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A Caverna de Macpela | GĂȘnesis 23:1–20


GĂȘnesis 23 descreve a morte de Sara, esposa de AbraĂŁo, e os cuidados tomados por AbraĂŁo para conseguir um local de sepultamento para ela na terra de CanaĂŁ. Sara faleceu aos 127 anos em Quiriate-Arba (Hebrom), em CanaĂŁ. Notavelmente, Sara Ă© a Ășnica mulher na BĂ­blia cuja idade de morte Ă© registrada, o que destaca sua importĂąncia singular entre as matriarcas. Ela morreu quando Isaque tinha 37 anos, trĂȘs anos antes deste se casar. AbraĂŁo, que possivelmente estava em Berseba (onde o capĂ­tulo anterior o deixou), veio a Hebrom para lamentar e chorar por Sara. ApĂłs um perĂ­odo de luto, AbraĂŁo “levantou-se de diante de sua morta” (v.3), isto Ă©, suspendeu seu pranto para tratar do necessĂĄrio sepultamento. Esse detalhe sutil jĂĄ antecipa o foco do capĂ­tulo: menos nos detalhes do luto e mais na negociação por um sepulcro, pois o texto dedica poucos versos ao choro de AbraĂŁo, mas muitos Ă  aquisição da terra.


A passagem estĂĄ organizada em uma estrutura de cena bem definida. Os versĂ­culos iniciais (v.1–2) formam a introdução, noticiando a morte de Sara e o lamento de AbraĂŁo. Em seguida, ocorre um longo diĂĄlogo de negociação entre AbraĂŁo e os habitantes locais, dividindo-se em trĂȘs ciclos de conversas: (1) AbraĂŁo e os filhos de Hete em geral (v.3–6), (2) AbraĂŁo com os lĂ­deres do povo e Efrom, o heteu, indiretamente (v.7–11) e (3) AbraĂŁo diretamente com Efrom, diante das testemunhas, acertando os termos finais (v.12–16). Por fim, os versĂ­culos 17–20 concluem a cena com a formalização da compra e o sepultamento de Sara. Essa estrutura em trĂȘs diĂĄlogos sucessivos dĂĄ Ă  narrativa o carĂĄter de um “contrato” estabelecido passo a passo, conforme observado por estudiosos. De fato, o texto emprega linguagem jurĂ­dica e repetição de fĂłrmulas tĂ­picas de contratos antigos, enfatizando o aspecto legal e pĂșblico do acordo. Por exemplo, cada etapa da negociação Ă© introduzida formalmente (“levantou-se AbraĂŁo e falou...”, “Efrom respondeu...”) e ocorre “à porta da cidade”, isto Ă©, diante dos habitantes e autoridades locais, como era costume nos negĂłcios jurĂ­dicos do antigo Oriente PrĂłximo.


HĂĄ tambĂ©m um cuidado literĂĄrio com palavras-chave repetidas que reforçam o tema central. ExpressĂ”es relacionadas Ă  morte e sepultamento de Sara ocorrem diversas vezes – por oito vezes o texto fala em “sepultar a minha/sua morta”. Essa repetição contĂ­nua da palavra “morta” mantĂ©m diante do leitor a urgĂȘncia da situação: AbraĂŁo precisa de um local para enterrar imediatamente sua falecida esposa. Igualmente, o verbo hebraico qabar (sepultar) aparece oito vezes, e a palavra “sepulcro” (ou “propriedade de sepultura”) cinco vezes, destacando que o intuito de AbraĂŁo nĂŁo Ă© meramente encontrar um tĂșmulo temporĂĄrio, mas estabelecer uma posse permanente para sepultamento. Outra palavra muito usada Ă© “dar” – aparece sete vezes, com sutis diferenças de uso: nos lĂĄbios de AbraĂŁo significa pagar/vender, enquanto nos lĂĄbios de Efrom significa conceder/doar. Essa alternĂąncia prepara o leitor para o jogo de cortesias da negociação, em que Efrom oferece “dar” o campo, mas AbraĂŁo insiste em pagar o preço integral. TambĂ©m termos como “ouvir” surgem vĂĄrias vezes, em especial no clĂ­max (v.16, literalmente “AbraĂŁo ouviu Efrom”, ou seja, concordou com a oferta), e referĂȘncias aos “ouvidos” e “olhos” das testemunhas reforçam o cenĂĄrio pĂșblico e transparente do acordo.


Em suma, a estrutura literĂĄria de GĂȘnesis 23 enfatiza que nĂŁo se trata apenas do relato de uma morte, mas sobretudo da aquisição legal de um pedaço da Terra Prometida. Como bem observa o comentarista Gordon Wenham, “o ponto de vista do narrador nĂŁo focaliza a morte de Sara, mas a firme e obrigatĂłria procura de AbraĂŁo por uma sepultura que ancorarĂĄ seus descendentes na Terra Prometida”. A negociação detalhada e formal serve para estabelecer de modo incontestĂĄvel que AbraĂŁo obtĂ©m posse legĂ­tima da caverna e do campo de Macpela, inaugurando assim a realização concreta da promessa da terra, ainda que de forma inicial e simbĂłlica.


Negociando com os Hititas: Pedido, Oferta e Compra


AbraĂŁo era estrangeiro em CanaĂŁ e nĂŁo possuĂ­a nenhum terreno ali – atĂ© entĂŁo vinha vivendo em tendas, como nĂŽmade, pela fĂ© nas promessas de Deus (cf. Hb 11:9). Diante da morte de Sara, ele precisa providenciar um tĂșmulo. Embora entristecido, ele age com ponderação e fĂ©. Dirigindo-se aos habitantes locais – identificados como “filhos de Hete” (ou seja, hititas) – AbraĂŁo faz um pedido humilde e objetivo: “Sou estrangeiro e peregrino entre vĂłs; dai-me a posse de um sepulcro convosco, para que eu sepulte a minha morta” (v.4). VĂĄrias observaçÔes emergem desse breve discurso. Primeiro, AbraĂŁo se reconhece “estrangeiro e peregrino” naquela terra. Essa dupla expressĂŁo (em hebraico ger e toshav) significa um residente forasteiro, alguĂ©m sem cidadania plena ou direitos de propriedade. Com essa frase, AbraĂŁo demonstra humildade e realidade: apesar de Deus ter prometido a terra a ele, no presente ele nĂŁo passa de um morador sem terra, dependente da boa vontade dos nativos. De fato, em CanaĂŁ os clĂŁs familiares possuĂ­am as terras, e estrangeiros dificilmente podiam adquirir propriedade, a nĂŁo ser talvez por alianças matrimoniais ou acordos excepcionais. (Mais tarde, GĂȘnesis 34:10,21 sugere que os siquemitas sĂł admitiriam os israelitas como coprossuĂĄrios da terra se houvesse casamentos entre eles – condição inaceitĂĄvel para a famĂ­lia de JacĂł. AbraĂŁo, por sua vez, repudia qualquer ideia de mesclar-se aos cananeus por casamento, cf. Gn 24:3; 27:46.) Assim, seu status de peregrino reforça a dificuldade do momento: ele nĂŁo tem onde sepultar sua esposa. Mesmo assim, AbraĂŁo nĂŁo exige nem reivindica nada indevidamente; ele pede: “dai-me uma posse de sepultura entre vĂłs”. O termo “posse de sepultura” (achuzat-qever em hebraico) indica propriedade perpĂ©tua de um tĂșmulo. Ele nĂŁo estĂĄ pedindo apenas um espaço emprestado para aquela ocasiĂŁo, mas quer comprar oficialmente um terreno funerĂĄrio. É significativo que a palavra achuzah (“possessĂŁo, propriedade”) seja a mesma usada nas promessas divinas de dar a terra de CanaĂŁ como “posse” permanente aos descendentes de AbraĂŁo (cf. Gn 17:8). Ou seja, AbraĂŁo busca um pequeno cumprimento imediato da promessa de Deus, adquirindo um pedaço da terra para ali firmar suas raĂ­zes familiares por geraçÔes (ainda que seja um cemitĂ©rio).


Os moradores hititas respondem de forma respeitosa e generosa a AbraĂŁo. Em coro, eles lhe dizem: “Ouve-nos, meu senhor: prĂ­ncipe de Deus Ă©s tu entre nĂłs; em um dos melhores dos nossos sepulcros sepulta a tua morta; nenhum de nĂłs te negarĂĄ o seu sepulcro, para sepultar a tua morta” (v.6). Chamar AbraĂŁo de “prĂ­ncipe de Deus” (nesí’ Elohim) Ă© reconhecĂȘ-lo como um homem nobres e abençoado por Deus. Poderia ser traduzido tambĂ©m como “prĂ­ncipe poderoso”, mas a menção de “Deus” implica que atĂ© os estrangeiros percebiam que AbraĂŁo tinha um favor divino especial sobre si – afinal, sua prosperidade e conduta eram notĂłrias (ele havia derrotado reis em Gn 14, intercedido eficazmente por Sodoma em Gn 18, e Deus estava claramente com ele). Assim, embora AbraĂŁo se coloque abaixo deles como estrangeiro, eles o colocam acima, honrando-o como um “grande prĂ­ncipe” em seu meio. Esse contraste Ă© notado por comentaristas: “AbraĂŁo se pĂŽs no pĂ© da escala social, e eles o puseram no topo”. HĂĄ aqui um cumprimento da promessa de Deus de engrandecer o nome de AbraĂŁo (Gn 12:2) – atĂ© os gentios o reconhecem.


AlĂ©m do tĂ­tulo honroso, os hititas oferecem livre acesso aos seus tĂșmulos: “no melhor dos nossos sepulcros sepulta a tua morta”. Isso equivale a dizer: “Escolha qualquer sepultura de nossas necrĂłpoles familiares, que a cederemos para vocĂȘ enterrar Sara”. Essa resposta generosa revela estima e tambĂ©m o desejo de ajudar AbraĂŁo em seu momento de necessidade. No antigo Oriente PrĂłximo, mostrar hospitalidade e respeito pelos mortos eram deveres importantes, e eles estĂŁo dispostos a acomodar AbraĂŁo. Contudo, percebe-se que a oferta, por mais benevolente que seja, nĂŁo atende ao cerne do pedido de AbraĂŁo. Eles oferecem um tĂșmulo emprestado, mas nĂŁo uma “posse de sepultura” permanente. Em outras palavras, estĂŁo dispostos a permitir o sepultamento de Sara entre eles, mas nĂŁo a vender parte de suas terras a AbraĂŁo. Isso provavelmente reflete a relutĂąncia tĂ­pica dos proprietĂĄrios antigos em alienar terras familiares – a terra era herança dos antepassados e passava de geração em geração, nĂŁo se vendia facilmente um campo que fazia parte do clĂŁ. “Presumivelmente, AbraĂŁo encontra a difusa relutĂąncia dos proprietĂĄrios de terra no antigo Oriente PrĂłximo em repartir sua propriedade”, observa Wenham. Em Ășltima anĂĄlise, eles querem honrar AbraĂŁo sem abrir mĂŁo do domĂ­nio territorial: “sepulte entre nĂłs”, mas continuaria sendo entre eles.


AbraĂŁo, contudo, tinha em mente um plano especĂ­fico. Ele nĂŁo desejava apenas um canto provisĂłrio em algum sepulcro alheio, que no futuro poderia gerar disputas ou dĂșvidas. EntĂŁo, gentilmente, ele busca encaminhar a negociação para seu objetivo. Levantando-se e inclinando-se diante do povo (note-se a etiqueta e humildade de AbraĂŁo mesmo apĂłs ser chamado de “prĂ­ncipe”; ele nĂŁo assume isso com arrogĂąncia, mas agradece respeitosamente), AbraĂŁo faz uma proposta concreta: “Se Ă© do agrado de vĂłs que eu sepulte a minha morta, ouvi-me e intercedei por mim junto a Efrom, filho de Zoar, para que ele me dĂȘ (venda) a caverna de Macpela, que lhe pertence, que estĂĄ na extremidade do seu campo; por completo preço a darĂĄ a mim, no vosso meio, por posse de sepultura” (v.8–9). Aqui AbraĂŁo especifica o local desejado: a caverna de Macpela, pertencente a um certo Efrom, filho de ZĂłar. “Macpela” em hebraico significa “duplicada” ou “dupla” – provavelmente uma gruta com duas cĂąmaras ou um sistema de cavernas. Pode ser que AbraĂŁo jĂĄ conhecesse aquele lugar, talvez um ponto adequado e prĂłximo de onde estavam (Mamre/Hebrom), e que tivesse a dimensĂŁo necessĂĄria para servir de tumba familiar. A menção de que fica “no fim do campo” de Efrom indica que era na borda da propriedade dele; possivelmente mais fĂĄcil de negociar sem Efrom temer perder o campo inteiro ou interferir em suas atividades agrĂ­colas. AbraĂŁo pede que os demais “intercedam” por ele junto a Efrom – ou seja, que usem sua influĂȘncia e voz comunitĂĄria para convencer Efrom a negociar. Isso sugere que Efrom estava presente ali (como de fato o texto logo confirma), mas AbraĂŁo segue a etiqueta local: ele fala primeiro aos anciĂŁos e cidadĂŁos para sĂł entĂŁo tratar diretamente com o proprietĂĄrio, com o apoio deles. Ele oferece pagar “preço pleno” pela caverna – literalmente “preço justo” ou “completo”. Essa expressĂŁo carrega tom legal: indica pagamento integral, venda irrevogĂĄvel, sem descontos ou clĂĄusulas ocultas. Em contratos sumĂ©rios e acadianos hĂĄ termos equivalentes usados para garantir que a transação era final e nĂŁo sujeita a contestação. AbraĂŁo, entĂŁo, deixa claro que quer comprar oficialmente o local pelo seu valor total, obtendo um tĂ­tulo definitivo de posse.


Na sequĂȘncia (v.10-11), entra em cena o proprietĂĄrio. Efrom, o heteu, estava sentado no meio da assembleia na porta da cidade e, assim que ouve a proposta, responde diretamente a AbraĂŁo diante de todos. Isso jĂĄ Ă© um bom sinal: Efrom se dispĂ”e a negociar abertamente. Ele diz: “NĂŁo, meu senhor, ouve-me: eu te dou o campo, e tambĂ©m a caverna que nele estĂĄ; na presença dos filhos do meu povo eu ta dou; sepulta a tua morta” (v.11). À primeira vista, Efrom parece magnĂąnimo ao extremo – ele “dá” nĂŁo sĂł a caverna pedida, mas todo o campo, gratuitamente! Devemos entender corretamente essa oferta. Muito provavelmente, trata-se de um gesto de cortesia exagerada, tĂ­pico das barganhas orientais, nĂŁo de uma doação literal. Nos mercados e tratados antigos, era comum o vendedor dizer algo como “Ah, isso nĂŁo vale nada entre amigos, eu lhe dou”, esperando com isso que o comprador pagasse o preço cheio sem barganhar. Era um modo polido de indicar disposição de vender sem parecer mesquinho discutindo dinheiro. Como paralelo bĂ­blico, lembremos de AraĂșna, o jebuseu, oferecendo ao rei Davi, sĂ©culos depois, a sua eira de graça para construir um altar: “Tome-a o meu senhor, o rei, e faça dela o que bem quiser
 eu te dou” (1Cr 21:23). Davi aceitou essa oferta? NĂŁo – ele replicou: “NĂŁo, eu pagarei o justo preço, pois nĂŁo oferecerei ao Senhor holocausto que nĂŁo me custe nada” (1Cr 21:24). Muito semelhante Ă© o caso aqui. Efrom, com sua oferta generosa em palavras, mostra-se amistoso e disposto a ceder o terreno, mas nĂŁo esperava realmente que AbraĂŁo tomasse posse de graça. Na verdade, como analisa Tucker, “o objetivo da oferta e da polidez exagerada Ă© colocar a outra parte na defensiva
 Ao oferecer mais do que foi solicitado, o vendedor indiretamente exige um preço mais alto”. Ou seja, ao dizer “dou o campo e a caverna”, Efrom indica que venderĂĄ ambos em conjunto, e certamente espera uma soma substancial por isso. AlĂ©m do mais, dar publicamente tambĂ©m o favorece: caso AbraĂŁo insistisse em pagar, ninguĂ©m poderia acusar Efrom de inicIalmente cobrar ou ser avarento – ele ficaria bem perante o povo, qualquer que fosse o resultado.


Por que Efrom inclui o campo inteiro na transação, se Abraão só pedira a caverna? Duas possibilidades surgem:


(1) pode ser estratĂ©gia comercial – ao vender o campo junto, justifica-se um preço maior e garante-se que AbraĂŁo terĂĄ que assumir tambĂ©m qualquer encargo vinculado Ă quela terra;


(2) pode ser simplesmente cortesia protocolar – Efrom inflaciona a oferta (dĂĄ mais do que AbraĂŁo pediu) para, no jogo de cena, nĂŁo parecer mesquinho. Alguns estudiosos jĂĄ especularam se haveria ali alguma intenção de passar a AbraĂŁo obrigaçÔes feudais do campo (tributos, responsabilidades) ao incluir a terra na venda, conforme certas leis hititas e assĂ­rias antigas poderiam sugerir. PorĂ©m, Ă© improvĂĄvel: como o prĂłprio texto nota, esses hititas de Hebrom nĂŁo tĂȘm relação direta com o impĂ©rio hitita do norte e suas leis formais. AlĂ©m disso, o paralelo com AraĂșna (que ofereceu bois e implementos junto com a eira ao rei Davi) demonstra que ofertas excedentes eram apenas parte das formalidades de alto nĂ­vel, nĂŁo imposição de ĂŽnus ocultos. O mais lĂłgico Ă© entender que Efrom, ao dizer “dou o campo e a caverna”, estĂĄ encerrando a fase de propostas: ele nĂŁo obriga AbraĂŁo a comprar, mas se for para pagar, que seja por tudo; e se AbraĂŁo quiser realmente formalizar, precisarĂĄ agora indagar o preço.


AbraĂŁo, porĂ©m, sequer deixa chegar ao ponto de barganha. Mantendo sua postura respeitosa, ele torna a inclinar-se perante os presentes (v.12) e responde a Efrom: “Se concordas, ouve-me: darei o preço do campo; aceita-o de mim, e sepultarei ali a minha morta” (v.13). Aqui AbraĂŁo explicitamente oferece pagar em dinheiro o valor integral. Ele nĂŁo tenta pechinchar, nem sugere um valor; apenas solicita que Efrom aceite o pagamento. Essa insistĂȘncia de AbraĂŁo em pagar surpreende Ă  luz da cultura oriental, onde se esperaria muitas idas e vindas na negociação. ProvĂ©rbios 20:14 ilustra bem o costume: “‘NĂŁo vale nada, nĂŁo vale nada’, diz o comprador; mas depois de ir embora, gaba-se da compra”. AbraĂŁo agiu de forma oposta a esse ditado – nĂŁo barganhou de forma alguma. Por quĂȘ? O prĂłprio texto nos permite inferir: AbraĂŁo quer certeza absoluta de posse legal e “paz” quanto Ă quele terreno, sem qualquer contestação futura. Pagando o preço cheio publicamente, ele cala qualquer objeção presente ou futura. Ele sabia que, se negociase preço, alguĂ©m depois poderia dizer que ele extorquiu um valor baixo de Efrom aproveitando-se do momento ou que o contrato nĂŁo foi justo. AbraĂŁo prefere pecar pelo excesso de honestidade do que correr riscos com a sepultura de sua esposa e do futuro de sua famĂ­lia. Matthew Henry comenta que nĂŁo foi por orgulho que AbraĂŁo recusou um presente, mas por princĂ­pios de justiça e prudĂȘncia: (1) Justiça, porque ele era rico em prata e ouro e nĂŁo desejava tirar vantagem da generosidade de Efrom, nem ter algo que nĂŁo pagou devidamente – “a honestidade... nos proĂ­be aproveitar-nos de nossos vizinhos”. (2) PrudĂȘncia, para que amanhĂŁ Efrom nĂŁo pudesse dizer “Enriqueci AbraĂŁo” ou para que os herdeiros de Efrom nĂŁo questionassem o arranjo e reclamassem a terra de volta, jĂĄ que um presente informal poderia ser contestado. Era melhor firmar um contrato claro. Henry lembra que Davi posteriormente seguiu o mesmo princĂ­pio ao recusar a oferta gratuita de AraĂșna: ele pagou para ter o terreno do templo (2Sm 24:24) e assim ninguĂ©m pudesse reivindicĂĄ-lo depois. Em suma, AbraĂŁo queria evitar mal-entendidos e litĂ­gios, garantindo que a caverna de Macpela fosse inquestionavelmente dele.


Diante da disposição de AbraĂŁo em pagar, Efrom finalmente enuncia o preço esperado: “O terreno vale quatrocentos siclos de prata; que Ă© isso entre mim e ti? Sepulta pois a tua morta” (v.15). Aqui Efrom quantifica o valor – “quatrocentos siclos (ou shekels) de prata” – e imediatamente relativiza: “mas o que Ă© isso entre amigos?” Em outras palavras, ele indica o preço, mas mantĂ©m o tom cordial de que isso nĂŁo seria um obstĂĄculo entre eles. Quatrocentos siclos era uma soma considerĂĄvel. NĂŁo temos todos os dados para converter exatamente em valores atuais, mas sabemos de referĂȘncias bĂ­blicas que Ă© um preço alto para um campo. Por exemplo, sĂ©culos depois Jeremias comprou um campo por 17 siclos de prata (Jr 32:9), embora em circunstĂąncia excepcional (durante um cerco inimigo, o que depreciou o valor). O rei Davi comprou a eira de AraĂșna por 50 siclos (2Sm 24:24), embora ali nĂŁo estivesse incluso um campo grande. Por outro lado, textos extrabĂ­blicos descobertos em Ugarite mencionam quatrocentos siclos de prata em transaçÔes, mostrando que nĂŁo era um nĂșmero fantĂĄstico – devia representar um preço de mercado para propriedade de bom porte. Alguns estudiosos sugerem que Efrom pediu um preço alto, talvez inflacionado pela urgĂȘncia (AbraĂŁo estava de luto e pressionado a enterrar logo), mas nĂŁo necessariamente extorsivo. De todo modo, AbraĂŁo nĂŁo reage ao valor nem tenta reduzi-lo. “Que Ă© isto entre mim e ti?” – disse Efrom – e AbraĂŁo na prĂĄtica responde: nĂŁo Ă© nada mesmo. Ele imediatamente pesou a prata conforme o peso corrente de mercado e pagou os 400 siclos na presença das testemunhas (v.16).


Essa cena da pesagem do dinheiro Ă© pitoresca e significativa. Naquele tempo, ainda nĂŁo havia moedas cunhadas, entĂŁo o pagamento era feito por peso de metal precioso. O texto frisa que AbraĂŁo “pesou a prata, correspondendo aos siclos correntes entre os mercadores”, indicando que tudo foi feito de acordo com os padrĂ”es comerciais reconhecidos. NĂŁo houve truque nem na balança nem na liga da prata; AbraĂŁo paga honestamente cada grama combinada, “na presença dos filhos de Hete” (v.16), isto Ă©, na frente de todos os ali reunidos, de modo pĂșblico e transparente. Assim, a transação se consumou: AbraĂŁo compra o campo de Efrom em Macpela, com a caverna e as ĂĄrvores, e paga Ă  vista o preço estipulado, selando o acordo de forma irrevogĂĄvel. Nas palavras da narrativa, “o campo de Efrom... foi transferido (levantou-se) a AbraĂŁo por compra, Ă  vista dos filhos de Hete, de todos os que entravam pela porta da sua cidade” (v.17-18). Essa fĂłrmula legal – “foi transferido” – traduz um verbo hebraico (qum, “levantar-se”) que abre o versĂ­culo 17 no original, cumprindo o modelo de contratos da Ă©poca. É o mesmo verbo raiz de “levantou-se AbraĂŁo” no inĂ­cio do diĂĄlogo (v.3); aqui marca a conclusĂŁo: o campo “se levantou para AbraĂŁo”, isto Ă©, passou oficialmente para posse de AbraĂŁo. O texto atĂ© especifica os acessĂłrios: “com todas as suas ĂĄrvores em torno” – registros de compras antigas Ă s vezes listavam o nĂșmero de ĂĄrvores frutĂ­feras transferidas junto com a terra, e aqui se enfatiza que cada parte daquele terreno agora pertence ao patriarca. Tudo isso diante de testemunhas qualificadas, isto Ă©, “todos os hititas que entravam pela porta da cidade” (v.18). Em suma, ficou lavrado um contrato aos olhos da comunidade.


Ao tĂ©rmino da negociação, AbraĂŁo finalmente pĂŽde sepultar Sara. O versĂ­culo 19 narra com simplicidade tocante: “Depois, AbraĂŁo sepultou a Sara, sua mulher, na caverna do campo de Macpela, fronteiro a Manre (isto Ă©, Hebrom), na terra de CanaĂŁ.” Com isso, o objetivo inicial de AbraĂŁo se cumpre – Sara Ă© honrosamente enterrada. Ele a depositou naquela caverna, dando-lhe uma sepultura digna e prĂłpria, “adquirindo para ela um tĂșmulo prĂłprio”, conforme comenta Wenham. O texto relembra que Hebrom Ă© “terra de Canaã”, sublinhando que os restos de Sara agora jazem na Terra Prometida. AbraĂŁo fizera questĂŁo disso. Ele prestou a Sara “a honra que com justiça ela merece” ao obter aquele lugar exclusivamente para ela e sua famĂ­lia. HĂĄ uma bela observação extrabĂ­blica preservada que “como convĂ©m Ă  mĂŁe da nação, seu tĂșmulo era impressionante, um memorial digno de uma grande mulher”. De fato, AbraĂŁo nĂŁo mediu custos para que a companheira de sua vida tivesse um sepulcro prĂłprio, que posteriormente se tornaria um monumento familiar e nacional.


O capĂ­tulo termina reiterando o fato crucial: “Assim, o campo e a caverna... foram confirmados a AbraĂŁo por posse de sepultura, da parte dos filhos de Hete” (v.20). Essa repetição reforça o aspecto legal. Em poucas linhas, o narrador faz quase um registro cartorial: campo, caverna, ĂĄrvores – tudo confirmado como propriedade de AbraĂŁo, adquirida dos hititas. EstĂĄ oficialmente consolidado o primeiro pedaço de terra que AbraĂŁo possui em CanaĂŁ. Ironicamente, Ă© uma terra para mortos – um cemitĂ©rio – e nĂŁo para plantaçÔes ou moradia. Mas teologicamente isso tem grande peso: o patriarca agora tem um arraial no paĂ­s que Deus lhe prometera. Ele prĂłprio continua vivo e peregrinando, mas ao comprar um tĂșmulo, AbraĂŁo demonstra que nĂŁo pretende sair daquela terra nem mesmo apĂłs a morte.


ConvĂ©m destacar que a Caverna de Macpela, alĂ©m de sepultar Sara, tornou-se de fato o tĂșmulo dos patriarcas. GĂȘnesis 25:9-10 registra que o prĂłprio AbraĂŁo, ao falecer, foi sepultado ali por Isaque e Ismael. Mais tarde, Isaque foi enterrado na mesma caverna por seus filhos (Gn 35:29). GĂȘnesis 49:29-32 relata que JacĂł, antes de morrer no Egito, ordenou enfaticamente que seu corpo fosse levado para repousar em Macpela, “na caverna do campo de Macpela, que AbraĂŁo comprou...”, junto com AbraĂŁo, Sara, Isaque, Rebeca e Lia que jĂĄ lĂĄ estavam. E em GĂȘnesis 50:13 cumpre-se seu desejo: seus filhos levam JacĂł e o sepultam na caverna de Macpela. Ou seja, Macpela tornou-se o mausolĂ©u da famĂ­lia de AbraĂŁo, o lugar de repouso das geraçÔes que herdariam a promessa. Este fato Ă© tĂŁo significativo que atĂ© o autor de Hebreus alude a ele: “todos estes [patriarcas] morreram na fĂ©, sem ter obtido as promessas, mas vendo-as de longe... confessando que eram estrangeiros e peregrinos na terra... porque buscavam uma pĂĄtria” (Hb 11:13-14). E acrescenta que AbraĂŁo, Isaque e JacĂł, ao morrerem, demonstraram esperar algo melhor, uma pĂĄtria celestial preparada por Deus (Hb 11:16). A insistĂȘncia em serem enterrados na Terra Prometida é um testemunho silencioso dessa fĂ© – como comenta um estudioso, “essa pequena porção de terra gera a promessa de toda a terra”, deixando claro que mesmo “estrangeiros e peregrinos” buscavam uma pĂĄtria duradoura. No ato de comprar o campo de Macpela, AbraĂŁo plantou uma semente do futuro lar de seus descendentes, crendo que Deus no tempo certo daria “toda a terra” como herdade, embora ele prĂłprio em vida possuĂ­sse apenas aquele pedaço.


A histĂłria da compra do campo de Macpela para o sepultamento de Sara, alĂ©m de seu aspecto narrativo e histĂłrico, carrega profundas implicaçÔes teolĂłgicas e tipolĂłgicas. Ela nos ensina sobre fĂ© em meio Ă  perda, sobre a visĂŁo dos patriarcas quanto Ă  morte e Ă  esperança futura, sobre a relação dos fiĂ©is com este mundo (ser “peregrino na terra”) e atĂ© sugere paralelos com a obra redentora de Cristo. Vejamos alguns desses temas:


1. FĂ© e Promessa em Meio Ă  Adversidade: GĂȘnesis 23 pode parecer Ă  primeira vista um capĂ­tulo “secular”, onde Deus nĂŁo fala nem age abertamente. Contudo, ele Ă© altamente teolĂłgico em sua mensagem implĂ­cita. A morte de Sara apresentou a AbraĂŁo uma crise de fĂ© potencial – afinal, Deus havia prometido a terra a ele, mas agora, dĂ©cadas depois, ele nĂŁo possuĂ­a nem um palmo para enterrar a esposa. AbraĂŁo poderia ter se desesperado ou questionado as promessas divinas (“De que vale a terra prometida se nem sepultura temos?”). PorĂ©m, ele transforma a crise em oportunidade de fĂ©. “AbraĂŁo, porĂ©m, usa o que podia ser uma crise de fĂ© como uma oportunidade”, comenta Wenham. Ele age com fĂ© e visĂŁo de longo prazo, comprando propriedade na terra que Deus prometera dar-lhe. Ainda que tenha que comprar aquilo que Deus prometeu dar, AbraĂŁo nĂŁo vĂȘ contradição nisso – antes, vĂȘ confirmação. Pagar pelo campo nĂŁo significa duvidar da promessa, mas investir nela. Ao firmar um contrato pelos descendentes, AbraĂŁo demonstra seu “inabalĂĄvel compromisso com a promessa” divina. Ele poderia, sim, ter aceitado um sepultamento provisĂłrio cedido pelos hititas e depois voltar para HarĂŁ com o corpo de Sara, ou enviar seus restos Ă  sua terra de origem. Mas nĂŁo – ele firmemente garante um local na prĂłpria Terra Prometida. Isso Ă© fĂ© prĂĄtica: crer que aquele lugar pertencia de fato a ele por direito divino, mesmo que, na conjuntura presente, tivesse que adquiri-lo por meios humanos.


HĂĄ aqui uma lição sobre como a fĂ© Ă s vezes age em esfera “ordinĂĄria”, sem aguardar passivamente por um milagre dos cĂ©us. Deus nĂŁo desceu para entregar a terra a AbraĂŁo naquele momento; Ele jĂĄ havia dado a promessa e isso bastou para AbraĂŁo tomar iniciativa coerente com ela. Assim tambĂ©m, nĂłs podemos em fĂ© tomar posse de porçÔes das promessas de Deus em nossas vidas, ainda que nĂŁo vejamos o cumprimento total. AbraĂŁo sabia que nĂŁo veria em vida toda a terra em posse de seus filhos (Deus atĂ© lhe dissera que isso aconteceria apĂłs muitas geraçÔes, Gn 15:13-16). Mesmo assim, ele faz questĂŁo de fincar ali um marco de esperança. Como disse um pregador, “AbraĂŁo plantou uma bandeira em CanaĂŁ – e era uma lĂĄpide” (sinalizando que ele esperava que seus descendentes um dia ressuscitariam/voltariam ali para possuir tudo). Seu ato nos lembra que muitas vezes nossas açÔes de fĂ© hoje apontam para um futuro alĂ©m de nĂłs mesmos. Nosso “comprar do campo” pode ser algo que nĂłs mesmos nĂŁo desfrutaremos plenamente, mas que honra a Deus e abençoarĂĄ nossos descendentes espirituais.


2. Estrangeiros e Peregrinos: A autoidentificação de AbraĂŁo como “estrangeiro e peregrino” (v.4) ecoa como um tema que percorre toda a Escritura. Os patriarcas viveram como forasteiros dependentes da graça de Deus. Este mundo nĂŁo era sua pĂĄtria definitiva. O autor de Hebreus afirma explicitamente que AbraĂŁo, Isaque e JacĂł “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra”, buscando uma pĂĄtria melhor, a saber, a celestial (Hb 11:13-16). É marcante que essa confissĂŁo no NT estĂĄ diretamente ligada ao contexto da morte: “na fĂ© morreram todos estes, sem ter alcançado as promessas, mas... confessando que eram peregrinos” (Hb 11:13). Ou seja, morrer em fé é o derradeiro ato de reconhecer que nossa verdadeira casa ainda estĂĄ por vir. AbraĂŁo, ao comprar o sepulcro, estava dizendo em atos o que depois Davi diria em palavras: “Somos estrangeiros diante de ti e peregrinos como todos os nossos pais; nossos dias sobre a terra sĂŁo como a sombra” (1Cr 29:15). O sepultamento em Canaã era ao mesmo tempo uma afirmação de esperança na promessa terrena e uma admissĂŁo de que suas geraçÔes ainda aguardavam algo maior de Deus.


Do ponto de vista da vida do crente hoje, somos igualmente chamados a viver como peregrinos. “Este mundo nĂŁo Ă© meu lar; estou apenas de passagem” – essa antiga expressĂŁo de hino condiz com a teologia bĂ­blica. NĂŁo temos aqui cidade permanente (Hb 13:14). Assim como AbraĂŁo nĂŁo construiu cidades (diferente de Caim ou Nimrode), mas apenas fincou sua tenda e, ao final, adquiriu somente um tĂșmulo, tambĂ©m nĂłs nĂŁo devemos colocar nosso coração nas “cidades” deste sĂ©culo. AbraĂŁo morreu possuindo apenas um pequeno lote, mas isso nĂŁo invalidou a promessa de Deus; de modo semelhante, podemos ter pouco bem material neste mundo e ainda assim sermos herdeiros de Deus. HĂĄ um pensamento atribuĂ­do a W. Wiersbe: “AbraĂŁo era dono de toda aquela terra (pela promessa divina), mas a Ășnica propriedade que lhe pertencia legalmente era uma sepultura. Se o Senhor Jesus nĂŁo voltar logo para nos levar, a Ășnica propriedade que cada um de nĂłs terĂĄ neste mundo serĂĄ um pequeno lote no cemitĂ©rio; ou seja, nĂŁo levaremos nada conosco, deixaremos tudo para trĂĄs”. Essa perspectiva equilibrada nos livra tanto da ganĂąncia quanto do desĂąnimo: ganĂąncia, porque de que vale acumular se no fim sĂł ficaremos com a sepultura?; desĂąnimo, porque mesmo que tenhamos apenas a sepultura, temos na verdade “toda a terra” por vir em Cristo (Mt 5:5, “os mansos herdarĂŁo a terra”). AbraĂŁo contentou-se em vida com pouco, pois esperava muito mais depois. Ele “esperava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus Ă© o arquiteto e edificador” (Hb 11:10), enquanto morava em tendas. NĂłs, hoje, devemos igualmente usar deste mundo como quem nĂŁo se apega, sabendo que nossa herança Ă© incorruptĂ­vel e estĂĄ guardada nos cĂ©us (1Pe 1:4).


Interessante ainda notar que os prĂłprios cananeus reconheceram algo diferente em AbraĂŁo – “prĂ­ncipe de Deus” no meio deles. Isso ilustra que, embora sejamos peregrinos, nĂŁo precisamos ser necessariamente desprezados. Quando vivemos de forma Ă­ntegra e abençoadora, atĂ© os de fora podem nos respeitar e reconhecer a graça de Deus em nĂłs. AbraĂŁo, mesmo sem terra, conquistou o bom testemunho entre os pagĂŁos. Ele havia plantado carvalhos, cavado poços, ajudado vizinhos, orado por reinos; sua presença era benĂ©fica. Assim, os “estrangeiros” aqui eram luz entre as naçÔes – como a Igreja deve ser no mundo. Os cananeus, ao dizerem “queremos ter o teu fim, misturar nosso pĂł com o seu”, indicam quase inveja santa: “tomara morrĂȘssemos tĂŁo em paz com Deus quanto vocĂȘ”. Que nosso estilo de vida peregrino tambĂ©m desperte nos outros respeito e desejo de compartilhar da bĂȘnção que temos em Cristo.


3. VisĂŁo da Morte e da Esperança da Ressurreição: A maneira como AbraĂŁo lida com a morte de Sara nos ensina algo sobre fĂ© diante da morte. Em primeiro lugar, AbraĂŁo chora por Sara (v.2). Ele a amava profundamente – foram talvez mais de 60 anos de casamento. A BĂ­blia nĂŁo diz muito, mas podemos imaginar sua dor. Isso mostra que a fĂ© nĂŁo nos torna insensĂ­veis ou estoicos. Crentes fiĂ©is choram, sentem luto – a diferença Ă© que nĂŁo o fazem “como os que nĂŁo tĂȘm esperança” (1Ts 4:13). AbraĂŁo chorou, mas nĂŁo se desesperou. Ele cuidadosamente prepara o funeral, indicando que hĂĄ dignidade e respeito devidos atĂ© mesmo ao corpo apĂłs a morte. De fato, toda a narrativa ressalta o cuidado de AbraĂŁo em dar um sepultamento honroso a Sara. Ele nĂŁo a deixa insepulta nem permite que seja enterrada sem cerimĂŽnia em qualquer lugar; ao contrĂĄrio, suspende atĂ© a jornada de fé (por assim dizer) para garantir que a memĂłria e os restos de sua esposa sejam adequadamente guardados. Isso sugere uma alta visĂŁo do valor da vida e do corpo humano mesmo apĂłs a morte. Os cristĂŁos tĂȘm historicamente ressaltado algo semelhante – diferentemente de culturas que menosprezavam o corpo ou o queimavam sem cerimĂŽnia, os crentes viam o sepultamento cuidadoso como um testemunho silencioso da crença na ressurreição futura do corpo. O prĂłprio AbraĂŁo, ao insistir em um tĂșmulo familiar na terra da promessa, pode estar indicando alguma esperança de que seus descendentes um dia possuiriam aquela terra e tambĂ©m de que haveria uma continuidade alĂ©m da morte. Mais tarde, sobre AbraĂŁo serĂĄ dito que “foi reunido ao seu povo” ao morrer (Gn 25:8). Essa expressĂŁo intriga comentaristas, pois nĂŁo significa que seu corpo foi levado Ă  MesopotĂąmia para junto dos antepassados (nĂŁo foi) nem que foi colocado na mesma caverna que Sara (ele foi, mas ali ainda sĂł Sara estava da famĂ­lia). A melhor compreensĂŁo Ă© que “reunido ao seu povo” se refere ao encontro de sua alma/espĂ­rito com os que jĂĄ morreram na fĂ©. Indica que os antigos criam que, apĂłs a morte, o indivĂ­duo continuava existindo em outra esfera, juntando-se aos seus. Wiersbe comenta que isso aponta para a imortalidade dos salvos, a alma indo ao encontro dos que partiram em Deus. Hans BrĂ€umer poeticamente disse que o alĂ©m Ă© o verdadeiro lar do ser humano, e este mundo Ă© a peregrinação; ao morrer, o espĂ­rito volta para Deus e para “o cĂ­rculo dos seus” que o aguardam. Assim, embora GĂȘnesis 23 nĂŁo discorra sobre isso abertamente, o pano de fundo da fĂ© de AbraĂŁo incluĂ­a a noção de que a morte nĂŁo extinguia as promessas de Deus. Deus Ă© Deus de AbraĂŁo, Isaque e JacĂł vivos, nĂŁo mortos (cf. Mt 22:32). Sepultar na terra prometida era, portanto, nĂŁo sĂł um ato de posse simbĂłlica, mas quase um depĂłsito de esperança: “Aqui descansaremos atĂ© o dia em que nossos descendentes possuam esta terra – e quem sabe atĂ© o dia da restauração final”.


Para nĂłs, Ă  luz do Novo Testamento, a esperança alĂ©m da sepultura é certa por causa de Cristo. Aquilo que era talvez intuĂ­do de forma obscura pelos patriarcas (JĂł jĂĄ dizia: “Eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantarĂĄ sobre a terra... e em minha carne verei a Deus” – JĂł 19:25-27) torna-se clarĂ­ssimo com Jesus. Ele mesmo disse: “AbraĂŁo exultou por ver o meu dia; viu-o e alegrou-se” (Jo 8:56). Podemos pensar que parte dessa alegria prospectiva de AbraĂŁo incluĂ­a confiar que, mesmo morrendo, Deus nĂŁo falharia. Cristo, descendente de AbraĂŁo, venceu a morte e assim garantiu a ressurreição para todos os que morreram na fĂ©. Um comentĂĄrio pastoral sobre GĂȘnesis 23 observa: “A vida pode ser longa, mas a morte Ă© certa; entretanto, para os que creem, a morte nĂŁo Ă© o fim e o tĂșmulo nĂŁo Ă© nosso Ășltimo endereço”. Para o cristĂŁo, morrer Ă© “deixar o corpo e habitar com o Senhor” (2Co 5:8), Ă© “partir e estar com Cristo, o que Ă© incomparavelmente melhor” (Fp 1:23). A morte – chamada de “rei dos terrores” e “Ășltimo inimigo” – jĂĄ foi vencida; seu aguilhĂŁo foi removido e ela foi tragada pela vitĂłria de Cristo. Jesus “matou a morte” e ressuscitou como primĂ­cias dos que dormem. Essa triunfante declaração do evangelho lança um brilho sobre o capĂ­tulo de AbraĂŁo e Sara: a primeira posse de AbraĂŁo em CanaĂŁ foi um tĂșmulo, mas do tĂșmulo viria a vitĂłria final.

Alguns comentaristas cristĂŁos veem atĂ© um paralelo tipolĂłgico: assim como AbraĂŁo adquiriu uma sepultura no local onde seria a futura herança do povo de Deus, tambĂ©m Deus preparou em Sua providĂȘncia um tĂșmulo (o de JosĂ© de Arimateia) no local – JerusalĂ©m, a Terra Prometida – onde o descendente de AbraĂŁo, Jesus, seria sepultado e de onde ressurgiria para inaugurar a conquista da herança celestial. Um autor escreve que, para os cristĂŁos que veem o AT como sombra dos bens futuros, a compra do campo do tĂșmulo em Hebrom aponta para a sepultura de Cristo, o começo da vida. Em Cristo, um tĂșmulo (o dEle) tornou-se o cenĂĄrio da vitĂłria sobre a morte, assegurando que os tĂșmulos dos crentes nĂŁo sĂŁo lugares de derrota, mas de esperança. Quando AbraĂŁo comprou Macpela, talvez nĂŁo imaginasse todos os desdobramentos, mas sua fĂ© apontava na direção certa: Deus hĂĄ de dar vida onde hoje hĂĄ morte. Assim, GĂȘnesis 23, lido Ă  luz de toda a revelação, deixa de ser um simples registro fĂșnebre e passa a ser um testemunho da esperança da ressurreição – esperança esta confessada quando JacĂł diz: “enterrem-me com meus pais em Macpela” (Gn 49:29-32), indicando que ele queria aguardar a redenção junto aos seus na terra da promessa.


4. Legado de Integridade e Testemunho: Outro destaque do capĂ­tulo Ă© o carĂĄter de AbraĂŁo no trato com os hititas. Ele se conduz com notĂĄvel honra, humildade e honestidade. Mesmo em meio Ă  dor pessoal, AbraĂŁo tem presença de espĂ­rito para agir com cortesia: ele “se levanta” diante dos habitantes (saindo da posição de luto sentado no chĂŁo) e os respeita como autoridades locais, “se curva” diante deles (v.7) – um gesto de deferĂȘncia e gratidĂŁo. Embora ele seja mais abastado e, pela promessa de Deus, verdadeiro dono futuro da terra, AbraĂŁo nĂŁo age com arrogĂąncia espiritual do tipo “Deus me prometeu tudo isto, entĂŁo me deem de graça”. Pelo contrĂĄrio, ele paga integralmente o preço e faz questĂŁo de seguir os costumes legais à risca (negociando Ă  porta da cidade, diante de todos, com pesos corretos). Essa atitude condiz com o princĂ­pio bĂ­blico de “procurar ter boa reputação perante os de fora” (1Tm 3:7) e “fazer o bem diante de todos os homens” (Rm 12:17). AbraĂŁo deu exemplo de que a fĂ© no Senhor nĂŁo era desculpa para tratar os homens injustamente. Henry ressalta que a religiĂŁo genuĂ­na anda de mĂŁos dadas com boas maneiras e Ă©tica: “a religiĂŁo procura ensinar boas maneiras”, e ser piedoso jamais justifica ser rude ou trapaceiro nos negĂłcios. AbraĂŁo, apesar de sua dor e de sua posição, agradece abundantemente, faz reverĂȘncia pĂșblica a Efrom (v.12) de modo que todos vejam o respeito que ele tem pelo outro. Ele nĂŁo tenta tirar vantagem nem mesmo de uma oferta espontĂąnea – preferiu pagar. Com isso, ganhou o respeito ainda maior dos hititas. É provĂĄvel que, dali em diante, AbraĂŁo tenha sido visto com ainda mais admiração: um homem justo, que nĂŁo quis “almoços grĂĄtis” Ă  custa alheia. O prĂłprio Efrom, recebendo a reverĂȘncia de AbraĂŁo diante do povo, teria seu prestĂ­gio elevado (“para que pudessem respeitar ainda mais a Efrom pelo respeito que AbraĂŁo lhe dedicava”). Ou seja, AbraĂŁo conseguiu o que queria abençoando a todos no processo: honrou os lĂ­deres, honrou o proprietĂĄrio, pagou o devido e fez um acordo de paz. “Os que temem a Deus adornam sua fĂ© com cortesia e disposição de servir a todos; descobrirĂŁo que essa atitude volta como bĂȘnção sobre eles”, nota Henry. De fato, AbraĂŁo “rega” os outros com bondade e ele mesmo Ă© regado (cf. Pv 11:25). Seu comportamento contrasta com muitos na atualidade (e na antiguidade) que poderiam, numa situação dessas, gerar conflito, ressentimento ou escĂąndalo. Ele nos ensina o valor de proceder com transparĂȘncia – nĂŁo houve negociação Ă s escuras, tudo foi aberto. Henry comenta: “os contratos fraudulentos odeiam a luz... mas aqueles que tĂȘm propĂłsitos honestos nĂŁo se importam que haja quem os testemunhe”. Isso Ă© um princĂ­pio excelente: quem age corretamente nĂŁo teme prestar contas. AbraĂŁo nĂŁo tem nada a esconder: pagou, todos viram, fim de questĂŁo.


Como resultado, “o nome de Deus Ă© glorificado atĂ© entre os pagĂŁos”. Os hititas, pela conduta de AbraĂŁo, puderam ver a diferença que a fĂ© faz. Eles o chamaram de “prĂ­ncipe de Deus” – possivelmente esse tĂ­tulo foi dado nĂŁo apenas por ele ser rico, mas por verem nele virtude e proteção especial. Quando vivemos com integridade, atĂ© os incrĂ©dulos reconhecem algo de Deus em nĂłs. Da mesma forma, nossas prĂĄticas em momentos difĂ­ceis (como luto, negociaçÔes, etc.) sĂŁo testemunho poderoso. AbraĂŁo, no luto, comportou-se de modo exemplar; nĂłs tambĂ©m, em nossos lutos e transaçÔes, devemos refletir a esperança e honestidade cristĂŁs.


5. Aspectos HistĂłricos e Culturais: Por fim, vale mencionar alguns detalhes histĂłricos que enriquecem a compreensĂŁo e evitam mal-entendidos doutrinĂĄrios. Os habitantes locais sĂŁo chamados de “hititas” ou “filhos de Hete”. Durante um tempo, crĂ­ticos da BĂ­blia alegaram que esse termo era anacrĂŽnico ou lendĂĄrio, pois nĂŁo se conhecia nada sobre hititas fora da BĂ­blia. PorĂ©m, no final do sĂ©culo XIX e inĂ­cio do XX, arqueĂłlogos descobriram os vastos remanescentes do ImpĂ©rio Hitita na AnatĂłlia (atual Turquia) – uma civilização poderosa do segundo milĂȘnio a.C. Mais ainda, registros egĂ­pcios e mesopotĂąmicos mencionam povos chamados Hatti ou Hete na regiĂŁo de CanaĂŁ. A BĂ­blia parece distinguir dois grupos: os hititas “imperiais” do norte e pequenos grupos hititas em CanaĂŁ. Os de Hebrom claramente pertencem a este Ășltimo caso. Wenham explica que “esses hititas [de CanaĂŁ] nĂŁo refletem os costumes daquele impĂ©rio hitita”, e ademais “tĂȘm nomes semitas, nĂŁo hititas, e AbraĂŁo conversava com eles sem intĂ©rprete”. Ou seja, provavelmente eram cananeus descendentes de Hete (um dos filhos de CanaĂŁ listados em Gn 10:15), integrados Ă  cultura local, nada impedindo sua historicidade. Portanto, nĂŁo hĂĄ erro bĂ­blico algum – pelo contrĂĄrio, GĂȘnesis preserva termos Ă©tnicos coerentes com a Ă©poca. AbraĂŁo tratou com esse clĂŁ cananeu influente de Hebrom, e isso combina com evidĂȘncias de que havia sim grupos “hititas” vivendo em cidades de CanaĂŁ no tempo dos patriarcas.


Outro ponto: a negociação Ă  porta da cidade. Era costume as cidades terem seus anciĂŁos e cidadĂŁos nobres reunidos no portĂŁo para julgar questĂ”es, testemunhar contratos, etc. Temos paralelo em Rute 4, quando Boaz trata da compra das terras de Noemi e do casamento com Rute diante dos anciĂŁos Ă  porta. Isso confere ao evento de GĂȘnesis 23 uma aura de autenticidade histĂłrica – o narrador conhece esses costumes e os descreve. AlĂ©m disso, as fĂłrmulas contratuais mencionadas, como listar as ĂĄrvores e a expressĂŁo “pagou segundo o peso corrente”, encontram eco em documentos comerciais antigos descobertos. O detalhe de “na presença dos filhos de Hete, de todos os que entravam pela porta da cidade” (v.18) mostra quĂŁo pĂșblico e legalmente vinculante foi o acordo. Em vez de contrato escrito, fizeram-no oralmente com muitas testemunhas, o que naquela cultura oral era plenamente vĂĄlido: uma declaração pĂșblica e solene, diante de todos, garantindo o direito de AbraĂŁo.


Atualmente, onde se encontra a Caverna de Macpela?


A tradição consistente afirma que a Caverna de Macpela fica em Hebrom, sob o monumento atualmente conhecido como TĂșmulo dos Patriarcas. Esse lugar Ă© sagrado para judeus, cristĂŁos e muçulmanos. No sĂ©culo I a.C., o rei Herodes, o Grande, construiu uma imponente estrutura retangular de pedra sobre a gruta – esse edifĂ­cio ainda estĂĄ de pĂ© apĂłs dois milĂȘnios. Durante sĂ©culos foi uma basĂ­lica bizantina, depois mesquita (HarĂĄm al-Khalil, “SantuĂĄrio do Amigo [de Deus]”, em referĂȘncia a AbraĂŁo) e atualmente Ă© compartilhado (com muita tensĂŁo) entre judeus e muçulmanos. Hebrom em si Ă© uma das cidades mais antigas continuamente habitadas do mundo. Chamava-se Quiriate-Arba (possivelmente “Cidade de Arba”, um antigo herĂłi anaquita, ou “Cidade dos Quatro” – talvez quatro clĂŁs). Foi habitada por patriarcas, posteriormente pelos israelitas (Calebe a conquistou – Js 14:14), tornou-se capital de Davi por sete anos e meio antes da tomada de JerusalĂ©m (2Sm 2:1-4; 5:3-5), e atĂ© foi o local onde AbsalĂŁo iniciou sua rebeliĂŁo contra Davi (2Sm 15:7-10). Hoje, Hebrom fica na CisjordĂąnia (TerritĂłrio Palestino). Mesmo com tantas vicissitudes histĂłricas, o tĂșmulo dos patriarcas permanece um sĂ­mbolo palpĂĄvel da narrativa bĂ­blica – praticamente um memorial de GĂȘnesis 23. Turistas e devotos ainda vĂŁo lĂĄ para lembrar que ali jazem AbraĂŁo e Sara, Isaque e Rebeca, JacĂł e Lia. Essa continuidade impressionante testemunha a importĂąncia que desde tempos antiquĂ­ssimos se atribuiu a esse sepulcro. Os judeus, por exemplo, veneram Macpela como o segundo local mais sagrado, depois apenas do Monte do Templo em JerusalĂ©m, “pois depois do Muro Ocidental, tem-se mantido por toda a histĂłria o mais sacro dos monumentos do povo hebreu”. Hoje, porĂ©m, os cristĂŁos olham nĂŁo para aquele sepulcro fĂ­sico, mas para outro tĂșmulo – o de Cristo – em memĂłria de sua identificação com Ele, observa Wenham. Em outras palavras, nĂłs reverenciamos Macpela pelo que significou na histĂłria da redenção, mas jĂĄ nĂŁo Ă© ali que repousa nossa esperança; nossa esperança estĂĄ no tĂșmulo vazio de Jesus.

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