado


Introdução: O Locus Teológico da Hamartiologia


A investigação da doutrina do pecado, tecnicamente designada como Hamartiologia, não constitui um mero apêndice sombrio à antropologia teológica, mas representa o diagnóstico fundamental da condição existencial humana, sem o qual a Soteriologia (doutrina da salvação) torna-se ininteligível e a Cristologia (doutrina de Cristo) perde sua necessidade ontológica. A compreensão da profundidade da queda, a extensão da corrupção moral e a natureza da rebelião humana determinam, em uma relação de causalidade direta, a magnitude da graça necessária para a redenção. Como observa a tradição reformada e evangélica, uma antropologia que subestima a radicalidade do pecado resulta invariavelmente em uma soteriologia sinergista ou humanista, enquanto uma percepção bíblica da depravação exige uma intervenção divina monergista.  


Este relatório propõe-se a uma dissecção exaustiva da teologia do pecado, examinando suas definições lexicais e teológicas, as tentativas filosóficas de explicar sua origem (teodiceia), as controvérsias históricas fundamentais — especificamente o Pelagianismo e a síntese Católica Romana — e a fenomenologia existencial da "carne" (sarx). A análise sintetiza dados de teólogos sistemáticos proeminentes como Herman Bavinck, Louis Berkhof, Charles Hodge, Wayne Grudem, Millard Erickson, Norman Geisler e J. Rodman Williams, oferecendo uma perspectiva que integra a teologia histórica, exegética e sistemática.


1. A Natureza do Pecado: Fenomenologia Ética e Ontologia da Rebelião


A definição de pecado na teologia sistemática transcende a transgressão de normas sociais ou falhas éticas subjetivas. O pecado é, em sua essência, uma realidade teocêntrica; é impossível defini-lo corretamente à parte da relação da criatura com o Criador. Não se trata apenas de um erro horizontal, mas de uma ruptura vertical.


1.1 O Caráter Religioso e a Definição Teocêntrica


O pecado não é uma substância física, uma "coisa" criada, nem meramente uma finitude metafísica. Herman Bavinck argumenta vigorosamente que o pecado é uma força religiosa e ética, uma ruptura na relação pactual entre Deus e o homem. Não reside na matéria ou no corpo físico — refutando concepções gnósticas — mas permeia o caráter moral. É uma realidade que se manifesta como uma deformidade ética de uma natureza originalmente boa.  


A teologia reformada, representada por Louis Berkhof, define o pecado como uma "falta de conformidade com a lei moral de Deus, seja em ato, disposição ou estado". Esta definição é crucial e tripartite:  


  1. Ato: O pecado envolve volições e ações externas concretas.


  2. Disposição: Inclui as inclinações internas, afetos e desejos que precedem o ato.


  3. Estado: Refere-se à condição legal e moral do ser humano diante de Deus, independentemente de seus atos conscientes momentâneos.


John Frame expande essa compreensão aplicando uma abordagem multiperspectivista. O pecado pode ser visto sob uma perspectiva normativa (falha em obedecer à lei de Deus), uma perspectiva situacional (fracasso em alcançar o objetivo da glória de Deus e do Seu reino) e uma perspectiva existencial (uma corrupção do caráter interior e da fé). O pecado é, portanto, qualquer fracasso em conformar-se ao caráter moral de Deus, seja por ação ou omissão, atitude ou natureza.  


A gravidade do pecado reside no fato de ser direcionado contra Deus. Norman Geisler e J. Rodman Williams enfatizam que, embora o pecado tenha efeitos horizontais devastadores (contra o próximo e a sociedade), sua ofensa primária é vertical. O Rei Davi, após cometer adultério e assassinato, clamou: "Contra ti, contra ti somente pequei" (Sl 51:4), reconhecendo que a infração suprema é contra a santidade do Legislador divino. O pecado é uma afronta pessoal a um Deus pessoal, uma tentativa de "destronar" o Criador e estabelecer a autonomia da criatura.  


1.2 Terminologia Bíblica e Nuances Lexicais


A riqueza da terminologia bíblica impede uma definição reducionista. A análise lexical revela a complexidade multifacetada da maldade humana:

Termo Bíblico (Hebraico/Grego)

Significado Literal

Implicação Teológica

Hata' / Hamartia

Errar o alvo.

Fracasso em atingir o padrão divino de justiça; não é apenas "tentar e falhar", mas apontar para o alvo errado.

Avon / Adikia

Iniquidade, tortuosidade.

Distorção do caráter; falta de retidão; estado de ser "injusto" ou curvado sobre si mesmo.

Pasha / Parabasis

Transgressão, rebelião.

Cruzar deliberadamente uma linha proibida; violação de um pacto ou lei conhecida; revolta ativa.

Asebeia

Impiedade.

Falta de reverência a Deus; viver como se Deus não existisse; a antítese da religião verdadeira.

Anomia

Ilegalidade.

Desprezo pela lei; viver sem lei ou como uma lei para si mesmo (autonomia radical).

Ra' / Kakos

Mal, calamidade.

O aspecto destrutivo e nocivo do pecado; a qualidade intrínseca daquilo que é oposto ao bem.

Erickson observa que esses termos, coletivamente, pintam um quadro de fracasso, desvio, rebelião e distorção. O pecado não é apenas "fazer algo errado", mas é uma condição de hostilidade e uma falha em cumprir o propósito teleológico da existência humana.  


1.3 O Pecado como Estado (Habitus) e Ato (Actus)


Uma distinção fundamental na teologia sistemática, frequentemente obscurecida na teologia moderna, é a dualidade do pecado como habitus (estado/disposição) e actus (ato). A tradição agostiniana e reformada insiste que o pecado não consiste apenas em atos voluntários conscientes.


Charles Hodge elucida que a depravação não é uma mera série de escolhas isoladas, mas uma corrupção inerente à natureza humana que inclina a vontade para o mal antes de qualquer volição consciente. O coração humano — o centro psicossomático da existência — é a fonte de onde procedem os maus desígnios (Mt 15:19; Jr 17:9). O homem peca porque é pecador; a natureza precede e determina a ação. Esta disposição pecaminosa é, em si mesma, culpável diante de Deus. Isto contrasta com visões que limitam o pecado apenas ao que é feito conscientemente com "pleno consentimento", uma redução que ignora a cegueira moral que é, ela mesma, um juízo sobre o pecador.  


1.4 Universalidade e Depravação Total


A doutrina da depravação total é um corolário necessário da natureza do pecado como estado. O termo "total" é frequentemente mal compreendido e requer precisão teológica:


  1. Não é Depravação Absoluta: Não significa que o homem é tão mau quanto poderia ser, nem que ele não tem qualquer "bondade civil" ou capacidade de realizar atos externamente benevolentes.  


  2. Extensão Abrangente: Significa que o pecado afetou todas as faculdades da natureza humana: intelecto, vontade, emoções e corpo físico. Não há uma "ilha de justiça" ou uma centelha divina intocada na alma humana. A mente está obscurecida (Ef 4:18), a vontade escravizada (Rm 6:17) e a consciência cauterizada.  


  3. Incapacidade Espiritual: Significa que o homem natural é incapaz de fazer qualquer bem espiritual que agrade a Deus (Rm 8:8). As obras dos não regenerados, embora possam ser socialmente úteis ("virtudes esplêndidas"), são pecaminosas coram Deo (diante de Deus) porque não procedem da fé, não estão em conformidade com a lei divina em sua profundidade e não visam a glória de Deus.  


A universalidade do pecado é um dado empírico e revelacional. Romanos 3:23 declara que "todos pecaram". Berkhof e Bavinck argumentam que essa universalidade não pode ser explicada por imitação (como propôs Pelágio) ou por condicionamento ambiental, pois é constante em todas as culturas, épocas e condições educacionais. Ela aponta para uma raiz hereditária comum e uma solidariedade corporativa da raça.  


2. Teorias Filosóficas sobre a Natureza e Origem do Mal


A teologia cristã histórica sempre interagiu com tentativas filosóficas de explicar o "problema do mal" (Teodiceia). Muitas dessas teorias tentam racionalizar a origem do pecado sem recorrer à narrativa histórica da Queda, resultando frequentemente na diluição da responsabilidade moral.


2.1 Dualismo e Gnosticismo: O Mal como Substância Eterna


O dualismo, historicamente associado ao Maniqueísmo, Zoroastrismo e a seitas gnósticas, postula a existência de dois princípios coeternos: o Bem (Espírito/Luz) e o Mal (Matéria/Trevas). Nesta cosmovisão, o pecado é uma consequência inevitável da existência física; a alma é pura, mas está tragicamente aprisionada em um corpo material intrinsecamente mau.  


Refutação Teológica: A ortodoxia cristã rejeita esta visão baseada na doutrina da creatio ex nihilo (criação a partir do nada). A matéria foi criada por Deus e declarada "muito boa" (Gn 1:31). O mal não é eterno, nem é uma substância. Bavinck critica severamente esta posição, notando que ela torna o pecado uma necessidade ontológica, o que absolveria o homem da responsabilidade ética e transferiria a culpa para o Criador ou para a estrutura do universo. Se o corpo fosse mau, a Encarnação de Cristo seria impossível ou uma contaminação da divindade.  


2.2 A Teoria da Privação (Privatio Boni): O Mal como Deficiência


Desenvolvida por Agostinho e refinada por Tomás de Aquino, esta teoria define o mal não como uma essência ou substância criada, mas como uma privação de um bem que deveria estar presente. Assim como a ferrugem não é uma substância em si, mas a corrupção do ferro, e a cegueira é a ausência da visão em um olho, o mal é a ausência da retidão e da ordem devida em uma vontade criada.  


Norman Geisler defende esta visão como essencial para a coerência do monoteísmo:


  • Deus criou todas as coisas.


  • O mal é algo real (não uma ilusão).


  • Se o mal fosse uma "coisa" (substância), Deus teria criado o mal.


  • Portanto, o mal não é uma substância, mas uma corrupção de uma substância boa.


Isso mantém a santidade de Deus (Ele não criou o mal) e a realidade do mal (é uma privação real). No entanto, teólogos reformados como Bavinck e Berkhof, embora aceitem a privação como categoria metafísica, alertam que ela não deve obscurecer a realidade dinâmica do pecado. O pecado não é passivo; é uma força ativa de rebelião. É "privação" no sentido ontológico, mas "ativo" e destrutivo no sentido ético e religioso.  


2.3 O Mal como Finitude (Leibniz e Spinoza)


Gottfried Wilhelm Leibniz, em sua Teodiceia, propôs que o mal é uma consequência metafísica necessária da finitude das criaturas. Como as criaturas não são Deus, elas são limitadas; essa limitação leva inevitavelmente a falhas, que constituem o "mal metafísico". Spinoza radicalizou isso em seu panteísmo, sugerindo que "pecado" é apenas nossa percepção inadequada e fragmentada da realidade; sub specie aeternitatis (sob a perspectiva da eternidade), tudo é necessário e parte da perfeição de Deus.  


Análise Crítica: A teologia sistemática refuta essa visão distinguindo finitude de pecado. Adão era finito antes da Queda, mas não era pecador. Os anjos eleitos são finitos, mas impecáveis. Jesus Cristo assumiu uma humanidade finita, mas sem pecado. Erickson nota que equiparar finitude com pecado tornaria a criação um ato necessariamente mau e a redenção impossível, pois para deixar de pecar, o homem teria que se tornar infinito (Deus).  


2.4 Sensualidade e Natureza Animal (Schleiermacher e Evolucionismo)


Friedrich Schleiermacher, pai da teologia liberal, localizou o pecado na tensão entre a consciência sensorial e a consciência de Deus. Para ele, o pecado é a sobrevivência da natureza animal do homem que ainda não foi dominada pelo espírito em evolução. Teorias evolucionistas modernas ecoam isso, vendo o pecado como "resquícios" de instintos de sobrevivência (agressão, territorialidade) que foram úteis no estágio animal, mas são desajustados no estágio humano social.  

Esta visão nega a historicidade da Queda e inverte a narrativa bíblica: o homem não caiu de um estado superior, mas está ascendendo de um estado inferior. Além disso, falha em explicar os pecados "espirituais" que não têm base na sensualidade animal, como o orgulho, a inveja demoníaca e a idolatria intelectual.  


2.5 Existencialismo e a Ansiedade da Liberdade


Paul Tillich reinterpreta o pecado como "alienação existencial". A Queda não é histórica, mas um símbolo da transição humana da essência (o que o homem deveria ser, sonhando na inocência) para a existência (a realidade da vida). O pecado é o estranhamento inevitável do homem de seu "Fundo do Ser" no momento em que ele exerce sua liberdade. Reinhold Niebuhr localiza o pecado na "ansiedade" gerada pela tensão entre a finitude humana (ser pó) e sua liberdade (transcender a natureza). O pecado é a tentativa do homem de negar sua finitude através do orgulho ou fugir de sua liberdade através da sensualidade.  


Embora psicologicamente perspicazes, estas teorias tendem a "ontologizar" o pecado, tornando-o uma parte necessária da maturação humana, em vez de uma intrusão ética evitável e culpável.


3. O Conceito Pelagiano: Autonomia e Negação do Pecado Original


O Pelagianismo, surgido no início do século V através do monge britânico Pelágio, representa a antítese antropológica mais radical à doutrina da graça soberana. Seu impacto histórico foi tão profundo que obrigou a igreja a definir dogmaticamente a relação entre livre-arbítrio, pecado e graça.


3.1 A Rejeição do Pecado Original e da Corrupção Hereditária


O sistema de Pelágio baseia-se na premissa de que a responsabilidade moral implica habilidade moral (dever implica poder). Portanto, ele rejeitou a doutrina do pecado original. Para Pelágio, o pecado de Adão afetou apenas a ele mesmo, e não a raça humana. Não há transmissão de culpa (reatus) nem de corrupção (macula).  

Consequentemente:


  • Cada criança nasce no mesmo estado de inocência e neutralidade moral em que Adão foi criado (uma tabula rasa).


  • Não existe uma natureza pecaminosa herdada.


  • O pecado não é um estado, mas apenas atos isolados da vontade.


  • A universalidade do pecado é explicada pela "imitação" (imitatio) do mau exemplo de Adão e pelo hábito social, não por propagação (propagatio).  


3.2 O Livre-Arbítrio como Liberdade de Indiferença


Pelágio defendia uma visão libertária extrema conhecida como "liberdade da indiferença" (liberum arbitrium indifferentiae). A vontade humana possui a capacidade inalienável e perpétua de, a qualquer momento, escolher o bem ou o mal, independentemente de hábitos passados ou caráter. A vontade está sempre em equilíbrio, nunca escravizada.  


Dessa antropologia deriva uma soteriologia naturalista. Se a vontade é capaz de escolher o bem sem transformação interna, a "graça" de Deus não precisa ser uma força recriadora (regeneração monergista). Para Pelágio, "graça" refere-se a auxílios externos: a razão natural, a Lei de Moisés, o ensino de Cristo e seu exemplo. O homem pode, teoricamente, viver sem pecado e alcançar a salvação pelo exercício de sua vontade natural, auxiliada pela instrução divina.  


3.3 A Resposta Agostiniana e o Julgamento Histórico


Agostinho de Hipona respondeu que esta visão esvaziava a cruz de Cristo. Se o homem pode se salvar ou iniciar sua salvação, a morte de Cristo é desnecessária ou meramente exemplar. Agostinho argumentou, com base em Romanos e João, que após a Queda, o homem perdeu a libertas (liberdade moral para fazer o bem espiritual), retendo apenas o arbitrium (capacidade de escolha), que agora está escravizado ao pecado (non posse non peccare - não capaz de não pecar).  


O Concílio de Cartago (418 d.C.) e o Concílio de Éfeso (431 d.C.) condenaram o Pelagianismo como heresia. No entanto, variantes como o Semipelagianismo (que ensinava que o homem está doente, mas não morto, e pode dar o primeiro passo em direção a Deus) persistiram, sendo posteriormente abordadas no Sínodo de Orange (529 d.C.), que afirmou a necessidade da graça preveniente para qualquer movimento em direção ao bem.  


4. O Conceito Católico: O Dualismo Natureza-Graça


A teologia Católica Romana, consolidada na Idade Média e dogmatizada no Concílio de Trento (Contra-Reforma), desenvolveu uma antropologia que difere tanto do Pelagianismo quanto da Reforma Protestante. Esta visão depende da distinção escolástica entre "pura natureza" e "dons sobrenaturais".


4.1 O Donum Superadditum e a Justiça Original


Segundo a teologia católica clássica (interpretada por Tomás de Aquino e Belarmino), Adão foi criado em um estado de integridade composto por dois níveis:


  1. Pura Natureza (Puris Naturalibus): Corpo e alma com faculdades naturais (razão, vontade). Por ser finito e composto de matéria e espírito, o homem tinha uma tendência natural ao conflito entre os apetites inferiores (carne) e a razão superior.


  2. Dom Sobrenatural (Donum Superadditum): A justiça original não era intrínseca à natureza humana, mas um "freio dourado" ou um dom da graça acrescentado para manter a concupiscência sob controle e elevar o homem à comunhão com Deus.  


Herman Bavinck observa que, nesta visão, a justiça original é para o homem o que a roupa é para o corpo — um adorno externo, não a própria saúde do corpo.  


4.2 A Queda e a Redefinição do Pecado Original


Na Queda, o homem perdeu o donum superadditum. Ele reverteu ao estado de "pura natureza". O que ocorreu não foi uma corrupção radical de suas faculdades naturais (como ensina a Reforma), mas a perda do controle sobrenatural. A vontade foi enfraquecida e o intelecto obscurecido, mas a natureza humana permaneceu essencialmente intacta.  


A consequência crítica desta visão é a definição de Pecado Original. Para Roma, o pecado original é primariamente a privação da justiça original. A concupiscência (o desejo desordenado, a luta da carne contra o espírito) que permanece após a queda não é, em si mesma, pecado no sentido estrito, mas o fomes peccati (o estopim do pecado). Ela provém do pecado e inclina ao pecado, mas só se torna pecado formal quando a vontade consente deliberadamente com ela.  


4.3 O Efeito do Batismo e o Debate Tridentino


O Concílio de Trento declarou anátema quem afirmasse que a concupiscência nos batizados é verdadeiramente pecado. Para Roma, o batismo remove a reatus (culpa) e a mancha do pecado original, restaurando o estado de graça. A concupiscência permanece como um campo de batalha moral para o cristão ganhar méritos ao resisti-la.  


A Divergência Protestante: Lutero, Calvino e os reformadores rejeitaram essa distinção "natureza-graça". Para eles, a justiça original era natural (intrínseca) ao homem criado à imagem de Deus. Portanto, a perda dessa justiça resultou na corrupção total da natureza, não apenas na perda de um dom extra. Consequentemente, a concupiscência — a inclinação interna involuntária para o mal — é pecado, pois viola o mandamento "não cobiçarás" e reflete uma natureza contrária à santidade de Deus, independentemente do consentimento da vontade. A visão católica permite uma antropologia mais otimista que fundamenta a cooperação sinergista na salvação e a possibilidade de mérito, enquanto a visão protestante insiste na incapacidade total que requer graça soberana.  


5. A Carne / Carnalidade (Sarx): Psicologia e Teologia do Pecado


O termo grego sarx (carne) é o eixo da antropologia paulina e da compreensão existencial do pecado. Sua interpretação exige cuidado para evitar equívocos gnósticos que equiparam o corpo físico ao mal.


5.1 Distinção Lexical: Sarx vs. Soma


No Novo Testamento, sarx possui um campo semântico vasto. Pode referir-se ao tecido físico, ao corpo humano, à descendência biológica ou à humanidade em sua fragilidade. No entanto, em seu uso ético-teológico distintivo em Paulo (e.g., Rm 7, 8; Gl 5), sarx denota a natureza humana caída em sua totalidade, a pessoa inteira orientada para longe de Deus e centrada em si mesma.  


É imperativo distinguir sarx (carne, no sentido ético) de soma (corpo). A teologia bíblica afirma que o corpo físico é bom, criado por Deus, templo do Espírito Santo e destinado à ressurreição. A "carne", como princípio de pecado, usa o corpo (soma) como instrumento de rebelião, mas também usa a mente, a vontade e as emoções. Ferreira e Myatt observam que as "obras da carne" em Gálatas 5:19-21 incluem pecados "espirituais" como idolatria, feitiçaria, dissensões, invejas e orgulho, não apenas pecados corporais como imoralidade sexual e bebedeira. Portanto, sarx não é a materialidade, mas a orientação pecaminosa da natureza adâmica.  


5.2 A Carne como Poder Dinâmico e Opositor


J. Rodman Williams, escrevendo a partir de uma perspectiva pentecostal/carismática, analisa a sarx não apenas como um estado estático, mas como um poder ativo e hostil que "milita" contra o Espírito Santo (Gl 5:17). A carne é uma disposição agressiva de inimizade contra Deus (Rm 8:7). Mesmo no crente regenerado, a "carne" permanece como uma força residual que busca recuperar o controle, embora não seja mais o poder dominante ou definidor da identidade do cristão (Rm 6:14).  


Esta compreensão dinâmica é vital para a doutrina da santificação progressiva. A vida cristã é descrita como um conflito incessante entre duas esferas de poder: a esfera da carne e a esfera do Espírito. A "carnalidade" (1 Co 3:1-3) descreve o estado anômalo do crente que, embora posicionalmente "no Espírito", funcionalmente vive e pensa de acordo com os padrões da velha natureza decaída.


5.3 Implicações para a Santificação


Identificar a sarx como a sede da corrupção total reforça a necessidade de uma santificação que não seja meramente ascética (punição do corpo) mas pneumatológica (poder do Espírito).


  • Falsa Solução: O ascetismo (Cl 2:23) trata o corpo como o inimigo, levando a regras de "não toques, não proves". Isso falha porque a carne reside também na vontade orgulhosa que pratica o ascetismo.


  • Solução Bíblica: A "crucificação da carne" (Gl 5:24) e o "fazer morrer os feitos do corpo pelo Espírito" (Rm 8:13). Williams enfatiza que a vitória sobre a carnalidade não vem pelo fortalecimento da vontade natural (que é carne), mas pela rendição e dependência contínua do Espírito Santo, que inaugura uma nova dinâmica de vida.


Conceito

Definição de Sarx (Carne)

Localização do Pecado

Solução Proposta

Gnosticismo/Dualismo

Matéria física inerentemente má.

O corpo físico (prisão).

Libertação do corpo (morte/gnose).

Pelagianismo

Hábito ou fraqueza física.

A vontade (atos isolados).

Educação, esforço moral, exemplo.

Catolicismo (Trento)

Sensualidade não governada.

Apetites inferiores (sensitivos).

Graça sacramental + mérito + penitência.

Teologia Reformada

Natureza caída integral (mente+corpo).

O "coração" e a natureza total.

Regeneração e mortificação progressiva.

Teologia Pentecostal

Poder hostil ao Espírito.

Natureza adâmica ativa.

Batismo no Espírito e andar no Espírito.

6. Consequências e a Dimensão Social do Pecado


A hamartiologia estende-se para além da culpa individual, abrangendo as consequências cósmicas e sociais da rebelião humana.


6.1 A Dimensão Social e Estrutural


Erickson e teólogos contemporâneos destacam que o pecado não é apenas um ato privado, mas se cristaliza em estruturas sociais iníquas. O egoísmo individual, quando agregado, torna-se injustiça sistêmica, opressão econômica e corrupção institucional. O conceito bíblico de "mundo" (kosmos) frequentemente designa este sistema organizado de hostilidade a Deus que permeia a cultura, a política e a economia. A teologia da libertação enfatizou este aspecto (pecado estrutural), embora por vezes às custas da responsabilidade individual; a teologia evangélica busca equilibrar a culpa pessoal com o reconhecimento de que o pecado contamina as relações e instituições (pecado corporativo).  


6.2 A Maldição Cósmica e a Morte


O pecado trouxe consequências catastróficas para a criação. A terra foi amaldiçoada por causa de Adão (Gn 3:17), sujeita à vaidade e à corrupção (Rm 8:20-22). Desastres naturais, doenças e a predação no reino animal são reflexos da desordem moral introduzida pelo administrador da criação (o homem).  


A consequência penal suprema é a morte, em sua tríplice dimensão:


  1. Morte Espiritual: A separação imediata da comunhão com Deus e a perda da justiça original (Ef 2:1).


  2. Morte Física: A separação da alma e do corpo, que não é natural, mas o "salário do pecado" (Rm 6:23).


  3. Morte Eterna (Segunda Morte): A separação final e irreversível de Deus no julgamento, a consumação da ruína humana.  


Conclusão: A Síntese Teológica


A análise exaustiva dos dados bíblicos, históricos e filosóficos confirma que a doutrina do pecado é o eixo sobre o qual gira a compreensão cristã da realidade. As teorias filosóficas que reduzem o mal à finitude ou à ignorância falham em capturar a malignidade ética e a hostilidade pessoal do pecado contra um Deus Santo.


O Pelagianismo, ao negar o pecado original, oferece uma visão superficial que torna a cruz de Cristo desnecessária. O Catolicismo Romano, através de sua distinção natureza-graça, cria uma antropologia onde a corrupção é minimizada, permitindo o sinergismo. Em contraste, a teologia reformada e evangélica histórica diagnostica o homem como radicalmente corrompido (sarx), morto em delitos e pecados, necessitando de uma ressurreição espiritual (regeneração monergista).


A carne, como a totalidade da natureza caída, permanece o inimigo interno do crente, exigindo uma dependência contínua da graça do Espírito Santo para a mortificação do pecado. A gravidade do diagnóstico hamartiológico, portanto, não serve para levar ao desespero mórbido, mas para magnificar a glória da graça divina, estabelecendo que a salvação — do início ao fim — pertence inteiramente ao Senhor (Soli Deo Gloria).

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