A preguiça e a procrastinação: venenos para a alma
- João Pavão
- 1 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
O ouvido que ouviu e o olho que vê, o Senhor os fez, tanto um como o outro. Não ame o sono, para que você não empobreça; abra os olhos e você terá pão de sobra. (Provérbios 20.12,13)
Deus te deu olhos e ouvidos: use-os com sabedoria

Antes de nos advertir contra o amor ao sono, Provérbios nos recorda de uma verdade essencial: “O ouvido que ouve e o olho que vê — o Senhor os fez, tanto um como o outro.” (Pv 20.12).
Este versículo funciona como uma porta de entrada (janus) para os dois caminhos que se abrem diante do ser humano: o da diligência e o da letargia.
Sua estrutura, forma e vocabulário se ligam aos versículos anteriores (especialmente os vv. 8 e 10), mas já preparam o caminho para o v.13, criando uma ponte temática entre a justiça divina e a responsabilidade humana.
No contexto da sabedoria bíblica, “ver” e “ouvir” não são apenas funções biológicas. São instrumentos espirituais para discernir, aprender e obedecer.
Em termos linguísticos, o versículo segue o padrão hebraico de paralelismo sintético, com a construção nominativa absoluta no primeiro verseto (“quanto ao ouvido e ao olho”) e o uso do pronome implícito na segunda metade. Ambos os órgãos — ’ōzen (ouvido) e ʿayin (olho) — são apresentados como criações intencionais de Deus, revelando o cuidado divino em equipar o ser humano com ferramentas para discernir, aprender e obedecer.
Assim, o versículo 12 não é uma observação trivial. É um chamado pedagógico: Deus criou o ser humano com capacidade para ver e ouvir, e espera que essas capacidades sejam usadas para acolher a sabedoria e resistir ao erro.
No livro de Provérbios, “ver” e “ouvir” não são apenas atividades sensoriais, mas ações espirituais.
Ouvir está diretamente ligado à educabilidade. As mais de 30 ocorrências de "ouve" ou "escuta" na obra indicam não só a escuta física, mas o comprometimento com a obediência (cf. Pv 1.8; 2.2).
Ver, por sua vez, está associado à discernimento moral (Pv 6.6; 7.7; 22.3) e à vigilância diante do mal.
Dessa forma, Provérbios 20.12 estabelece a base para o que vem a seguir: o bom discípulo é aquele que ouve com atenção e vê com discernimento, pois somente assim poderá resistir às armadilhas da preguiça, da negligência e da morte moral.
A procrastinação como pecado "tolerável" pela sociedade

O versículo 13 se conecta ao anterior por meio da palavra-chave “olho”, estabelecendo agora uma transição da criação divina para a responsabilidade humana.
O verbo “amar” aqui (hebraico: ’ahav) tem força de admoestação retórica. O texto não está dizendo que o sono é sempre ruim — afinal, o mesmo livro reconhece o sono como dádiva (Pv 3.24). A advertência é contra o “amor ao sono”, ou seja, o apego à preguiça, à letargia e ao adiamento do agir.
Hoje, esse comportamento tem nome: procrastinação.
A procrastinação é a nova pandemia moral contemporânea. Procrastinar é adiar decisões, ações e compromissos, mesmo sabendo das consequências. E esse comportamento tem se tornado cada vez mais comum:
70% dos brasileiros admitem procrastinar frequentemente.
20% são considerados procrastinadores crônicos.
As buscas por “procrastinação” cresceram 90% nos últimos cinco anos.
Os principais motivos? Cansaço, falta de tempo e preguiça.
Mas os dados vão além: a procrastinação está fortemente ligada à ansiedade, à depressão e à desorganização emocional. O que era apenas um “atraso inofensivo” tem se tornado uma forma de paralisia existencial.
E em tempos digitais, o sono moderno tem outro nome: scroll infinito. A pessoa acorda com os olhos abertos, mas está espiritualmente adormecida — dominada por distrações, estímulos vazios e cansaço mental provocado pelo excesso de redes sociais.
“Abre os olhos”: Rompa o ciclo. Desperte.

A parte final do provérbio inverte o raciocínio anterior: se amar o sono leva à pobreza, então despertar conduz à fartura.
A expressão “abrir os olhos” aparece 20 vezes no Antigo Testamento, sendo 19 delas associadas à vigilância espiritual, consciência e discernimento. Ela não sugere apenas estar acordado fisicamente, mas estar desperto moralmente — atento à realidade, ao chamado de Deus e às oportunidades que exigem ação.
Mais do que um imperativo volitivo (“tente”), o texto bíblico carrega a certeza da reciprocidade divina: quem vive desperto colhe fartura. Não apenas pão literal, mas fruto de uma vida que cumpre sua vocação.
Não estamos falando apenas de perder dinheiro ou produtividade. Estamos falando de perder vida: perder relacionamentos, fé, missão, tempo — tudo por permanecer em inércia.
O trabalhador prudente, como Deus no início da criação, deve lutar contra o caos iminente e sustentar a vida.
Isso exige vigilância, ação e disciplina espiritual.
Este é o chamado: Deus te equipou. Agora, cabe a você usar.
Levantar cedo, planejar com clareza, resistir às distrações e cultivar a ação com propósito não são apenas hábitos de sucesso — são práticas espirituais. São escolhas de vida contra a morte por omissão.



