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Tatuagens: o que a Bíblia diz?


I. Introdução e Contextualização Fenomenológica e Histórica


A análise da tatuagem sob a perspectiva bíblica e teológica exige, preliminarmente, uma compreensão robusta do fenômeno enquanto prática cultural, histórica e antropológica. Reduzir a discussão a uma simples permissão ou proibição, sem antes investigar a ontologia da marca corporal e sua evolução através dos séculos, resultaria em uma exegese anacrônica e superficial. O corpo humano não é apenas uma entidade biológica; é um "lugar" teológico, um texto onde cultura, identidade e espiritualidade são inscritas. Portanto, antes de adentrarmos o texto sagrado, é imperativo examinar o "texto" da pele humana e como ele foi lido por diferentes sociedades, desde a antiguidade até a jurisprudência moderna do Supremo Tribunal Federal.


A Fenomenologia da Marca Corporal na História


A prática de alterar a aparência do corpo através da inserção de pigmentos na derme é uma constante antropológica que transcende geografias e eras. A tatuagem, ou a modificação corporal definitiva, acompanha a humanidade desde os primórdios da civilização organizada, servindo a propósitos que variam da profilaxia mágica à identificação de status social, da punição penal à expressão artística.

Historicamente, as evidências arqueológicas desmantelam a noção de que a tatuagem seria um fenômeno exclusivamente moderno ou marginal. A descoberta do "Homem de Gelo" (Ötzi), datado de aproximadamente 3300 a.C., revelou um corpo com mais de 60 tatuagens, muitas situadas em pontos que correspondem a linhas de acupuntura, sugerindo uma função terapêutica primitiva destinada a aliviar dores articulares. No Egito Antigo, múmias femininas, como a de Amunet, sacerdotisa da deusa Hathor, apresentam padrões geométricos de pontos e traços no abdômen e coxas, indicando funções possivelmente ligadas a rituais de fertilidade ou proteção durante a gravidez e o parto.


No entanto, a percepção ocidental da tatuagem sofreu oscilações drásticas. Conforme documentado em análises jurídicas contemporâneas sobre a constitucionalidade de restrições a candidatos tatuados em concursos públicos , a "reintrodução" da tatuagem no Ocidente moderno é frequentemente atribuída às viagens de exploração do século XVIII. Marinheiros e exploradores, como o Capitão James Cook, entraram em contato com as culturas da Polinésia — de onde deriva o termo taitiano tatau — e trouxeram a prática para a Europa. Inicialmente vista como uma curiosidade exótica, a tatuagem logo se disseminou entre as classes trabalhadoras e militares, especialmente na marinha mercante.  


A Estigmatização e a Criminologia Positivista


O século XIX marcou o ponto mais baixo na reputação social da tatuagem no Ocidente, um período que influencia até hoje certas leituras conservadoras. A criminologia positivista, liderada pelo italiano Cesare Lombroso, pathologizou a tatuagem. Lombroso argumentava que a presença de marcas corporais era um sinal de atavismo — um retorno a um estágio evolutivo primitivo — e indicava uma predisposição biológica para o crime. A tatuagem tornou-se, na literatura francesa da época, a fleur de bagne ("flor do presídio"), associada intrinsecamente a prostitutas, marinheiros desordeiros e, principalmente, prisioneiros.  


Essa associação entre a marca na pele e a degradação moral criou um estigma social profundo. A tatuagem não era vista como arte, mas como um "certificado de marginalidade". Esse contexto histórico é vital para a hermenêutica bíblica, pois muitas das interpretações cristãs do século XIX e início do século XX foram formuladas sob a sombra dessa sociologia criminal, onde "ter a aparência do mal" (1 Tessalonicenses 5:22) era sinônimo de ter o corpo tatuado.


A Ressignificação Sociocultural e o Cenário Contemporâneo


A partir da segunda metade do século XX, especialmente após a década de 1960, iniciou-se um processo de "desmarginalização" da tatuagem. Movimentos de contracultura — punks, hippies, roqueiros — apropriaram-se da tatuagem como símbolo de dissidência política e liberdade pessoal. Contudo, foi a partir da década de 1990 que ocorreu a verdadeira revolução: a profissionalização dos estúdios e a elevação da tatuagem ao status de "design corporal" e arte legítima.


Dados sociológicos corroboram essa mudança tectônica. Pesquisas realizadas pelo The Harris Polls indicam que, nos Estados Unidos, cerca de 3 em cada 10 cidadãos possuem pelo menos uma tatuagem, um aumento de mais de 50% em comparação a levantamentos anteriores de 2012. O perfil demográfico do "tatuado" expandiu-se para incluir todas as classes sociais, níveis educacionais e profissões, dissolvendo a antiga correlação automática entre tatuagem e desvio de conduta. Hoje, a tatuagem é majoritariamente vista como um veículo para a construção da identidade pessoal, registro de memória, expressão estética e, inclusive, manifestação de fé religiosa.  


Aspectos Biológicos e Fisiológicos da Inscrição Dérmica


Para uma compreensão técnica exaustiva, é necessário detalhar o processo biológico que torna a tatuagem permanente, pois isso dialoga com a teologia da "preservação do corpo". A pele humana é composta por camadas distintas: a epiderme (camada externa, em constante renovação) e a derme (camada intermediária, estável). A tatuagem consiste na deposição mecânica de pigmentos exógenos insolúveis diretamente na derme.


O ato de tatuar é, biologicamente, uma agressão controlada. A agulha perfura a barreira cutânea, depositando tinta. O corpo reage imediatamente com uma resposta imunológica inflamatória, enviando macrófagos (células de defesa) para o local da lesão para fagocitar (engolir) o invasor estrangeiro. No entanto, as partículas de pigmento são grandes demais para serem digeridas ou transportadas pelos macrófagos para o sistema linfático. Como resultado, os macrófagos contendo o pigmento ficam "presos" na matriz de colágeno da derme. Quando esses macrófagos morrem, eles liberam o pigmento, que é imediatamente recapturado por novos macrófagos, garantindo a permanência do desenho. Assim, a tatuagem é, em essência, uma cicatriz pigmentada mantida ativa pelo sistema imunológico do hospedeiro.


II. Hermenêutica Bíblica: Princípios e Metodologia


Antes de examinar os textos bíblicos específicos, devemos estabelecer as "regras do jogo" interpretativo. Conforme delineado no Comentário Bíblico Latino-americano, a leitura da Bíblia não é um ato monolítico, mas um processo que envolve múltiplas dimensões para evitar o fundamentalismo literalista ou o liberalismo desenfreado.  


A Tríade Hermenêutica: Literária, Histórica e Contextual


Para responder "o que a Bíblia diz", devemos aplicar uma metodologia rigorosa que considere três aspectos fundamentais:


  1. O Aspecto Literário: A Bíblia é uma coleção de gêneros literários diversos — narrativas, leis, poesia, profecia. Ler uma lei levítica como se fosse uma parábola, ou uma poesia de Salmos como se fosse um tratado científico, leva ao erro. A pergunta chave aqui é: O que diz este texto em sua estrutura gramatical e literária?.  


  2. O Aspecto Histórico-Cultural: Cada livro foi escrito em um tempo e espaço definidos. A lei sobre marcas no corpo em Levítico foi dada a um povo específico (Israel), num contexto específico (o deserto/Canaã), cercado por culturas específicas (egípcia, cananeia). Ignorar o Sitz im Leben (situação na vida) do texto é ignorar a intenção original do autor divino e humano. A pergunta chave é: O que este texto significou para os primeiros leitores?.  


  3. O Aspecto Contextual (Atualização): Esta é a tarefa da hermenêutica contemporânea. Como a mensagem eterna se aplica à realidade latino-americana, plural e moderna? Não basta repetir a proibição antiga; é necessário transpor o princípio por trás da lei. A pergunta chave é: O que este texto diz a nós hoje, em nosso contexto sociocultural?.  


A Leitura Popular e a Teologia Indígena


Além da exegese acadêmica clássica, é vital considerar as perspectivas da "Leitura Popular da Bíblia" e da "Teologia Indígena", que enfatizam a realidade vivida pela comunidade. A Leitura Popular busca conectar a Bíblia com a vida cotidiana, onde a tatuagem muitas vezes aparece não como questão teológica abstrata, mas como marca de identidade cultural ou juvenil.  


Paralelamente, a Teologia Indígena nos lembra que Deus fala através da cultura. Os povos originários possuem tradições de pintura corporal que são intrínsecas à sua identidade. A demonização automática dessas práticas pode ser uma forma de colonialismo teológico, e não uma aplicação do Evangelho. A teologia deve discernir entre o que é idolatria cultural e o que é expressão legítima da identidade de um povo criado por Deus. Como afirma Marcelo Vargas, o Evangelho deve encarnar-se na cultura, transformando-a por dentro, e não apenas impor uma roupagem ocidental.  


III. Estudo Bíblico Veterotestamentário: Exegese de Levítico e a Teologia da Marca


O epicentro do debate bíblico sobre tatuagens encontra-se no Antigo Testamento, especificamente no código de santidade de Levítico. Uma análise exaustiva deste texto, em comparação com outras práticas de modificação corporal no Pentateuco, é indispensável.


Exegese Detalhada de Levítico 19:28


"Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o SENHOR." (Levítico 19:28)

1. Análise Lexicográfica


O versículo contém termos hebraicos técnicos e raros que definem a natureza da proibição:


  • "Golpes" (Seret): Refere-se a incisões, cortes ou lacerações. A raiz da palavra implica arranhar ou cortar a superfície.


  • "Marca" (Qa'aqa): Este é um hapax legomenon (palavra que ocorre apenas uma vez em toda a Bíblia Hebraica). Sua etimologia é incerta, mas é amplamente aceita por linguistas semitas como referindo-se a uma marca feita por incisão e preenchimento com pigmento — a definição técnica de tatuagem. A frase completa uketovet qa'aqa pode ser traduzida literalmente como "e uma escrita de incisão/tatuagem".


  • "Pelos mortos" (Lanephesh): Esta preposição é a chave hermenêutica do versículo. A proibição não é contra a incisão per se, mas contra a incisão feita com o propósito de luto ou culto aos mortos.


2. O Contexto Religioso do Antigo Oriente Próximo


Para entender a proibição, devemos olhar para os vizinhos de Israel. Em Ugarit e Canaã, o luto era um ritual visceral. Diante da morte, os pagãos cortavam a própria carne para demonstrar desespero ou para oferecer seu sangue como libação às divindades ctônicas (do submundo), numa tentativa de garantir uma passagem segura para o falecido ou aplacar espíritos. Em 1 Reis 18:28, vemos os profetas de Baal cortando-se "com facas e com lancetas... até derramarem sangue" para invocar seu deus. A marca no corpo era, portanto, um ato de pactuação com entidades espirituais alheias a YHWH.


3. A Teologia da Santidade e Propriedade


O refrão "Eu sou o SENHOR" (YHWH) ao final do versículo estabelece a antítese. Israel não deveria marcar-se pelos mortos porque Israel pertence ao Deus Vivo. Marcar o corpo em honra a outra entidade seria uma violação dos direitos de propriedade divina sobre o corpo do israelita. A lei visava a preservação da identidade distinta de Israel. Se eles adotassem os rituais fúnebres de Canaã, a distinção teológica entre o Deus da Vida e os cultos da morte desapareceria.


O Contraponto Teológico: A Circuncisão em Gênesis 17


Uma análise comparativa com Gênesis 17 revela uma nuance fascinante frequentemente ignorada pelos proibicionistas. Deus proíbe as incisões de Levítico 19:28, mas ordena uma incisão irreversível e dolorosa em Gênesis 17: a circuncisão.

Conforme o Word Biblical Commentary , a circuncisão (brit milah) envolvia a remoção do prepúcio e era o "sinal da aliança" (ot berit).  


  • A Natureza do Sinal: O termo hebraico para sinal (ot) indica algo que aponta para uma realidade maior. A circuncisão era um sinal mnemônico, lembrando ao israelita, em sua própria carne, que ele pertencia à comunidade da aliança.


  • O Paradoxo do Corte: Por que Deus proíbe cortar a pele em Levítico mas ordena cortar a pele em Gênesis? A resposta reside no significado e na dedicação. A modificação corporal não é um mal intrínseco (malum in se). O que torna o corte "santo" (circuncisão) ou "profano" (tatuagem pelos mortos) é a Aliança a que ele serve. A circuncisão marcava a entrada na vida da comunidade de Deus; as incisões de Levítico marcavam a associação com a morte e a idolatria.


Isso estabelece um princípio teológico crucial: a moralidade da marca corporal na Bíblia é dependente de sua função pactual. O corpo pode ser marcado para Deus (santidade) ou para os ídolos (profanação).


Outras Evidências no Antigo Testamento


  • Isaías 44:5: O profeta vislumbra um futuro messiânico onde os gentios se converterão. Ele escreve: "Este dirá: Eu sou do SENHOR... e outro escreverá na sua mão: Eu sou do SENHOR". Aqui, a imagem de escrever na própria pele (uma tatuagem de devoção) é usada positivamente como metáfora de conversão radical e pertença voluntária a Deus.


  • Ezequiel 9:4: Na visão do profeta, um anjo marca a testa dos justos com um sinal (a letra Tav). Novamente, a marcação divina distingue os salvos dos ímpios, reforçando a ideia de propriedade.


IV. Estudo Bíblico Neotestamentário: O Corpo, o Templo e a Liberdade


O Novo Testamento não reitera explicitamente a proibição de Levítico 19:28, o que sugere que ela era classificada como parte da lei cerimonial/civil de Israel, cumprida em Cristo. A discussão no Novo Testamento desloca-se para a teologia do corpo e da consciência.


1. A Teologia do Corpo como Templo (1 Coríntios 6:19-20)


"Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo...? Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo."

O argumento proibicionista clássico afirma que tatuar o corpo é "pichar" o templo de Deus. No entanto, uma exegese contextual revela que Paulo estava combatendo a imoralidade sexual (prostituição cultual em Corinto), que unia o corpo de Cristo a uma meretriz. A aplicação à tatuagem exige cautela. Se adornar um templo físico com afrescos e arte (como o Templo de Salomão) era uma forma de glorificar a Deus, a questão sobre a tatuagem torna-se estética e intencional: a imagem gravada no "templo" do corpo glorifica o Criador ou profana a santidade com obscenidade?


2. As "Marcas de Jesus" (Gálatas 6:17)


"Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no meu corpo as marcas de Jesus."

Paulo usa a palavra grega stigmata. No mundo greco-romano, stigmata eram marcas tatuadas ou queimadas em escravos para denotar propriedade, ou em devotos religiosos para indicar consagração a um deus. Paulo, provavelmente referindo-se às cicatrizes de seus açoitamentos, apropria-se desse termo técnico da tatuagem/marcação para declarar sua escravidão a Cristo. Ele não rejeita a ideia de ser "marcado" no corpo; ele apenas insiste que suas marcas proclamam a propriedade de Jesus, e não de senhores humanos ou ídolos.


3. A Visão Escatológica (Apocalipse 19:16)


O Cristo glorificado é descrito com uma inscrição: "E no manto e na sua coxa tem escrito este nome: REI DOS REIS, E SENHOR DOS SENHORES." Embora possa ser uma inscrição no manto que cobre a coxa, a linguagem visual associa a identidade escrita à pessoa física de Cristo. Isso sugere que a inscrição de um nome ou título não é intrinsecamente desonrosa, mesmo num corpo glorificado.


V. Aspectos Jurídicos, Sociológicos e a "Secularização" da Marca


A teologia não existe no vácuo. A interpretação bíblica atual ocorre dentro de um Estado Democrático de Direito e de uma sociedade plural. A análise do Recurso Extraordinário 898.450/SP do Supremo Tribunal Federal (STF) oferece subsídios vitais para entender como a tatuagem deixou de ser um "sinal de besta" para ser um direito fundamental.  


A Tatuagem e os Direitos Fundamentais


A decisão do STF, que proibiu a exclusão de candidatos tatuados de concursos públicos, baseia-se em princípios que ecoam a dignidade humana bíblica:


  1. Liberdade de Expressão e Personalidade: O STF reconheceu a tatuagem como uma forma de free speech (liberdade de expressão) e um reflexo da identidade pessoal. O Estado não pode impor uma estética padrão, assim como a igreja deve reconhecer a diversidade cultural.


  2. A Presunção de Liberdade (Freiheitsvermutung): Citando o jurista alemão Friedrich Müller, o tribunal afirmou que a liberdade é a regra; a restrição é a exceção. Teologicamente, isso se alinha com a doutrina da "Graça Comum" e da liberdade cristã: o que a Bíblia não proíbe explicitamente, a consciência humana é livre para explorar, desde que não viole princípios morais absolutos.  


O Conceito de "Fighting Words" e o Limite da Expressão


O STF estabeleceu, contudo, que a liberdade não é absoluta. Tatuagens que incitam o ódio, o racismo ou a violência (ex: suástica, "morte aos policiais") não são protegidas. O tribunal utilizou a doutrina norte-americana das "fighting words" (palavras que agridem e incitam reação violenta imediata) e o "Miller Test" (teste de obscenidade) para traçar a linha demarcatória.


Aplicação Teológica: Esse conceito jurídico é perfeitamente aplicável à ética cristã. Embora a tatuagem em si possa ser adiaphora (questão neutra), o conteúdo da tatuagem deve passar pelo crivo de Filipenses 4:8 ("tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto... nisso pensai"). Uma tatuagem que viola os valores constitucionais de dignidade humana certamente viola os valores do Reino de Deus.  


Dados Sociológicos e a Mudança de Paradigma


A jurisprudência cita pesquisas (The Harris Polls) mostrando que a tatuagem permeou a classe média e alta. O fato de a Marinha e o Exército dos EUA terem relaxado suas regras sobre tatuagens visíveis em 2016 demonstra que a tatuagem não é mais vista como incompatível com a disciplina, a ordem ou a honra. Isso desmonta o argumento teológico tradicional da "aparência do mal" baseada na associação com a criminalidade. Se a sociedade não vê mais o tatuado como um criminoso em potencial, o "escândalo" cultural deixa de existir, restando apenas o preconceito anacrônico.  


VI. Visões Doutrinárias e Denominacionais


A interpretação da questão varia conforme a tradição teológica e a ênfase hermenêutica de cada denominação.


Tabela: Comparativo de Visões Denominacionais sobre Tatuagem

Tradição

Ênfase Doutrinária

Posição sobre Tatuagem

Base Teológica Principal

Católica Romana

Lei Natural e Virtude

Permitida (com ressalvas). Não é intrinsecamente má, mas deve respeitar a modéstia e não conter blasfêmia. Em algumas culturas (Bálcãs, Egito), é tradição identitária.

Catecismo (moralidade dos atos humanos); Tradição cultural.

Reformada (Calvinista)

Soberania de Deus e Cosmovisão

Cautela/Liberdade de Consciência. Enfatiza que o corpo pertence a Deus. A tatuagem não deve ser fruto de vaidade mundana, mas a proibição cerimonial de Levítico não se aplica.

Confissão de Westminster (Liberdade de Consciência); Teologia da Cultura.

Pentecostal Clássica

Santidade e Separação do Mundo

Historicamente Proibida. Vista como "conforme-se com este mundo" (Rm 12:2). Ênfase na leitura literal de Levítico e "usos e costumes".

Levítico 19:28; Doutrina da Santificação exterior.

Neopentecostal / Renovada

Batalha Espiritual e Graça

Geralmente Aceita. Foco na prosperidade e conquista. A tatuagem pode ser ressignificada como marca de fé.

"O Senhor olha o coração" (1 Sm 16:7).

Luterana

Distinção Lei x Evangelho

Permitida. A lei cerimonial foi abolida. A fé justifica, não a aparência. Foco na liberdade cristã (Martin Luther's Christian Liberty).

Gálatas 5 (Liberdade em Cristo).

Adventista do Sétimo Dia

Saúde e Mordomia do Corpo

Desencorajada. Forte ênfase no corpo como templo de saúde. Riscos sanitários e a ênfase na beleza natural pesam contra a prática.

1 Coríntios 6:19; Teologia da Saúde.

VII. Exposição Devocional: Princípios para o Discernimento Cristão Atual


À luz da exegese bíblica, da história e da realidade jurídica atual, a questão da tatuagem para o cristão contemporâneo desloca-se do campo da legalidade ("é pecado?") para o campo da sabedoria ("convém?"). O cristão é chamado a uma ética superior à da lei civil.


1. O Princípio da Intencionalidade (Por que?)


A motivação define a moralidade do ato.


  • Se a tatuagem é feita por rebeldia (contra pais ou autoridades), o pecado reside na insubmissão, não na tinta.


  • Se é feita por idolatria estética ou vaidade excessiva, torna-se um ídolo que compete com Deus.


  • Se é feita como memorial, arte ou expressão de fé, pode ser uma celebração da criatividade que Deus deu ao homem.


2. O Princípio da Mensagem (O quê?)


O corpo do cristão é um outdoor do Reino. O conteúdo da tatuagem é crucial. Símbolos de morte, ocultismo, sexualidade ilícita ou agressividade (as "fighting words" teológicas) são incompatíveis com a habitação do Espírito. Por outro lado, marcas que exaltam a Cristo, a família ou a beleza da criação podem ser formas de "escrever na mão: Eu sou do SENHOR" (Isaías 44:5).


3. O Princípio da Consciência e do Escândalo (Para quem?)


O apóstolo Paulo ensina em Romanos 14 e 1 Coríntios 8 que a liberdade de um não deve ser pedra de tropeço para outro.


  • Em contextos onde a tatuagem ainda é fortemente associada ao crime ou ao paganismo (certas missões transculturais ou comunidades muito conservadoras), o cristão pode abrir mão de sua liberdade por amor ao evangelho.


  • No entanto, o "escândalo" deve ser real, não fabricado pelo legalismo. Como a sociedade ocidental (conforme visto no STF) já normalizou a tatuagem, o argumento do escândalo perdeu grande parte de sua força fática nas áreas urbanas.


4. A Redenção da Memória


Para aqueles que carregam marcas de um passado longe de Deus, a mensagem do Evangelho é de plena aceitação. Deus não exige a remoção a laser para a salvação. A graça de Deus é suficiente para ressignificar qualquer marca. O que antes era símbolo de rebeldia pode tornar-se testemunho de transformação: "Eu era assim, mas Cristo me lavou".


VIII. Conclusão


A Bíblia não contém uma proibição universal e atemporal sobre a prática da tatuagem artística tal como a conhecemos no século XXI. A vedação de Levítico 19:28 é específica, contextual e ligada a rituais de necromancia e idolatria que afrontavam a soberania de YHWH. A teologia bíblica, ao contrastar as incisões proibidas com a circuncisão ordenada, ensina que o problema não é a alteração da pele, mas a aliança espiritual que ela representa.


Hoje, amparado por uma sociedade que dissociou a tatuagem da marginalidade — reconhecimento formalizado pelas cortes supremas e pela sociologia moderna — o cristão goza de liberdade de consciência sobre o tema. Contudo, essa liberdade é balizada pela responsabilidade de tratar o corpo com dignidade, evitar a aparência do mal moral (obscenidade/ódio) e agir sempre com a motivação de glorificar a Deus.


A pele humana é efêmera, mas a identidade nela inscrita pode ecoar valores eternos. Seja marcada ou intacta, a única marca indispensável para o cristão não é feita com tinta, mas com o Espírito: o selo da redenção para o dia da eternidade.

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